“Panelaço expôs a fúria do Chile contra Piñera e sua política da morte”

0
0
0
s2sdefault


Amália Pereira, vice-presidente da CUT-Chile e manifestação nas ruas de Santiago: "Piñera assassino!"

“No governo de Sebastián Piñera a opção é morrer de fome ou de coronavírus. Nos hospitais, as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) funcionam como nos tempos de guerra e avaliamos quem tem melhor condições de sobreviver em relação à utilização dos respiradores. Quem tem menos aguarda a morte”, denunciou Amália Pereira, vice-presidente da Central Unitária de Trabalhadores (CUT-Chile), sintetizando as razões da “fúria” popular expressa no Panelaço Nacional no dia 31 de julho, uma sexta-feira à noite.

Em entrevista exclusiva, a sindicalista assinalou que a massiva mobilização ocorrida no exato momento em que Piñera realizava sua “prestação de contas ao Congresso”, destacou “a determinação do povo chileno de defender a sua vida e o seu patrimônio, ameaçado de privatização e desnacionalização, e garantir que seja colocado a serviço dos interesses de todos”.

É este o clamor que explica as barricadas que se ergueram de Norte a Sul, com o protesto se vestindo de luto – com mantos pretos – e “rechaçando o pacote de medidas neoliberais, em meio ao agravamento das condições sanitárias e da multiplicação dos mortos por covid-19”, sublinhou Amália Pereira.

Confira a entrevista.

A CUT e os movimentos sociais chilenos têm denunciado uma radicalização das medidas neoliberais de Piñera contra a vida e a ordem democrática. O número de mortes e contágios pela pandemia continua multiplicando-se. Qual é a sua avaliação do panelaço desta sexta-feira?

O panelaço foi nacional e extraordinário. Foi realmente estupendo, porque participaram pessoas das mais variadas localidades e setores, gente que antes não era visibilizada, de classe média que anteriormente não gritava, não saía às ruas. Agora há um sentido coletivo que vai ganhando corpo. O panelaço começou às oito da noite e, a partir daí, se multiplicaram as barricadas, com grandes manifestações contra Piñera e seu modelo neoliberal. Atualmente, como diz o povo: ou se morre de fome ou de coronavírus.

A pandemia mais do que tudo visibilizou a péssima estrutura sanitária, a imensa desigualdade social e as terríveis condições de moradia, o enorme desemprego que afeta as pessoas mais velhas e a falta de uma ação solidária para a proteção da vida e dos postos de trabalho.

As pessoas saíram de casa para protestar, algo extraordinariamente representativo, que vai calar fundo, porque há uma fúria acumulada. Há um ódio contra a injustiça, pois são milhares de profissionais e técnicos, de operários, empregadas domésticas e dos trabalhadores dos setores mais vulneráveis que perderam todas as suas fontes de renda.

É um quadro extremamente cruel.

Este governo chegou tarde em tudo o que faz, tem sido inoperante em relação a tudo. Os trabalhadores e trabalhadoras estão pagando o preço desta pandemia, em todos os sentidos: no sanitário, com as nossas vidas, e laboral, com a perda substantiva dos postos de trabalho. Hoje todos sabem que ao voltar ao emprego serão despedidos.

As poucas medidas adotadas, além de demorarem, não chegam a todos. É um governo que além de chegar tarde com caixas de alimentos, ainda as distribui como se fossem dádivas.

Apesar de explorar somente um terço do cobre do Chile, a Codelco contribui duas vezes mais para o Tesouro que as empresas privadas. Na visão da CUT, qual a importância do patrimônio público na retomada do processo de desenvolvimento?

Bom, é uma aberração terrível que Piñera queira privatizar não só a Corporação Nacional do Cobre (Codelco), como as demais estatais, a exemplo da Televisão Nacional. Querem nos manter atados pelos pés e pelas mãos, com a completa desestruturação da rede pública de comunicação.

A Codelco é o salário do Chile, como dizíamos desde os tempos do presidente Salvador Allende [quando foi nacionalizada]. Hoje, infelizmente, temos muitas empresas privadas levando nossas riquezas naturais para fora do país a troco de nada. Enquanto isso a Codelco segue dando o aporte mais substancial aos cofres públicos. Falar em privatizá-la é uma demonstração de desespero, de quem não tem o mínimo de compromisso com o país, mas com os cartéis transnacionais.

Este é um governo que não valoriza o povo, nem os trabalhadores e os recursos naturais. Não há razão para privatizar empresas que garantem nosso desenvolvimento e tanto contribuem para as áreas sociais.

E o atraso na entrega dos alimentos?

O fato é que as caixas de alimentos no meio do agravamento da pandemia não chegaram às famílias que mais necessitam, não chegou o IFE (Ingresso Familiar de Emergência). O IFE 1 não funcionou porque chegou tarde. O IFE 2, que é mais para a classe média, também não. Se é trabalhador, não recebeu a assistência porque alegam que deveria ser só para os mais vulneráveis. Se é da classe média, não deram acesso ao crédito bancário porque se estava com o nome sujo para ativar a empresa e gerar empregos. Há hospitais que ainda não funcionam. Falou-se do aluguel de um grande espaço para erguer um hospital de emergência e nada se fez. Tudo o que é feito vem para um grupo de empresários ampliar seus lucros e nada mais.

E qual o tamanho do impacto disso tudo?

Nós, como CUT, temos o Observatório Sindical do Gasto Público e exercemos uma fiscalização, solicitamos informações sobre recursos que foram pedidos e não chegam até os governos regionais. O impacto disso tudo é cruel. O dinheiro não chega até as comunidades, às municipalidades.

Enquanto isso a precarização levou a nossa população até as cozinhas comunitárias das vilas e bairros, onde o desemprego é ainda mais perverso e, obviamente, por conta disso, em parte destes locais mais vulneráveis, o narcotráfico tomou conta. Porque são os que estão chegando com alimentos, com ajuda para estas comunidades. Esta é realidade, como temos denunciado, e não nos cansamos de repetir: com essa política se morre de fome ou de coronavírus, o que é inaceitável.

Como admitir que em casas de 300 metros quadrados vivam oito, dez ou doze famílias? Tampouco há ajuda à população migrante. São centenas de milhares de trabalhadores sem direito a nada. Sem poder regularizar sua situação, sem direitos, ainda mais fragilizados. A informalidade cresceu imensamente, de 80 a 90% em relação há dez anos. E a informalidade é enorme não só entre os estrangeiros, mas sobretudo entre os chilenos que vêm do interior desesperados em busca de emprego.

Qual a sua análise sobre a liberação dos 10% de recursos dos trabalhadores retidos com as Administradoras dos Fundos de Pensão (AFP)?

Recentemente a pressão popular fez com que nos entregassem 10% do capital das Administradoras dos Fundos de Pensão. Mas este não é um recurso das AFP, é um dinheiro próprio, do nosso trabalho, das nossas economias. E a liberação só foi aprovada com mobilização social e o apoio do Congresso e dos meios de comunicação. Mas estes são recursos nossos, que seriam para a nossa aposentadoria. O fato é que somos nós quem continuamos pagando pela crise. Estamos pagando com a nossa poupança, com o seguro desemprego, contribuições fruto da nossa remuneração, do nosso salário.

O governo não contribuiu com nada. Assim como não investe nas pequenas e médias empresas para que possamos retomar o crescimento, gerar emprego.
Por outro lado, o governo pressiona pela reintegração aos nossos postos de trabalho sem qualquer atenção sanitária, sem os equipamentos ou cuidados necessários para a defesa da saúde, sem distanciamento social. Mesmo os funcionários da saúde não contam sequer com os elementos de proteção para o atendimento aos pacientes. Os hospitais seguem acumulando dívidas com medicamentos, porque não há recursos.

Em que condições se encontra o sistema público de saúde chileno?

Existe um sistema público de saúde garantido para todos e todas, mas que está completamente sobrecarregado, absolutamente saturado. E existem instituições privadas, com suas clínicas, para quem têm mais dinheiro ser atendido.

Temos então um problema gravíssimo na saúde pública neste momento porque não existem insumos. Entras num hospital e não há medicamentos básicos, não há cama para todos. Os respiradores chineses estão parados no porto de Valparaíso porque ninguém sabe usar. Hoje a capacidade dos respiradores nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) alcança 96%, por isso está morrendo tanta gente. Encontramo-nos hoje como em tempo de guerra. Avaliamos quem tem melhor condições de sobreviver em relação à utilização dos respiradores. Quem tem menos aguarda a morte.

Temos acompanhado notícias dos trabalhadores da saúde, particularmente sobre os enfermeiros, do grande número de mortos por ter contraído a covid-19.

Esta é uma realidade, porque a população vive agrupada, há um confinamento, as casas são pequenas, o que potencializa a carga viral. Isso associado, sem dúvida, às patologias próprias, como nos idosos que já contam com alguma doença preexistente. Mas o fato é que o pessoal da saúde está com sua carga de trabalho sobrecarregada, o que redunda numa grande incidência da enfermidade. Isso faz com que muitos estejam em licença médica, que na área pública já alcança entre 40 a 45%.

O percentual de enfermeiros doentes é tão alto, em meio a uma demanda tão grande por atenção hospitalar, principalmente nas unidades de emergência, que fez com que o sistema entrasse em colapso. Não há pessoal capacitado para atender tantos doentes. A saúde do Chile está colapsada.

Uma última palavra para o povo brasileiro.

Há uma reciprocidade da luta do povo chileno com a do povo brasileiro. É doloroso ver as perdas humanas que vocês vêm tendo com um presidente louco como Bolsonaro, não cabe outra palavra, com um governo ainda sem ministro de Saúde, sem a atenção que a gravidade da situação requer. São governos parecidos o do Brasil e o do Chile, semelhantes com o de Trump nos Estados Unidos. Por isso precisamos estar alertas, unidos e mobilizados para avançar. Como dizemos em Chile: com todos e para todos, senão para quê?

Leonardo Severo é jornalista e colaborador do Correio da Cidadania.

Leonardo Severo

Fale Conosco

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados