Correio da Cidadania

O rio se agitou com uma pedra que Lula lançou: 2022 é logo ali

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No embalo das revelações das mensagens da Operação Spoofing, que confirma a tramoia de Moro e Dallagnol contra Lula, que acabou por tirá-lo da eleição de 2018 depois do golpe parlamentar travestido de impeachment com apoio do STF e dos militares, desaguando no governo Bolsonaro, Lula mostrou que, aos 74 anos, tem uma leitura da situação política capaz de movimentar o tabuleiro com uma única jogada.

Ao anunciar Haddad como pré-candidato do PT nas eleições de 2022, causou um furor entre a direita liberal e a esquerda, e teve o silêncio de Bolsonaro até aqui. É uma jogada muito importante:

1) joga com a difícil possibilidade de voltar, mas coloca Haddad a frente desde já (o que é uma diferença significativa em relação a 2018);

2) ao lançar o nome do PT, coloca as cartas na mesa em relação a Ciro Gomes (candidato desde antes de 2018), Flávio Dino (acredito que preferirá concorrer ao Senado) e Boulos (que seria o candidato “natural” do PSOL depois da bela campanha para a prefeitura de São Paulo e também à presidência em 2018);

3) deixa claro para a direita liberal que ou ela tem voto ou cairá no colo de Bolsonaro novamente, com a diferença de que desta vez o movimento não será uma surpresa;

4) de certa forma, não deixa de ser o que Bolsonaro esperava, mas talvez não nesse tempo tão antecipado;

O que escrevo aqui não é uma defesa entusiasmada da candidatura de Haddad, meu histórico não me permite isso, e mesmo o sentido de esquerda posto em tal candidatura não é nada revolucionário. Mas, considerando o rebaixamento dos horizontes políticos que Bolsonaro promoveu e o tempo curto para articular uma frente de esquerda que seja competitiva no teatro eleitoral de 2022, uma simples notícia vinda de Lula mexeu no tabuleiro.

Falou-se muito nas redes ontem sobre a necessidade de construção de um programa comum de uma frente para só depois se escolherem os nomes, o que serviu para criticar tanto Lula quanto Haddad. Ora, Ciro Gomes está colocado desde sempre, qual mal que o PT tenha seu nome, até previsível, desde já? É um falso problema.

Dizer que Haddad é quase tucano? Sinceramente, ele é petista, o PT também se tornou um partido com tendências centristas, em especial depois de ter passado pelo governo federal. Eleição não é revolução. Boulos é um nome a ser pensado? Talvez, mas precisa se colocar também. A hora de apresentar candidaturas é agora, temos um cenário atípico e um tempo curto, atravessado por uma das maiores crises dos últimos 100 anos e com um governo genocida.

Serão candidaturas que me agradam plenamente, que estão de acordo com tudo o que quero de mudanças na sociedade? Isso seria um tópico para escrever mais à frente, quando tiver minha plataforma de propostas completa, mas muito provavelmente, não. No entanto, sem ceder em relação a um processo extremamente limitado, porém importante, como as eleições, não acho que será possível tirar Bolsonaro — caso tenhamos eleições em 2022, afinal sempre há possibilidade de faltar energia no teatro.

Até aqui falei do falso problema dos nomes, dos atores, mas o problema maior é que, a meu ver, esse necessário programa comum não vai poder simplesmente sair das cabeças iluminadas dos partidos: precisa estar conectado com as mudanças sociais, daí talvez um papel fundamental das fundações partidárias na construção desse processo, que não se resolve em um final de semana, muito menos sem um acordo entre os atores que estão disponíveis para tal.

Torna-se fundamental, porém, que da discussão entre partidos se procure estabelecer, com ajuda de pesquisas e mediações, como se colocar frente a uma sociedade que vive uma crise econômica e atravessa uma pandemia. Um outro mundo, diferente, talvez bem pior, se descortina aos poucos, apresenta cenários. Como lidar com ele? Eis a pergunta que parece não ter uma resposta desses atores agora.

A posição que defendo, espero que fique claro, é a frente de esquerda. Evidente que minha relevância é muito pequena, mas é sempre bom deixar claro que essa já era a posição que defendi até abril de 2018, quando se tornou inviável pelos motivos que todos sabem.

O rio se agitou com uma pedra pequena que Lula lançou. Ou simplesmente um ator político relevante fez política, evitou a repetição. Reparem que ele ficou na moita um tempo, esperou o melhor momento. E fez.