Correio da Cidadania

EUA-Brasil: com crise interna, a falta de inspiração do governo

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Franklin Delano Roosevelt (FDR) foi o único político americano a eleger-se quatro vezes consecutivas à Presidência da República – depois disso, a emenda constitucional nº22, aprovada em 1947 e ratificada em 1951, autorizaria apenas uma reeleição.

Roosevelt era de família de origem holandesa - residente em Nova York desde meados do século dezessete – com registros de atividade na política local ainda na época colonial. Os dois maiores partidos abrigavam membros do clã: Theodore chegou à Casa Branca pelos republicanos ao passo que Franklin pelos democratas.

Nela, FDR obteve duas façanhas em uma década: a recuperação econômica do país, após a crise de outubro de 1929, e a vitória na II Guerra Mundial, ao eliminar o nazifascismo. Faleceria no cargo poucas semanas depois do início do quarto mandato e se tornaria símbolo político não só lá, mas no globo.

Em Washington, há um memorial em sua homenagem, visitado por turistas e autoridades. Ao deslocar-se aos Estados Unidos em 2015, a presidente Dilma Rousseff poderia tê-lo conhecido. Embora a situação adversa do Brasil não se comparasse à daquele país em 1929 ou em 1941, seria referência interessante para refletir-se sobre a crise e também sobre as alternativas de sua superação.

Contudo, o governo federal optou por devanear, ao tratar de outras questões, desimportantes naquela altura em função dos graves problemas internos. O trabalhismo aspirava a transformações externas grandiosas, no caso as relativas à modificação da composição do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

2015 representava efeméride importante para o órgão: sete décadas de fundação. Como em outras ocasiões, países, reunidos ou não em seus desejos mais tradicionais, propunham alterações nele, de sorte que a instituição pudesse adequar-se ao cenário mundial daquela fase.

Destarte, Brasília estava até correta em propor novo perfil a organismos onusianos, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial (BM), porém o momento não lhe era de fato favorável, em decorrência do quadro interno desabonador.

Além disso, os Estados Unidos preocupavam-se com sua própria economia, não com política multilateral, ao centrar a atenção em acordo concernente a nações do Pacífico, em cujo cerne figuravam governos de três continentes. Assim, o interesse principal de Washington era Pequim. Indo para o militar, os democratas de Barack Obama tinham a preocupação de encaminhar a questão nuclear do Irã.

Desta maneira, ficava para plano secundário a América Latina, a despeito de Cuba, impacto simbólico da fase bipolar, e do Haiti, país por meio do qual o Brasil gostava de apresentar-se ao mundo, ao liderar a parte castrense da missão onusiana. À Casa Branca, só chamava a atenção a Venezuela, em decorrência da decadência do grupo bolivariano e da capacidade de manter o fornecimento de petróleo.

Barack Obama, apesar de já estar no final do segundo mandato, tinha popularidade bem acima da presidente Dilma, em franca dificuldade nas primeiras semanas do segundo termo – o mandatário estadunidense chegava a quase cinquenta por cento, enquanto a dirigente brasileira mal ultrapassava a faixa dos dez por cento.

A economia nacional patinhava – no ano anterior, não houve crescimento. Faltava imaginação ao trabalhismo em sua política exterior: a ida aos Estados Unidos seria oportunidade de contactar também a comunidade brasileira fixada lá – estimava-se mais de um milhão de cidadãos, concentrada a maioria em Nova York, Flórida, Califórnia e Massachusetts.

Com os estadunidenses, pretendia o governo ofertar a corporações concessões ou privatizações, com o fito de incrementar os investimentos externos e assim enviar sinais ‘positivos’ ao mercado. Ao cabo da tão aguardada visita, nem um, nem outro: a política interna desfavorável ao Planalto impossibilitaria a recuperação econômica, esperada em vão pela sofrida população até os dias de hoje.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes