Ivan Valente: “a única possibilidade de impeachment é com povo na rua”


Após uma queda de popularidade causada pelo descalabro do coronavírus em Manaus, a presidência de Jair Bolsonaro pareceu adentrar um beco para o qual não haveria mais saída. As eleições à presidência das Câmara dos Deputados e do Senado se tornaram sua tábua de salvação. E, bem sucedidas as negociações no melhor estilo fisiológico, a “Nova Era” ganhou folego. Até quando, impossível prever. Na entrevista ao Correio, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) afirma que tal resultado já era previsível e as esperanças de uma derrocada bolsonarista se baseavam na ilusão “de um polo democrático que nunca existiu”.

Sobre os próximos capítulos da tumultuada política nacional, o deputado socialista diz “não ser possível ainda medir a extensão dos riscos, mas sabemos que são grandes, como podemos ver agora com a tentativa de tornar o Banco Central ‘autônomo’, ou seja, entregar o principal órgão regulador da economia brasileira aos bancos privados”.

Além de ser enfático a respeito da única via para uma eventual saída do presidente, ataca o atual arranjo de poder, tanto na atuação do general Pazuello na Saúde como de Rodrigo Maia, que após sentar sobre inúmeros pedidos de imepachment sofreu uma derrotada repleta de traições de seus pares.

“Maia é um neoliberal. Nunca atrapalhou a agenda de Paulo Guedes. Ao contrário. Teve em suas mãos a possibilidade de pautar o impeachment do criminoso Bolsonaro, responsável por um genocídio. Nada fez. Maia cometeu erros importantes e pagou com a imensa derrota sofrida na eleição da mesa da Câmara. Deveria ter feito o enfrentamento democrático”.

A entrevista completa com Ivan Valente pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Como enxergou a eleição das casas legislativas, que terminaram com as vitórias de Rodrigo Pacheco (DEM) para o Senado e Arthur Lira (PP) para a Câmara dos Deputados?

Ivan Valente: Péssimo sinal para a democracia. Houve um encontro entre o fisiologismo do centrão com o autoritarismo de Bolsonaro. Não é possível ainda medir a extensão dos riscos, mas sabemos que são grandes, como podemos ver agora com a tentativa de tornar o Banco Central "autônomo", ou seja, entregar o principal órgão regulador da economia brasileira aos bancos privados.

Correio da Cidadania: Como recebeu os discursos de posse de ambos os eleitos? O que reflete de nossa política institucional?

Ivan Valente: Os discursos em si não dizem muito, tangenciados de "espírito republicano". Sabemos que isso não é real. Eles tentarão combinar interesses. Porém, é preciso ter em mente que se o Bolsonaro não entregar tudo o que prometeu ao centrão, ele também terá problemas.

Correio da Cidadania: A oposição poderia ter se articulado de forma diferente?

Ivan Valente: Parte da oposição deixou-se enganar por um "polo democrático" que nunca existiu. Desde o início, era visível que haveria defecções não só entre as forças da direita em torno do Baleia Rossi, como no MDB e no DEM. Mesmo entre partidos de esquerda e centro-esquerda existiam inclinações pró-Lira.

Portanto, negociaram em torno de uma proposta política vazia de significado. Ficamos polemizando entre nós sobre qual era a melhor tática, enquanto os "aliados" do Baleia já estavam com Lira. A oposição deveria ter ido para o embate central, a nosso ver, a pauta do impeachment.

Correio da Cidadania: O que pensa do período de Rodrigo Maia à frente da Câmara? Como entra para a história considerando que vivemos um período tão delicado da história?

Ivan Valente: Maia é um neoliberal. Nunca atrapalhou a agenda de Paulo Guedes. Ao contrário. Teve em suas mãos a possibilidade de pautar o impeachment do criminoso Bolsonaro, responsável por um genocídio. Nada fez. Maia cometeu erros importantes e pagou com a imensa derrota sofrida na eleição da mesa da Câmara. Deveria ter feito o enfrentamento democrático. É claro que ele não se compara ao esgoto bolsonarista. Impediu alguns retrocessos. Mas ficou muito aquém do que poderia ter feito.

Correio da Cidadania: O impeachment de Bolsonaro ainda é viável? O que o senhor pensa dessa possibilidade?

Ivan Valente: A única possibilidade de impeachment é com povo na rua.

Correio da Cidadania: Como entende a gestão da pandemia e o plano de imunização? O que esperar deste 2021 para o Brasil e sua população?

Ivan Valente: O ministro da Saúde, Pazuello, é outro delinquente que deve ser responsabilizado criminalmente por atrocidades cometidas na gestão da pandemia. A esperança que temos existe em torno do SUS, da Fiocruz, do Instituto Butantan e da pressão que a sociedade civil exerce para acelerar o plano de vacinação.

Correio da Cidadania: O auxílio-emergencial pode ser renovado? Quais seriam os caminhos para sua manutenção?

Ivan Valente: Travamos uma luta para o que o Congresso aprove a volta do auxílio, assim como ocorreu no ano passado. Existe essa possibilidade. O Estado brasileiro possui muitos caminhos para garantir linhas de crédito. É uma questão de vontade política.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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