“Precisamos nos animar e não desvincular a eleição da luta de classes”

Capacitismo se aprofunda durante a pandemia do novo coronavírus -  Entrevista com Marinalva Oliveira - ADUFS
O segundo turno das eleições municipais terminarão de definir a configuração da política parlamentar nas cidades brasileiras e sua distribuição de forças. Com a presença do PSOL no pleito final em São Paulo e Belém, e do PC do B em Porto Alegre, além do crescimento de algumas bancadas da esquerda, ficou a sensação de reação à ofensiva reacionária, ideia reforçada pela fragmentação do bloco de direita em diversas forças e partidos. Em entrevista ao Correio, Marinalva Oliveira, professora da UFRJ e ex-presidente da Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior, analisa as eleições à luz da enorme crise vivida pelo país e as perspectivas para os trabalhadores.

“Não é uma fragilização completa (da extrema-direita), pois há uma conexão com partidos de direita e ela ainda é capaz, com apoio dos partidos de direita e da burguesia, de aprovar todo seu pacote de privatização e contrarreforma administrativa, após as eleições. Continua a hegemonia do bloco da direita, porém, mais pulverizado”, resumiu.

Na entrevista, Marinalva ressalta os limites que eleições municipais no sentido de interferir nas condições estruturais do país, mas acredita que alguns resultados são indicativos positivos para as lutas sociais do próximo período.

“Eleição municipal não traz grandes mudanças, não muda o poder estruturante de um país. E eleições também não detêm a ofensiva do capital. As eleições transcorreram com controle total da agenda liberal. Os enfrentamentos continuam os mesmos. Não devemos ter ilusão frente aos limites das eleições e das candidaturas, mas é importante fomentar uma revolta eleitoral contra os avanços do bolsonarismo e do dorismo que representam duas faces do autoritarismo”.

Crítica do lulismo, sobre o qual inclusive organizou o recém publicado O Pânico como Política - O Brasil no imaginário do lulismo em crise, destaca que esta vertente da esquerda brasileira e seu programa político estão em declínio. De toda forma, a ofensiva do capital continuará varrendo tudo que seja público e reforçará as já graves contradições que marcam o país.

“É importante compreender que é um momento oportuno para pôr fim à narrativa de uma ascensão da extrema direita e da esquerda em recuo. Quem está em recuo é a direita. O que vai acontecer é a retirada de direitos básicos da população como as políticas públicas de saúde, educação e assistência social, entre outras, que tanto foram importantes durante a pandemia e continuam sendo. Para isso é importante a construção de um movimento em unidade que tenham em comum a verdadeira oposição ao capitalismo”.

A entrevista completa com Marinalva Oliveira pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como enxergou os resultados gerais do primeiro turno? Que movimentos políticos e sociais as urnas demonstraram?

Marinalva Oliveira: As eleições são um espelho distorcido da realidade, mas em seu reflexo pode-se vislumbrar movimentações e tendências importantes. As eleições municipais foram marcadas pela pandemia e aprofundamento da crise humanitária e econômica e tiveram um alto índice de abstenção.

De forma geral, há retrocesso do bolsonarismo com uma fragmentação da ultradireita. O PSOL cresce, ocupa parte do espaço perdido pelo PT e PC do B e marca o enfraquecimento do PT como partido hegemônico na oposição parlamentar. Isso é consequência da sua desconexão, por anos, com a classe trabalhadora. Assim, o populismo lulista perdeu novamente. O PSOL teve um importante crescimento eleitoral, ocupando parte desse espaço, não só indo ao segundo turno em capitais como Belém e São Paulo, como ampliando suas bancadas de vereadores e alcançando o segundo lugar em municípios como Niterói, mesmo tendo de enfrentar as regras antidemocráticas, o poder econômico, os clientelismos e autoritarismos.

As movimentações sociais têm papel importante nas conquistas, com vários parlamentares do PSOL que são mulheres, negros e negras, trans, pessoas com deficiência, entre outras.

Correio da Cidadania: Não é cedo demais para se falar em enfraquecimento da extrema-direita?

Marinalva Oliveira: É importante analisar que o fato político mais importante dos últimos dias foi a derrota de Trump. E essa derrota ocorreu pela rebelião que se estabeleceu com a morte de George Floyd. O segundo fato mais importante foi a derrota de Bolsonaro nas eleições municipais e o fato que o levou à derrota foi o desgaste com a situação do país, o seu negacionismo perante a pandemia e recentemente contra a vacina. Outra motivação importante foi o desgaste em relação ao corte do auxílio emergencial pela metade, que mesmo quando existia no total não foi suficiente para atender a população em situação estrutural de pobreza, o que se aprofundou com a pandemia.

Não é uma fragilização completa, pois há uma conexão com partidos de direita e ele ainda é capaz, com apoio dos partidos de direita e da burguesia, de aprovar todo seu pacote de privatização e contrarreforma administrativa, após as eleições. Continua a hegemonia do bloco da direita, porém, mais pulverizado.

É importante compreender que é um momento oportuno para pôr fim à narrativa de uma ascensão da extrema direita e da esquerda em recuo. Quem está em recuo é a direita. Nossa tarefa central é derrubar Bolsonaro e as circunstâncias estão postas nessa direção. É preciso retomar a luta para derrubar Bolsonaro, Mourão e seus ataques à classe trabalhadora.

Correio da Cidadania: Acredita que vitórias eleitorais da esquerda em algumas cidades poderão impulsionar um novo ciclo de avanços progressistas? Como fazer isso diante do cerco econômico ultraliberal e austeritário?

Marinalva Oliveira: Eleição municipal não traz grandes mudanças, não muda o poder estruturante de um país. E eleições também não detêm a ofensiva do capital. As eleições transcorreram com controle total da agenda liberal. Os enfrentamentos continuam os mesmos. Portanto, na eleição houve, mesmo limitado a alguns municípios, um enfrentamento e precisamos nos animar e não desvincular a eleição da luta de classes.

Porém, só após o segundo turno poderemos ter uma maior clareza dos impactos, pois em lugares como São Paulo e Belém há uma disputa polarizada entre forças progressistas e reacionárias. Não devemos ter ilusão frente aos limites das eleições e das candidaturas, mas é importante fomentar uma revolta eleitoral contra os avanços do bolsonarismo e do dorismo, que representam duas faces do autoritarismo.

Correio da Cidadania: Quais caminhos acredita serem os mais viáveis na conquista de novos avanços para as massas populares e trabalhadoras do Brasil nos próximos anos?

Marinalva Oliveira: Bem, terminadas as eleições, o futuro reservado para a classe trabalhadora e das pessoas em situação estrutural da pobreza será ainda pior. Já há um agravamento no número de casos de COVID; em dezembro vai terminar o auxílio emergencial, que já foi reduzido pela metade e atingirá mais de 40 milhões de pessoas em situação estrutural de miséria absoluta; aumento da inflação nos alimentos básicos; e recorde em números de desempregados e, alguns, em situação de trabalho informal.

No Congresso Nacional, em sintonia com Bolsonaro e Guedes, há um pacote de privatizações com a venda de estatais como Correios e Eletrobrás, que pode levar o país ao que o Amapá vive hoje, com o sistema elétrico privatizado. Além da reforma administrativa que acaba com as politicas públicas e sociais.

O nosso desafio é construir a luta em defesa dos direitos da classe trabalhadora, para que os recursos públicos sejam destinados aos serviços públicos e contra a reforma administrativa, lutar pelas liberdades democráticas e contra os crimes de racismo, homofobia, machismo e capacitismo. Uma agenda classista que envolva a fundamental defesa dos direitos trabalhistas, incluindo as demandas dos trabalhadores que estão na informalidade com uma compreensão da classe trabalhadora mais ampla. Atacar o discurso do governo que coloca trabalhadores formais e informais em oposição, que também coloca servidores e celetistas em campos opostos.

A reforma administrativa não vai gerar mais empregos, da mesma forma que as reformas da previdência e trabalhista não geraram. O que vai acontecer é a retirada de direitos básicos da população como as políticas públicas de saúde, educação e assistência social, entre outras, que tanto foram importantes durante a pandemia e continuam sendo. Para isso é importante a construção de um movimento em unidade que tenham em comum a verdadeira oposição ao capitalismo. A nossa luta é da classe trabalhadora contra o capital e os problemas do Brasil exigem o povo nas ruas. Não há caminho fora da luta.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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