Correio da Cidadania

8 de janeiro, a guerra contra o Brasil moderno

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O início do século 21 está marcado por uma “descoberta” desconcertante. O que o senso democrático médio, aí incluído a maioria do próprio campo político de esquerda, considerava ou imaginava superado e que ninguém sonharia ou atrever-se-ia a defender ou propagar, passou a ser dito, publicado, defendido e principalmente, ouvido em público. Com cada vez mais intensidade.

A defesa da ditadura, da tortura, do golpe de 1964, da extinção de direitos sociais e a apologia à violência, ao racismo, à misoginia e à violência sexual passaram a ser manifestações emergentes que conferiam sentido e senso grupal a uma visão de mundo e a uma ideologia. O reacionarismo e os elementos neofascistas deram sentido a uma explicação desajustada ao mundo moderno e com nítido viés destruidor e revanchista. Uma explicação que transformou o processo civilizatório e o caminho tortuoso da construção da igualdade em responsáveis pelos desajustes provocados pelo neoliberalismo. Investidor fundamental dessa ascensão fascista.

Uma intentona golpista, eficaz como a de março de 1964 ou fracassada como a do General Frota em 1975, não se dá como fato isolado. A tentativa de golpe político resulta de um processo de desconstituição ideológica e até moral das bases de um bloco social e de um governo.

As investigações a respeito da tentativa de golpe de 8 de janeiro, levadas a cabo nestes 12 meses, sejam elas da CPI, da PF ou de jornalistas acurados, foram revelando que se tratou de uma ação coordenada, baseada em condições políticas e sociais que foram sendo construídas desde o impeachment fraudulento de 2016. Contudo, essas condições foram volumosamente ampliadas durante o governo de Jair Bolsonaro. A intentona golpista de 8 de janeiro foi meticulosamente preparada por Jair Bolsonaro e seu núcleo mais próximo durante os quatro anos de seu governo.

Este grande campo de extrema direita, reacionário, liderado pelo governo de Jair Bolsonaro, mobilizou-se em torno da narrativa de que as conquistas de caráter progressista seriam um projeto de destruição dos valores e, em última instância, da própria sociedade brasileira, que estaria sendo vítima de uma ruína moral. Uma campanha de verdadeiro terror articulado por uma operação densa nas redes digitais e por veículos de comunicação sobre o que poderia acontecer se o que consideravam como “esquerda” conquistasse o poder.

Dia 8 de janeiro de 2023 foi um dia infame. Ali se achincalharam, por uma vanguarda de indivíduos crentes dos maiores disparates ideológicos e sustentados por frações de classes empresariais dispostas a eliminar todos os obstáculos à sua economia de rapina, os símbolos da frágil democracia brasileira. O alvo, contudo, eram os avanços progressistas que claudicantemente foram sendo conquistados ao longo da democracia.

O alvo das depredações e da violência eram os direitos trabalhistas, a emancipação das mulheres, a igualdade étnica, o orgulho LGBTQUIA+, os sindicatos, as organizações sociais por direitos, enfim, o que há de moderno na sociedade atrasada. A tentativa de golpe foi antes de mais nada uma batalha contra o Brasil que evoluiu, uma tentativa de retroceder ao tempo passado. A reação à democracia, à esquerda e aos movimentos sociais é, no fundamental, uma reação à ideia de um mundo igualitário.

Jorge Branco é doutorando em ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Retirado de A Terra é Redonda.

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