Uma barganha que dá nojo

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Deu na imprensa: “Ala da Igreja Católica oferece apoio a Bolsonaro em troca de verba”. “Por verbas, TVs católicas oferecem a Bolsonaro apoio ao governo”. “Padres e leigos conservadores que controlam parte do sistema de emissoras ligadas à Igreja prometem ‘mídia positiva’ para ações do Planalto na pandemia da Covid-19”.

Com profunda indignação, devemos manifestar o nosso total repúdio a essa prática de pessoas que - apesar de se dizerem cristãs católicas - jogam sua dignidade humana no lixo e, em troca de recursos públicos, estão dispostas a vender até sua própria mãe: a Igreja Católica. Trata-se de uma barganha que dá nojo!

Essas pessoas traem o Evangelho e, sem nenhum escrúpulo, usam-no para defender, legitimar e abençoar um projeto social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural), que - além de ser antidemocrático e ditatorial - é estruturalmente injusto, desumano, antiético e contrário ao projeto de Jesus de Nazaré: o Reino de Deus. Quanta hipocrisia! Quanto oportunismo!

Reparem o nível de baixaria da barganha: “A queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro tem atraído propostas de alianças em troca de recursos públicos. Uma das mais tentadoras partiu de padres e leigos conservadores que controlam boa parte do sistema de emissoras católicas de rádio e TV. Ligados à ala que diverge politicamente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dentro da Igreja, eles prometeram ‘mídia positiva’ para ações do governo na pandemia do novo coronavírus. Em contrapartida, porém, pediram anúncios estatais e outorgas para expandir sua rede de comunicação”. Que vergonha!

A proposta foi feita no dia 21 de maio, “em videoconferência com a participação de Bolsonaro, sacerdotes, parlamentares e representantes de alguns dos maiores grupos católicos de comunicação, no Palácio do Planalto. A reunião foi pública e transmitida por redes sociais do Planalto e pela TV Brasil. Na ‘romaria virtual’, o grupo solicitou acesso ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e, principalmente, à Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom). Dona do quinto maior orçamento do Executivo, a Secom tem R$ 127,3 milhões em contratos com agências de publicidade”.

O padre Welinton Silva, da TV Pai Eterno, ligada ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno - Trindade (GO), fez um dos pedidos mais explícitos, afirmando que “a emissora, há um ano no ar, passa por dificuldades e espera uma aproximação com a Secom para oferecer uma ‘pauta positiva das ações do governo’ na pandemia da Covid-19’. Disse ele: “A nossa realidade é muito difícil e desafiante, porque trabalhamos com pequenas doações, com baixa comercialização. Dentro dessa dificuldade, estamos precisando mesmo de um apoio maior por parte do governo para que possamos continuar comunicando a boa notícia (pergunto: que boa notícia?), levando ao conhecimento da população católica, ampla maioria desse país, aquilo de bom que o governo pode estar realizando e fazendo pelo nosso povo”.

O padre e cantor Reginaldo Manzotti, da Associação Evangelizar é Preciso, com rádios e TV próprias, “cobrou agilidade e ampliação das outorgas e destacou o contraponto que os católicos podem fazer para frear o atual desgaste na imagem de Bolsonaro e do governo”. Afirmou: “Nós somos uma potência, queremos estar nos lares e ajudar a construir esse Brasil. E, mais do que nunca, o senhor sabe o peso que isso tem, quando se tem uma mídia negativa. E nós (dirigindo-se ao presidente) queremos estar juntos”.

Padre Reginaldo, o senhor acha que o papel dos católicos é “ser uma potência” e “frear o atual desgaste na imagem de Bolsonaro e do governo”? Que absurdo! Que mesquinhez!

O empresário João Monteiro de Barros Neto, da Rede Vida, afirmou que “Bolsonaro é uma grande esperança” (pergunto: que grande esperança é essa?) e argumentou que os veículos católicos precisam ser “verdadeiramente prestigiados”. Barros Neto “pediu não apenas mais entrevistas, como também a participação do presidente em eventos promovidos por católicos”. Resumiu dizendo: “A Rede Vida é a quarta maior rede de TV digital do País, mas, para que possamos crescer, precisamos ter mais investimentos”.

Por fim, Bolsonaro prometeu tratar do assunto pessoalmente. Que vergonha!

(Fonte: O Estado de S. Paulo, 06/06/20).

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação - juntamente com a SIGNIS Brasil e a Rede Católica de Rádio (RCR), associações que reúnem as TVs de inspiração católica e as rádios católicas no Brasil - em Nota de Esclarecimento, declara: “Recebemos com estranheza e indignação a notícia sobre a oferta de apoio ao governo por parte de emissoras de TV em troca de verbas e solução de problemas afeitos à comunicação. A Igreja Católica não faz barganhas. Ela estabelece relações institucionais com agentes públicos e os poderes constituídos pautada pelos valores do Evangelho e nos valores democráticos, republicanos, éticos e morais”.

E ainda: “Não aprovamos iniciativas como essa, que dificultam a unidade necessária à Igreja, no cumprimento de sua missão evangelizadora, ‘que é tornar o Reino de Deus presente no mundo’ (Papa Francisco, EG, 176), considerando todas as dimensões da vida humana e da Casa Comum. É urgente, sim, nestes tempos difíceis em que vivemos, agravados seriamente pela pandemia do novo coronavírus, que já retirou a vida de dezenas de milhares de pessoas e ainda tirará muito mais, que trabalhemos verdadeiramente em comunhão, sempre abertos ao diálogo”.

Os Redentoristas (ligados à TV Pai Eterno) e os Jesuítas (ligados à TV Século XXI) emitiram também Notas, declarando que os “seus religiosos” presentes naquela reunião não foram enviados pelas Congregações.

Na Nota “É preciso indignar-se” (Querida Amazônia, 15), Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, bispo da Prelazia de Itacoatiara (AM), manifesta sua indignação e seu repúdio àquela barganha vergonhosa e ridícula, e presta sua solidariedade à Comissão Episcopal para a Comunicação e à Presidência da CNBB.

Depois de fazer alguns questionamentos e lembrar as palavras de Jesus no Templo de Jerusalém (com chicote nas mãos): “não façam da Casa de meu Pai um mercado” (Jó 2, 16), Dom José - em tom de desabafo - exclama: “Imaginemos Jesus entrando naquela reunião e ouvindo esses ‘padres’ se vendendo ao governo, fazendo da nossa fé católica um mercado, pedindo dinheiro e prometendo apoiar o governo!”.

Infelizmente, esses padres (e as outras pessoas presentes naquela reunião) foram eles mesmos que - com sua atitude mesquinha e repugnante - se excluíram da comunhão católica. Só poderão se reintegrar na comunhão da Igreja se eles se arrependerem e se retratarem publicamente. O “pecado da barganha” foi público.

Oremos: ó Deus - Santíssima Trindade, Comunidade de Amor - “seus caminhos são justos e verdadeiros”! (Ap. 15,3).


Reunião. Presidente Jair Bolsonaro em videoconferência com representantes religiosos, empresários e parlamentares
Foto: Reprodução / Youtube Presidência da República


Marcos Sassatelli é frade dominicano, doutor em filosofia (USP), em Teologia Moral (Assunção - SP) e é professor aposentado de Filosofia da UFG.

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