No modelo do setor elétrico brasileiro, os “bons negócios” são os fios

A manchete principal do jornal Valor (18/12) comemora: “Linhas de energia atraem investimentos de R$ 7,3 bi”. Por Letícia Fucuchima e Gabriela Ruddy — De São Paulo e Rio - “O leilão de linhas de transmissão de energia realizado ontem pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) atraiu 51 participantes e o resultado foi a contratação de obras que devem promover investimentos de R$ 7,34 bilhões e criar 15 mil empregos. No total, foram contratados 11 lotes, envolvendo quase 2 mil km de linhas e subestaçõeshttps://valor.globo.com/impresso/noticia/2020/12/18/linhas-de-energia-atraem-investimentos-de-r-73-bi.ghtml 

Com uma economia duramente atingida pela crise financeira do Estado e pelo impacto da pandemia COVID-19, causa surpresa o interesse do capital nos leilões de linhas de transmissão.

A análise que faço aqui aproveita essa notícia para tentar mostrar as distorções que estão na base do modelo vigente desde 1995 e que, mesmo causando um racionamento de dimensões recordes, diversas inadimplências, recordes tarifários e judicialização, permanece intocado.

A pergunta que os brasileiros deveriam fazer é: por que o investimento em linhas de transmissão atraem tantas empresas?

Quero deixar bem claro que a análise não pretende mudar nada, até porque adotamos direções equivocadas que já percorreram trajetos tão profundos que se torna impossível um reparo. Portanto, paciência e um pouco de reflexão para entender por que o Brasil tem uma das mais caras tarifas do mundo e o beco sem saída que estamos.

Como funciona a base do sistema de geração de energia elétrica brasileiro?

 


Esse é o mapa do sistema de transmissão. Reparem a extensão de linhas vermelhas e azul escuro (500 kV e 750 kV) de alta tensão, próprias para transmitir corrente elétrica por grandes extensões. Além disso, extensas linhas em corrente contínua. Ao escolher essa tecnologia de alta tensão, o Brasil deixa evidente que, por características próprias, precisa transmitir energia por milhares de km e, adotando a tensão alta, a corrente elétrica pode ser menor, reduzindo perdas.

Por que essa arquitetura?

De uma forma aproximada e simbólica, a figura abaixo mostra a razão.

 

Simplificadamente, as linhas de transmissão brasileiras, além de levar a energia aos pontos de consumo, reorganizam o estoque de água entre os reservatórios das 4 regiões. Cerca de 70 % do estoque estão nas regiões Sudeste e Centro Oeste, mas esse estoque é eventualmente preservado pela ajuda das regiões Sul, Norte e até da região Nordeste.

Esse acervo, quando está completo, transformado em energia, equivale a aproximadamente 5 meses de consumo. Como existem outras formas de geração que atendem a carga, evidentemente a reserva equivale a mais meses de consumo se consideramos que nem tudo é atendido por hidroelétricas.

A razão é a geografia do país que é o recordista em latitude (distância norte sul) no planeta. Isso faz com que os regimes hidrológicos sejam diferentes e a óbvia lógica é transmitir sobras de energia regionais sob uma lógica monopolista preservando da melhor maneira possível o estoque total.

Apenas para citar um exemplo, nesse ano 2020 o sistema sudeste já enviou para a região Sul até 8.000 MW médios, chegando a representar 80% do consumo da região. Ao mesmo tempo o Sudeste recebeu aproximadamente 3.500 MW médios do sistema Nordeste. Só esse exemplo mostra o “passeio” da energia ao longo do território nacional. Não há no planeta, sistema semelhante.

Portanto, se fossemos identificar as partes dessa singular “máquina”, os reservatórios seriam os estoques e os fios os “vasos comunicantes” que permitem otimizar o uso da água num território continental. Esse estoque também é capaz de economizar água quando eólicas e solares ajudam no atendimento do consumo. Portanto, temos uma espécie mista de gerador e “baterias” que podem guardar outras formas de energia.

O que fizemos com essa singularidade?

Embalados pela cantilena da década de 90, quando alguns países resolveram implantar um sistema de competição entre fontes, apesar da nossa singularidade, adotamos um caminho arriscado.

Os gráficos abaixo mostram a grande variância da energia das afluências de rios sob clima tropical nas 4 regiões brasileiras.

 

Apesar dessa variação evidente, resolvemos adotar um valor fixo de energia para cada usina do sistema. Usinas térmicas que geram quando as afluências e outras fontes não são suficientes, também recebem esse “certificado”. Esse “macete” permite que elas vendam uma energia que não é gerada por elas numa proporção que só existe aqui. Vejam o gráfico abaixo. A linha vermelha é o que é contabilizado como oferta térmica e, portanto, pode ser comercializado. A preta é a energia efetivamente gerada pelas térmicas.

 

E quem gerou no lugar das térmicas?


O gráfico deixa tudo bem claro. De 2004 até 2013, as hidráulicas superaram em muito seu certificado. A partir de 2014 passaram a ter déficit de geração, quando passaram a ter que adquirir a diferença de energia das caras usinas térmicas. O saldo anterior não gerou nenhuma compensação para o déficit posterior. No período de saldo são as térmicas que não geram e têm o direito de vender o excesso das hidráulicas em nome da redução do custo de operação.

No período de déficit são as térmicas que geram a diferença sem consideração da situação anterior causando um déficit hidrológico bilionário. Inacreditável, mas verdade!

Adotando um sofisticado nome em inglês, Generating Scalling Factor, esse prejuízo será compensado através da extensão dos prazos de concessão das usinas. Mais custos!

Lamentável é que, de um lado, os cidadãos e consumidores sequer sabem desse detalhe e, de outro, todos os técnicos conhecedores das entranhas do modelo tinham pleno conhecimento dessa distorção.
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Que outros problemas temos no modelo?

• A série histórica de afluências só tem 90 anos e, para um sistema tão variável, esse valor é insuficiente para se ter nível de significância aceitável para vários parâmetros estimados. Portanto, seria necessária uma maior amostra.

• Como não há como obter outras medições históricas, um modelo matemático foi usado para gerar 2.000 anos de séries hidrológicas. Houve algum ganho ao corrigir algumas inconsistências no histórico, mas, na essência, foi apenas um artifício para reduzir as incertezas estatísticas.

• Em algumas regiões é possível perceber preocupantes comportamentos do histórico. Chamo a atenção sobre o gráfico da região Nordeste onde fica evidente uma queda recente das afluências. A pergunta que fica é: podemos dizer que os rios, hoje, são os mesmos de 90 anos atrás? É razoável achar que a única causa definidora é o regime pluvial?

Há muitos outros detalhes que chegam a espantar pela complexidade. Entretanto, se fosse necessário explicá-los, perderíamos o foco no que é importante na notícia que inicia este artigo.

Por que a transmissão é atrativa para o capital? Porque, apesar de o sistema de fios fazer parte dessa “máquina” que tenta garantir a energia que consumimos, os fios têm uma receita fixa que independe de riscos.

Esses riscos, que não são poucos, ficam todos alocados nas usinas hidráulicas. Independente da corrente que passa nas linhas de transmissão, a receita da transmissão é fixa. Já a receita das usinas hidráulicas pode ser fortemente impactada pelo simples fato delas não conseguirem gerar seu “certificado”, número esse que não foi definido pela usina e que depende da performance do sistema como um todo.

Qualquer um que se interesse em investigar empresas que pagam bons dividendos ficará surpreso com a presença dos fios.

Dividend Yield, abreviadamente DY, é uma expressão inglesa que traduzida literalmente significa rendimento do dividendo. É um índice criado para medir a rentabilidade dos dividendos de uma empresa em relação ao preço de suas ações.

Vejam o caso das empresas de energia elétrica e principalmente das transmissoras em vermelho:

Portanto, no Brasil, os fios estão protegidos. Já as turbinas, geradores, barragens, essas partes da “máquina” que realmente geram a corrente elétrica, esses estão no risco.

Finalmente, para se ter uma ideia de valores, as Tarifas de Uso do Sistema de Transmissão (TUST) para o ciclo 2019-2020 representam R$ 22,1 bilhões (R$ 22.166.983.002,75).

Boas contas de luz em 2021!

Roberto D'Araujo é engenheiro, ex-assessor da Eletrobrás e diretor do Instituto Ilumina.

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