Correio da Cidadania

CEBs: uma Igreja que é militante de um Mundo Novo

Mensagem da Ampliada das CEBs do Brasil às Comunidades Eclesiais de Base –  CEBs do Brasil
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) não são somente uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo (como vimos), mas são também - e ao mesmo tempo - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo.

Por serem uma Igreja profundamente inserida e encarnada na vida do Povo, as CEBs são aliadas ou organicamente ligadas a todas as forças sociais populares: movimentos sociais populares, sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras, partidos políticos populares, conselhos de direitos, fóruns ou comitês de defesa dos direitos humanos e de cuidado com a irmã mãe terra (nossa casa comum), de comissões de justiça e paz, de entidades de jovens estudantes e outras organizações populares.

As CEBs têm uma identidade eclesial, reconhecem a autonomia das forças sociais populares e são parte integrante delas.

Por serem portadoras do novo, as forças sociais populares fazem acontecer um projeto alternativo ao projeto capitalista neoliberal dominante: o projeto popular (social, econômico, político, ecológico, cultural e religioso), o projeto de outro mundo possível, o projeto de um mundo novo, que - à luz da fé - é o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Em sua ação evangelizadora, ou seja, no anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus, as CEBs são servidoras e samaritanas, vivem a compaixão e a misericórdia e estão sempre do e ao lado dos pobres.

Para as CEBs, a “opção pelos pobres” (empobrecidos), marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados não é uma “opção preferencial”, ou seja, não é uma alternativa entre duas ou mais alternativas, mas é o caminho que leva à vida: o caminho de Jesus de Nazaré e de seus seguidores e seguidoras.

A “opção pelos pobres” é profundamente evangélica - profética e libertadora - e não meramente ideológica (embora as ideologias sejam uma mediação necessária, por ser o ser humano um ser histórico, situado e datado). Ela é o eixo estruturante do jeito de ser Igreja das CEBs e de sua ação evangelizadora. Todos e todas são convidados e convidadas a entrar nesse caminho. A partir dos e das pobres - e junto com eles e elas - as CEBs participam do processo de libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos no mundo com o mundo, segundo o Projeto de Deus.

O referencial das CEBs é sempre a práxis de Jesus de Nazaré. Pela sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade, ele tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei.

“Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve coragem de segui-lo e foi embora triste. Encontrou com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens.

A presença de Jesus e o anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus - que é a sua Utopia, o seu Projeto de Vida - não deixaram e não deixam ninguém indiferente (ou, como se costuma dizer, “em cima do muro”). Todos e todas sentiram-se e sentem-se obrigados e obrigadas a tomar uma posição: a favor ou contra.

Pela sua pregação, Jesus foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).

Em nossa realidade, a “opção pelos pobres” leva necessariamente as CEBs - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo - a tomar uma posição clara e firme contra o sistema capitalista neoliberal, denunciando - com coragem profética - a perversidade do sistema, e lutando para abrir caminhos novos que levem a mudanças não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais, em vista de um novo modelo de sociedade.

Por fim, as CEBs são uma “Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres": a Igreja de Jesus de Nazaré, a nossa Igreja.


Marcos Sassatelli é Frade dominicano e teólogo.