As derrotas de Trump, Bolsonaro e do PT

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A “onda conservadora” – invenção da esquerda reformista e apavorada com a crise da democracia burguesa – ao final era só uma marolinha. Trump durou meros quatro anos, Bolsonaro pode seguir na mesma toada. E o populismo lulista, de igual modo, perdeu novamente, seja nas eleições, seja no mundo sindical.

As eleições aconteceram (a)normalmente mais uma vez, como é recorrente em nossa história de clientelismos, autoritarismos etc. O povo brasileiro odeia políticos tanto quanto adora a festa da democracia – embora abstenções e votos brancos/nulos sigam crescendo (com ou sem pandemia). Para alguns, mesmo assim vivemos sob os efeitos do “golpe” de 2016 ou até num regime “fascista”, ainda que Bolsonaro sofra derrotas nas urnas e nas ruas e seja merecidamente achincalhado pela grande imprensa e por políticos da direita à esquerda. Quantos duvidaram que não haveria eleições, desde 2016?

A suposta classe média indignada com o bolsonarismo e o trumpismo – na verdade determinados círculos progressistas de trabalhadores de maior capital cultural – continua se lançando contra moinhos imaginários. Nos EUA, o fascismo seria iminente: no entanto, Trump preferiu jogar golfe e apenas acenar para seus eleitores ignóbeis de dentro da limunise presidencial blindada. Dar um golpe real, mesmo num país armado e de tradição miliciana (diferente e maior que a nossa), dá muito trabalho para os populistas de extrema-direita acostumados a agir politicamente na frente de computadores e celulares. Na América Latina (Argentina, Chile, Bolívia) parece que já foi revertida a “guerra híbrida”, teoria da conspiração de nacionalistas anacrônicos, que concebem o imperialismo em chave antimarxista.

Entre nós, mesmo com os fracassos eleitorais bolsonaristas Brasil afora, e talvez porque o lulismo continue decaindo, tem ainda quem acredite numa teocracia evangélica no Rio de Janeiro, cidade onde Crivella venceu em módicas 5 zonas eleitorais, de um total de 49... Haja política do pânico! Tudo isso seria engraçado se não produzisse tantos obstáculos às lutas dos trabalhadores contra a burguesia.

Concomitantemente, a crise de hegemonia política segue inaproveitada pela esquerda. A justiça continua no encalço das bandidagens bolsonaristas: senador vice-líder do governo federal com dinheiro na cueca (até nisso copiam o legado lulista!), Cristiane Brasil (filha de Roberto Jefferson) presa e depois usando tornozeleiras... A lista é longa.

A burguesia esclarecida avança no seu marketing progressista contra as guerras culturais promovidas pelo populismo de direita: Magalu, Nubank e outras empresas tomam iniciativas antirracistas e até uma subcelebridade como Andressa Urach abandona a modinha evangélica e passa a denunciar a Igreja Universal. A maré muda fácil no plano do discurso político, mais instrumental e superficial.

Bolsonaro é pintado pelo lulismo e por parte da esquerda como um ultraliberal, mas Guedes não consegue avançar nas privatizações. Nem a estatal de Dilma criada para gerir o trem-bala Rio-São Paulo (que nunca saiu do papel) foi vendida, quanto mais a TV Brasil: por que o faria, se pode fazer demagogia transmitindo jogos da seleção brasileira de futebol por meio de nossa rede pública de comunicação? Ainda assim, Bolsonaro segue colecionando humilhações junto à Globo e ao Congresso, que, no caso, sepultaram a “MP do mandante” de interesse de alguns clubes de futebol.

Se a política econômica está paralisada, a principal política social do governo federal, o auxílio-emergencial, foi imposta pela oposição e pelo campo popular, contra a vontade de Bolsonaro. Não foi necessário ocupar o Estado para evitar uma hecatombe social ainda maior sob a crise da pandemia, bastou a força da sociedade civil contra a extrema-direita no poder. Da mesma forma, as ruas radicalizadas do Chile – à maneira de nossas jornadas de junho de 2013 – obtiveram em alguns meses uma Constituinte, vitória inalcançada por décadas de ocupação da institucionalidade burguesa pela esquerda reformista de lá.

Como sabemos, por aqui o lulismo e certa intelectualidade responsabilizam 2013 por tudo que veio de conservador posteriormente, ao mesmo tempo em que Benedita da Silva e Jandira Feghali fingem defender Rafael Braga e votam a favor do perdão de dívidas de merco-igrejas evangélicas. A esquerda marxista e autonomista, em sua leitura antidualista, sabe que o progressismo sempre retroalimenta o reacionarismo por meio da conciliação de classes, autoinfligindo-se derrotas mais cedo ou mais tarde.

Como pensam e agem exclusivamente na ótica eleitoral, reformistas e progressistas não compreendem as razões sociais profundas da transição do lulismo para o bolsonarismo e prosseguem andando em círculos. Suas direções defendem voto útil ou “ideológico” quando lhes convêm, advogam frente ampla com a burguesia apenas se seu candidato estiver à frente, enxergam vitória da união da esquerda justamente onde ela não houve (caso de Boulos em São Paulo), etc.

Temem os retrocessos quando eles se dão conjunturalmente nas instituições, mas não percebem como as movimentações sociais persistem e propiciam conquistas desde baixo. Por exemplo, elegeram-se pela esquerda vários parlamentares do PSOL que são mulheres, negros e negras, trans, entre outras identidades de luta que inclusive expressam contradições de classe e apontam o socialismo em seus projetos políticos, a exemplo de Karen Santos em Porto Alegre.

A luta social também continua sendo sindical, onde o lulismo, a par de sua capilaridade nas universidades brasileiras, foi novamente derrotado nas eleições da Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior –Sindicato Nacional (ANDES-SN). O peleguismo e a burocratização, envolvendo alianças e acordos espúrios com reitorias (a favor do precarizante ensino remoto, nos casos da AdUFRJ e da Adur-RJ, entre outros), bem como outras práticas antissindicais, não se mostraram capazes de converter redes de sociabilidade acadêmica em representação autônoma de uma categoria de trabalhadores – felizmente!

A despeito de ter excluído muitos docentes combativos identificados com a CSP-Conlutas e de hesitar na orientação consistente e autônoma das lutas (o que é recorrente no PSOL que orbita o lulismo), os dirigentes do ANDES-SN souberam enfrentar, por ora, a avidez por aparatos sindicais do decadente cutismo.

É notória a incapacidade petista de encantar e mobilizar a sociedade brasileira. Suas derrotas eleitorais em pleno fracasso bolsonarista em termos nacionais (no atual primeiro turno municipal) e internacionais (por conta de Trump) mostram que os trabalhadores necessitam – e já experimentam – renovar suas organizações para lutar contra novas e velhas direitas, em perspectiva revolucionária.

Marco Antonio Perruso é professor de Sociologia da UFRuralRJ, militante do ANDES-SN e do PSOL.
Artigo publicado originalmente em Contrapoder.

 

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