O progressismo nu nas eleições equatorianas

Elecciones Ecuador 2021 HOY EN VIVO: Ecuador, en completa incertidumbre por  la paridad entre Yaku Pérez y Guillermo Lasso: hay 4.502 votos de  diferencia | FOTOS | VIDEOS | MUNDO | EL COMERCIO PERÚ
Da esquerda para a direita, Yaku Pérez, Andres Arauz e Guillermo Lasso

Em 7 de fevereiro, foi disputado o primeiro turno das eleições presidenciais no Equador. Dentre os candidatos que se apresentaram, três foram competitivos. O jovem economista Andrés Arauz, de 37 anos, representa o correísmo, versão equatoriana do progressismo latino-americano. Guillermo Lasso é um banqueiro e político das antigas, que representa exatamente isso. A novidade foi a candidatura de Yaku Pérez pelo movimento Pachakutik, organização na qual converge muito das lutas indígenas no país.

Em poucas horas, a maior parte das urnas foi apurada. Com quase 1/3 dos votos, Arauz passou para o segundo turno, apesar de não receber uma votação massiva como o MAS boliviano no ano passado. Na disputa pelo segundo lugar, Yaku levava ligeira vantagem sobre Lasso: com 99,26% das urnas apuradas, tinha 20,09% dos votos e Lasso, 19,5%.

Entretanto, o por cento final dos votos tardou quase uma semana em ser apurado. Anunciado na madrugada de sábado para domingo, o resultado favoreceu Lasso, por 19,74% contra 19,39%.

O que está em disputa neste pleito? Por que a demora? Como entender seu resultado?

O progressismo internacional interpretou esta eleição como uma disputa entre esquerda (correísmo) e direita (Lasso). Nesta chave, a candidatura do Pachakutik foi comumente identificada com um “cavalo de Tróia” da direita (1).

Esta leitura tem dois problemas de fundo, que estão interligados. Em primeiro lugar, faz vista grossa sobre os aspectos antidemocráticos e antipopulares das administrações de Rafael Correa (2007-17). Um governo que transformou o Bem Viver em adereço de marketing, enquanto acelerou a exploração dos territórios.

Como decorrência, conflitos socioambientais se intensificaram, e a resposta governamental combinou difamação e repressão. Ao mesmo tempo, modernizou o aparato estatal, disciplinado para fins partidários: no Equador como na Bolívia (e na Venezuela), a independência das instituições foi comprometida (2).

Beneficiado pelo boom das commodities, Correa fez, na melhor das hipóteses, “melhor as coisas, com o mesmo modelo de acumulação”, segundo suas próprias palavras. E na pior, avançou um projeto de poder centralizado e personalista: uma “Revolução Cidadã”, sem cidadãos.

Este quadro ilumina a ruptura de Correa com seu sucessor e ex-colega de partido, Lenin Moreno. É certo que Moreno se aproximou da oligarquia tradicional para se diferenciar de Correa. É certo que, frente à crise do petróleo, apertou o ajuste estrutural, que teve um basta das ruas em outubro 2019. É certo que Moreno concluiu seu mandato com baixíssima aprovação. No entanto, as disputas judiciais entre Moreno e o correísmo não devem ser vistas pelas lentes da esquerda contra a direita, mas como diferentes facções que disputam o poder estatal.

E o efeito colateral mais importante desta disputa fraticida, foi abrir espaço para uma novidade à esquerda: uma alternativa ao progressismo e à política oligárquica. Aí reside a singularidade do que ocorre no Equador, que a ideologia do “cavalo de Tróia” oculta: o novo eleitoral não tem o cheiro do fascismo, como no Brasil, nem o bolor do velho, como na Bolívia.

É possível criticar aspectos da candidatura de Yaku Pérez, como fizeram por dentro do próprio Pachakutik, Leonidas Iza e Jaime Vargas. Mas é preciso entendê-la, na forma e no conteúdo.

Foi uma campanha escorada na militância e não no dinheiro: quem visitar o instagram de Yaku Pérez descobrirá um candidato que viajou o país se alojando na casa dos apoiadores. Aliás, sua companheira relata que, quando quis ajudá-lo com seu instagram no início da campanha, Yaku sequer tinha crédito no celular.

Como conteúdo, é uma candidatura que defende a natureza, os territórios e a água. Em uma palavra, se contrapõe ao desenvolvimentismo latino-americano.

Esta candidatura esteve a um fio de passar ao segundo turno, onde se beneficiaria do rechaço popular ao correísmo (atestado por qualquer um que circule no Equador) e seria favorita. Neste contexto, o movimento Pachakutik denuncia fraude eleitoral. Sua leitura é que a demora da apuração se deve a cálculos políticos: o correísmo avaliou que Lasso será presa fácil, e negociaram com este setor o desfecho do primeiro turno.

Quem considera absurda esta hipótese, deve lembrar que Correa sempre considerou o “esquerdismo”, o “ecologismo” e o “indigenismo” como os piores inimigos do seu projeto - segundo suas próprias palavras. E que banqueiros e exportadores primários lucraram muito em seus governos. Também deve notar que as solicitações de recontagem dos votos do movimento Pachakutik pelos canais legais foram negadas.

A verdadeira questão com que a esquerda se defronta não é difamar a candidatura Pachakutik. É entender por que no Equador se repete uma trajetória, em que o progressismo no poder se degrada e se corrompe, derivando em uma política personalista e autoritária que a esquerda sempre critica, quando o Estado não é dela.

Não idealizo o movimento Pachakutik nem Yaku Perez. Mas para quem se preocupa com o que acontece no planeta, na ecologia como na política, está claro que eles são parte da solução. O problema está em quem os difama, e não em quem os apoia.

Notas:

1) Saiba quem é Yaku Pérez: possível candidato no segundo turno no Equador que apoiou golpe contra Dilma e outros na América Latina - Brasil 247
2) A título de exemplo, recordemos as manobras de Morales para aprovar sua quarta candidatura consecutiva, e de Maduro para impugnar três deputados nas eleições de 2015, privando a oposição de maioria absoluta.

Fabio Luis Barbosa dos Santos é autor de Uma história da onda progressista sul-americana (Elefante: 2019) entre outros livros.

 

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.