Correio da Cidadania

Em seu primeiro debate, presidenciáveis suplicam a bênção do mercado

 

 

Assistir ao primeiro debate de 2014 entre os candidatos à presidência da República, promovido pela Rede Bandeirantes, conduziu a um ‘espetáculo’ incrivelmente semelhante ao que já havia sido produzido nos debates de 2010. Ainda mais quando se tem em vista serem os postulantes de maior visibilidade os  porta-vozes dos mesmos partidos que polarizaram a cena política de 2010  -  PT versus PSDB -, e estarem no centro da disputa as duas mulheres que também já dividiam a tribuna em 2010 - a atual presidente Dilma e a ex-ministra do Meio Ambiente de Lula, Marina Silva, trazida de volta à contenda em função da trágica morte de Eduardo Campos.

 

As avaliações da grande mídia sobre o que se desenrolou diante dos telespectadores nesse embate inicial não fogem, por sua vez, do previsível. Dissecam, no geral,  as falas dos contendores, ressaltam o  preparo técnico e a ausência de um vencedor cabal.  O debate teria servido  apenas à consolidação de posições. É o óbvio.  Todos os principais candidatos estão, além de bem preparados tecnicamente, profundamente engessados pelas regras televisivas e, mais ainda, pela lógica  predominante da realpolitik.


Dilma

 

Dilma é um bom começo para avançar a discussão para além dessa síntese convencional. Bem mais apropriada de si e segura em sua fala do que em outras situações de similares confrontos, estava ali a conhecida ‘gerentona’, a citar números e realizações de sua gestão. Dentre eles, dois dos principais cartões de visita dos governos petistas, o Bolsa Família e o Prouni.

 

Se o Bolsa Família tem méritos pela amplitude que recebeu nos governos do PT e por tirar milhões da miséria, também carimbou nesses  governos a marca do assistencialismo e do eleitoralismo, vez que não caminhou para a melhora da formação dos cidadãos atendidos, de forma a dar-lhes autonomia - fato que é reconhecido por quadros dentro do próprio PT. Nada disso foi pontuado pelos presentes no debate promovido pela rede Bandeirantes, muito especialmente pelos que tiveram maiores oportunidades para se expressar.

 

O Prouni, uma marca do que seria a ascensão dos filhos dos trabalhadores ao ensino universitário – de acordo com as palavras da própria presidente –, carrega atrás de si o aprofundamento da crise no ensino superior público e se constitui em uma dentre as tantas formas sorrateiras de privatização sob os governos petistas.   Está aí a forte crise por que passa a maior instituição pública de ensino superior do país, a USP, Universidade de São Paulo. Obviamente que não se trata de uma responsabilidade direta do governo federal. Mas os diagnósticos sobre as origens da crise e as soluções propostas para contorná-la circunscrevem-se a uma lógica fiscalista e sucateadora do ensino e pesquisa universitários públicos, lógica esta que atravessa indistintamente governos federal e estaduais.

 

Finalmente, a candidata petista, sem se arriscar a voltar as baterias contra Marina Silva - o que a comoção gerada pela morte de Campos, a quem Marina substitui no atual pleito, não aconselharia como boa estratégia eleitoral -, puxou um Fla-Flu com o tucano Aécio Neves. Um maniqueísmo hoje rejeitado por enorme parte da população, seja ela politizada, nem tão politizada, de esquerda, direita ou de centro.

 

Trata-se, ademais, de uma falsa polarização. Para ilustrar o engodo, basta ficar no tema 'privatização', tão caro a petistas e tucanos - e que já chegou inclusive a tirar um candidato tucano de corridas eleitorais, acusado de pretender privatizar o que restava de empresas públicas do país. No caso, a diferença entre as duas agremiações políticas é apenas de gradação. De um lado, as privatizações abertas do PSDB, e a defesa ostensiva das mesmas; e, de outro,  as privatizações conduzidas mais disfarçadamente pelo PT,  das quais o Prouni é apenas um dos exemplos.

 

O tal ‘intervencionismo’ do governo, atualmente tão enunciado e rechaçado pela mídia e pelos empresários, não passa, portanto, de mera retórica. Uma das tentativas que o grande capital tem feito para trazer de volta ao páreo seu mais autêntico representante –  pelo menos até muito recentemente –, o candidato Aécio Neves.

 

Aécio


Este, por seu turno,  não se fez de rogado ao ser chamado para o ringue pela presidente Dilma, e soube protagonizar bem o Fla-Flu, desta vez ressuscitando e fazendo inúmeras referências ao patrono do partido, FHC. Neto de político tradicional, abusou da fala sedutora e do discurso conservador. Uma aula magna de retrocesso político e econômico, que remonta a muitas das oratórias da ditadura militar e aos conceitos do neoliberalismo selvagem. O mesmo que conduziu não somente o Brasil, mas todo o mundo, à enorme crise financeira de 2008, a qual nem de longe conseguiram contornar até o momento.

 

Estão aí de volta o desemprego e o baixíssimo crescimento do PIB previsto para este ano de 2014 no Brasil, que Aécio tentou a todo momento atribuir aos governos Lula e Dilma, mas cujas sementes já estavam plantadas desde as gestões de seu partido na presidência da República.

 

Marina


Para a candidata Marina Silva, dona de boa oratória, não faltaram as corriqueiras platitudes, neologismos e frases inéditas, construídas sob medida na tentativa de abranger o maior arco de apoios e alianças possíveis e de dialogar com um público ávido por mudanças, associando-se às manifestações de 2013. As noções mais antigas de ‘sustentabilidade social e ambiental’, e as construções em torno à chamada ‘nova política’, ao ‘fim do Brasil apartado’, a um ‘governo de união nacional’, foram usadas em profusão.

 

Os próprios debatedores presentes à rede Bandeirantes se encarregaram de, a partir de seus interesses eleitorais, questionar o que seria a tal ‘nova política’ para um partido que, afinal, e para dizer o mínimo, estabeleceu parceria com o PSDB.  Em São Paulo, por exemplo, o chefe da legenda estadual é candidato a vice-governador na chapa de Geraldo Alckmin. Como falar de junho de 2013 e de “nova política” aliado ao PSDB e seu governo em São Paulo, o qual utiliza corriqueiramente a repressão policial contra manifestantes, sejam eles jovens, de movimentos sociais, especialmente os pobres e negros?  Quando se fala da política de preservação do meio-ambiente, que seria um ponto forte de Marina Silva, as incongruências começam pelo seu próprio vice, Beto Albuquerque, ligado ao agronegócio e a favor dos transgênicos.

 

Há, sem sombra de dúvida, contradição insofismável entre o discurso e o pragmatismo da política de alianças adotada pelo PSB. E são evidentes as fragilidades políticas que envolvem a nova candidatura Marina, que já se mostra viável até para um segundo turno.

 

Bênção coletiva


Mas fato é que é preciso avançar à frente dessa demarcação inicial de cada uma das maiores candidaturas, para alcançar o significado real. Em síntese, é preciso salientar que, neste primeiro debate televisivo, todos os três principais candidatos explicitaram, de modo que raras vezes saltou tanto à vista, seus pedidos de bênção ao mercado.

 

Para ficar em algumas situações mais notórias, Aécio, como se poderia esperar, foi às vias de fato, mas ainda assim surpreendeu. Assumiu compromisso explícito, algo inédito em um debate eleitoral, de fazer voltar Armínio Fraga, hoje no mercado financeiro, ao Ministério da Fazenda, cargo que ocupou no antigo governo FHC.

 

Dilma, que vem sendo praticamente pisoteada em função do tal ‘intervencionismo’ e ‘dirigismo’ estatal, não se poupou de dar satisfação para o nanico e caricato Pastor Everaldo, em seus risíveis apelos pelo Estado Mínimo – noção que já passou pela autocrítica até mesmo de antigos e famosos estudiosos, arautos do liberalismo econômico. Fez questão de ressaltar que, no setor elétrico, está em atuação um número significativo de empresas privadas, especialmente na distribuição e na transmissão.

 

Quanto a Marina, questionada pela candidata do PSOL Luciana Genro sobre como fazer nova política sem enfrentar o capital e contrariar interesses, chegou a defender o agronegócio, sem mencionar as críticas que tradicionalmente lança ao setor. A justificativa utilizada foram os benefícios que o setor traz à balança comercial do país – argumento, aliás, bastante arrolado pelos ruralistas, seus desafetos.

 

Antes disso, Marina já havia também usado de sua contundência para defender temas polêmicos entre economistas de diferentes correntes. Um deles, a autonomia do Banco Central, categoricamente criticada pelo candidato do PV Eduardo Jorge, vez que seria o salvo conduto para que o capital financeiro impusesse de vez a sua lógica rentista à economia. O outro tema, o Tripé Econômico, foi citado por Marina espontaneamente em uma de suas falas, como um dos compromissos de Eduardo Campos, que ela endossaria com convicção.

 

O Tripé Econômico nada mais é do que  a adoção da taxa de câmbio, da taxa de juros e de metas fiscais (relativas a receitas e despesas do governo) com o objetivo de trazer a taxa de inflação para o centro de uma meta pré-determinada.   Essa orientação,  bastante presente na economia brasileira, ainda que sob diferentes graus, é questionada tanto por economistas progressistas, como também por economistas liberais. Para muitos, trata-se, a rigor, de um tripé da recessão e do arrocho salarial, focado em satisfazer metas que agradem organismos financeiros internacionais, em prejuízo do crescimento e  da geração de empregos no país.  Nada a ver, pois, com nova política.

 

“É constrangedor ver todos os principais candidatos se estapeando pelo voto conservador”. Palavras de Gregorio Duvivier – um dos que expressam ideias mais progressistas e arejadas na grande mídia - na Folha de São Paulo de 25 de agosto, antes do debate da Band. Não poderiam ser mais apropriadas.

 

 

Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania.