Brasil bate recorde de casos uma semana antes do Natal

O Brasil bateu o recorde do número diário de pessoas infectadas pelo coronavírus com 70.574 casos no dia 16/12 e com 69.826 casos no dia 17/12. No acumulado o país passou de 7,2 milhões de casos. A média diária da 51ª semana epidemiológica (SE de 13 a 19/12) ficou em 47.509 casos número maior do recorde anterior que aconteceu na 30ª SE (19 a 26/07) e que havia ficado em 45.665 casos. A curva de casos apresenta uma distribuição bimodal, mostrando que o Brasil está em plena segunda onda e com um segundo pico já superior ao primei pico ocorrido em julho.

A média de vidas perdidas ficou em 745 óbitos diários na 51ª SE. Em geral, quando o número de pessoas infectadas cresce, o número de óbitos também aumenta após certo lapso de tempo. Isto quer dizer que o Brasil pode apresentar também um segundo pico de mortes ainda maior do que o primeiro pico. Indubitavelmente, os brasileiros não terão um feliz ano novo. A marca de 200 mil mortes da covid-19 deve ser alcançada no Brasil, no máximo, até o Dia de Reis (06/01/2021).

Ao invés de controlar a covid-19 (como fizeram a Nova Zelândia e outros países), o Brasil relaxou e deixou o vírus tomar conta do território nacional e agora o país pode começar 2021 com um surto pandêmico mais elevado do que em qualquer momento anterior. Pesquisa Datafolha mostra que o isolamento social no país caiu ao menor nível desde o início da pandemia. A parcela dos entrevistados que afirmou estar tomando cuidado, mas que sai de casa para trabalhar ou fazer outras atividades ficou em 54% neste mês, contra 24% em abril.

O Brasil passa por uma situação terrível, pois enquanto avança a 2ª onda, ainda não teve início o processo de imunização da população. O Ministério da Saúde estima o começo da vacinação em massa, na melhor das hipóteses, para fevereiro de 2021. Mas a percentagem de brasileiros que devem ser vacinados nos primeiros 4 meses do próximo ano, provavelmente, não será muito elevada. Em consequência, já existem previsões de que o Brasil possa chegar a 300 mil mortes no final de abril ou início de maio de 2021.

O mundo deve terminar 2020 com 1,8 milhão de vítimas fatais do SARS-CoV-2. O Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME), da Universidade de Washington, estima que o número global de mortes da covid-19 pode ficar entre 2,5 milhões e 3,3 milhões até o dia 01/04/2021. Ou seja, o cenário nacional e internacional da pandemia não será de alívio nos primeiros meses do novo ano.

O panorama nacional

O Ministério da Saúde divulgou os dados nacionais da covid-19, registrando 7.213.155 pessoas infectadas e a 186.356 vidas perdidas no dia 19 de dezembro. Foram 50.177 casos e 706 mortes nas últimas 24 horas. O Brasil continua em 3º lugar no ranking global de casos (atrás apenas dos EUA e da Índia) e no 2º lugar no número de mortes (atrás apenas dos EUA). Atualmente apresenta números diários de casos e de mortes superiores aos da Índia.

O gráfico abaixo mostra as variações absolutas diárias do número de casos no território nacional entre 01/03 a 19/12 e a média móvel de 14 dias. Desde o início de março, o número de pessoas infectadas cresceu continuamente até o pico de 45.078 casos no começo de agosto. Nas semanas seguintes os números caíram para menos de 20 mil casos na primeira semana de novembro, mas voltaram a subir no restante do mês. A curva apresenta uma distribuição bimodal com o segundo pico mais elevado do que o primeiro. A média móvel de 7 dias que estava em 16,5 mil casos no dia 6 de novembro, passou para 47,5 mil casos em 19 de dezembro de 2020 (um aumento de 187%).

 

O gráfico abaixo mostra as variações absolutas diárias do número de óbitos no território nacional entre 15/03 e 19/12 e a média móvel de 14 dias. Nota-se que o número de vidas perdidas cresceu rapidamente desde o primeiro óbito em meados de março até o final de maio quando ficou acima de 1 mil vítimas fatais diárias e se manteve neste patamar elevado até o pico de 1.061 óbitos no final de julho. Entre agosto e outubro a média caiu para um patamar abaixo de 400 óbitos diários, mas subiu no mês de novembro. A curva epidemiológica voltou a apresentar tendência ascendente, o que requer muito cuidado no final do ano com a sobrecarga do sistema de saúde. A média móvel de 7 dias estava em 329 óbitos no dia 11/11 e pulou para 745 óbitos no dia 19/12 (um aumento de 127%).

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos números de casos e de mortes da covid-19 no Brasil, de 29 de março a 19 de dezembro. Nota-se que todas as baixas acontecem nos fins de semana e as elevações nos dias úteis. Mas as linhas (pontilhadas) da tendência polinomial de terceiro grau apresentam uma suavização das oscilações sazonais. As curvas epidemiológicas estavam subindo no primeiro semestre e atingiram um pico em julho. Nos meses de agosto a outubro a tendência foi de queda do número de casos e de mortes.

Mas em novembro houve novamente uma reversão das curvas que passaram a apresentar uma tendência de alta. O pico da média móvel de casos da segunda onda já supera o pico da primeira onda e o ajuste polinomial de terceiro grau aponta para uma média móvel de pessoas infectadas em torno de 50 mil casos no dia 31 de dezembro. A média móvel de mortes também apresenta tendência de alta, sendo que o ajuste polinomial indica que a curva epidemiológica de mortalidade deve se aproximar da média de 1.000 óbitos diários na virada do ano.

O panorama global

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo chegou a 75 milhões de pessoas infectadas e a 1,7 milhão de mortes da covid-19, com uma taxa de letalidade de 2,2%. Nos primeiros dias de dezembro a média móvel da quantidade diária de pessoas infectadas ficou acima de 650 mil casos e a média diária de vidas perdidas ficou acima de 11 mil óbitos.

Nos meses de janeiro e fevereiro a pandemia estava, fundamentalmente, restrita à Ásia. Mas no mês de março a propagação do SARS-CoV-2 atingiu fortemente a Europa e os Estados Unidos e parecia que haveria declínio da segunda metade de abril. Contudo, conforme mostra o gráfico abaixo, o número de casos continuou crescendo continuamente a partir de maio, deu uma desacelerada em agosto e setembro e a curva voltou a acelerar em outubro e novembro. Em dezembro a média móvel ficou acima de 600 mil pessoas infectadas a cada 24 horas, sendo que em alguns dias ultrapassou a marca de 700 mil casos diários.

Com as baixas temperaturas do inverno no hemisfério Norte, não parece que a curva vai apresentar viés de baixa neste final de ano.

O gráfico abaixo mostra o número diário de óbitos no mundo e a média móvel de 14 dias. A maior subida do número de mortes aconteceu em março e o pico da média móvel ocorreu em meados de abril com cerca de 7 mil vidas perdidas por dia. A partir deste pico, o número diário de vítimas fatais caiu até o final de maio e voltou a crescer e a oscilar entre 4 mil e 6 mil mortes diárias.

Todavia, a 2ª onda ocorrida na Europa e na América do Norte fez o mundo alcançar novos recordes de mortes. Novos picos foram alcançados em novembro e a média móvel chegou a 10 mil mortes diárias em novembro e superou 11 mil mortes em dezembro, com alguns dias superando 13 mil mortes diárias. Apenas o continente norte-americano apresentou 8 mil mortes diárias, sendo que os 3 maiores países das Américas (EUA, Brasil e México) apresentam tendência de alta da mortalidade.


A covid-19 deve reduzir a esperança de vida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

Na maior parte da história humana – desde o surgimento do Homo sapiens – a esperança de vida ao nascer sempre foi muito baixa. Por volta de 1800, a esperança de vida ao nascer da população mundial estava em torno de 28 anos e, com os avanços econômicos, sanitários e médicos do século XIX, passou para 32 anos em 1900, segundo o “Our World in Data”. Mas no século XX a esperança de vida ao nascer deu um salto e passou para 66 anos no ano 2000 e a 72,8 anos em 2019. A vida média dos habitantes do Planeta dobrou em 100 anos e continuou aumentando, fato nunca ocorrido no passado. Pode-se dizer que foi a maior conquista da humanidade de todos os tempos, pois o aumento do tempo de vida médio das pessoas contribuiu não só para a realização pessoal dos cidadãos, mas para a melhoria das condições de vida das famílias e para o desenvolvimento econômico e social.

O Brasil e a China são dois grandes países que tinham esperança de vida ao nascer abaixo de 30 anos em 1900 chegaram a mais de 70 anos no ano 2000 e, em 2019, atingiram 75,9 anos no Brasil e 76,9 anos na China. Nas últimas 5 décadas, os ganhos foram contínuos e significativos. Contudo, pela primeira vez, a esperança de vida deve apresentar redução em boa parte do mundo em 2020 em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

A tabela abaixo mostra o impacto diferenciado da pandemia. No mundo, em 19/12/2020, o coeficiente de incidência estava em 9,8 mil casos por milhão de habitantes e o coeficiente de mortalidade em 217 óbitos por milhão de habitantes. Na China os coeficientes ficaram em 60 casos por milhão e 3 óbitos por milhão. No Brasil, muito mais afetado do que a China e a média mundial, os coeficientes ficaram em 33,9 mil casos por milhão e 877 óbitos por milhão.

 

Por falta de dados para todo o ano de 2020, ainda não é possível avaliar com precisão qual será o impacto da covid-19 sobre a esperança de vida ao nascer (Eo). Mas estimativas preliminares mostram que a covid-19 não deve reduzir a esperança de vida na China em 2020, embora deva diminuir a esperança de vida ao nascer entre 0,2 e 0,5 ano no mundo e deva diminuir entre 1 e 2 anos no Brasil. Portanto, o Brasil vai deixar de apresentar os ganhos dos últimos 50 anos e vai ter perda absoluta na expectativa de vida em 2020, sendo um dos países mais impactados do mundo.

Mas, infelizmente, a covid-19 também vai afetar negativamente a renda per capita e a educação no Brasil. Isto quer dizer que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que é composto por indicadores de renda, escolaridade e esperança de vida – deve sofrer baixa absoluta em 2020. No ano passado, o Brasil teve ligeira melhora no índice absoluto, mas perdeu 5 posições no ranking mundial, pois outros países avançaram mais rápido.

Comparando o Brasil e a China, o gráfico abaixo mostra que, em 1990, o IDH do Brasil era de 0,613 e o da China de 0,499 (o IDH do Brasil era 23% maior). Em 2010, o IDH do Brasil tinha passado para 0,727 e o da China para 0,699 (Brasil tinha um IDH 4% maior). Em 2019, os dois IDHs estavam praticamente empatados em 0,76.


Como o Brasil deve apresentar queda na esperança de vida, queda na renda per capita e queda no ritmo e na qualidade da educação em 2020, deverá apresentar também redução do valor do IDH. Já a China deve apresentar crescimento absoluto do IDH em 2020, pois teve uma quantidade de mortes da covid-19 muito pequena, vai apresentar um crescimento pequeno, mas positivo da renda per capita e mantém as escolas funcionando e com avanço da escolaridade.

Portanto, a China deve ultrapassar o Brasil no ranking do IDH quando forem divulgados os dados do corrente ano.

O ano de 2020 vai ser um marco da mudança. Esta alteração no ranking do IDH não é surpresa para os analistas que acompanham a evolução histórica do desempenho dos dois países. Mas certamente vai ser difícil para o presidente Jair Bolsonaro explicar para o seu público como a China “comunista e ateia” está se dando melhor do que o país do lema “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”.

O Brasil teve a 2ª década perdida (2011-20) e já vislumbra a 3ª década perdida (2021-30)

O Brasil foi um dos países do mundo com maior crescimento absoluto da economia e da população no século 20. Em 1900, a população mundial era de 1,54 bilhão de habitantes e a do Brasil 17,9 milhões de habitantes (a população brasileira representava 1,2% do total global). No ano 2000, a população mundial passou para 6,1 bilhão e o Brasil para 173 milhões de habitantes (representando 2,8% do total dos habitantes do mundo). O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil representava 0,5% do PIB mundial em 1900 e passou para 3% no ano 2000. Portanto, o Brasil era um país emergente e crescia mais do que a média internacional.

Um dos períodos de maior crescimento demoeconômico na história brasileira ocorreu no governo Juscelino Kubitschek (JK, 1956-60) quando o crescimento médio anual do PIB foi de 8,1% e o crescimento da população foi de 3% ao ano. Nos 20 anos da ditadura militar o crescimento do PIB foi de 6,5% ao ano entre 1964 e 1984 e o crescimento da população foi de 2,5% ao ano, sendo que no período do chamado “milagre econômico” (1967-1973) o crescimento médio do PIB foi de 11,4% ao ano. O regime militar teve um período de grande crescimento econômico, mas também uma recessão avassaladora entre 1981-1983.

O início e o final dos anos 80 foram marcados por duas profundas crises, em consequência, o Brasil viveu a sua 1ª década perdida, com estagnação da renda per capita entre 1981 e 1990. Nos governos Fernando Henrique Cardoso (FHC, 1995-2002) e, em especial, no governo Lula (2003-10) houve uma recuperação da economia, mas longe do que ocorreu no governo JK. Todavia o Brasil entrou na 2ª década perdida no período 2011-20. A população brasileira cresceu 0,7% ao ano na década. Mas o PIB no governo Dilma Rousseff (2011-16) cresceu apenas 0,4% ao ano em média, com pequena recuperação de 1,2% ao ano no governo Temer (2017-2018). Mas considerando os governos Dilma e Temer (2011-18) – que foram eleitos em uma mesma chapa em 2010 e 2014 – o crescimento médio do PIB foi de 0,6% ao ano, portanto, menor do que o crescimento demográfico.

Mas o que estava ruim, piorou muito nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro (2019-20), com uma queda do PIB de 2% ao ano e uma queda do PIB per capita de 2,7% ao ano. Ou seja, usando os dados do “Maddison Project Database (MPD) 2020” e do FMI, a renda per capita brasileira de 2020 está equivalente à renda per capita de 2008.

 

Portanto, o Brasil se tornou um país submergente e tem crescido menos do que a média internacional. Nos 200 anos da Independência, para o país voltar ao nível da renda per capita de 2010 será preciso repetir um crescimento do PIB de 4,5% em 2021 e 2022. Todavia, para a economia voltar a crescer é preciso controlar a pandemia.

As perspectivas para o mês de janeiro não são boas, pois os números de casos e mortes da covid-19 estão em alta e o país não terá o início da vacinação em massa antes de fevereiro. Do lado econômico, o Brasil tem uma grande crise fiscal, baixos níveis de investimentos e elevado número de trabalhadores fora da população ocupada. Os indicadores apontam para uma terceira década perdida (2021-30) em função dos desequilíbrios estruturais, a começar pelos desafios para 2021 e 2022 que são enormes.

Porém, o atual ocupante do Palácio do Planalto não tem se mostrado à altura das necessidades do momento histórico para fazer a nação brasileira controlar a epidemia, recuperar a economia de maneira sustentável e voltar a emergir no cenário internacional.

Frase do dia
“Deus não reside em um céu de nuvens, simplesmente habita em mentes nubladas”
Carl Sagan (1934-1996), astrônomo, escritor e divulgador científico

Referências:

ALVES, JED. China: maior potência global e ateísta, IHU, 20/10/2018
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/583897-china-maior-potencia-global-e-ateista 
Our World in Data. Life Expectancy: https://ourworldindata.org/life-expectancy
Maddison Project Database (MPD) 2020
https://www.rug.nl/ggdc/historicaldevelopment/maddison/releases/maddison-project-database-2020  

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É colunista do Portal Colabora, onde este artigo foi originalmente publicado.

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