Correio da Cidadania

O vai-e-vem de Bolsonaro no baile da morte

 
Lembro de pelo menos dois momentos em que Bolsonaro se viu acuado durante a pandemia: em junho/julho de 2020 com as manifestações antifascistas e a prisão de Queiroz, quando acertou o apoio do Centrão, e em janeiro, com a disputa pela vacina com Dória e a crise de Manaus.

No entanto, parece que a compra de leite condensado e chiclete, entre outros itens, pelo governo geraram uma atenção maior no terreno das redes, e depois no jornalismo corporativo, que poderiam emparedar mais Bolsonaro no terreno em que ele mais atua: na ambiguidade.

Até a tarde de quarta, 27, depois de dois dias de ênfase nestas compras, que funcionaram como uma espécie de gota d’ água de um acúmulo de indignações frente à (falta de) gestão da pandemia no país, Bolsonaro mandou a mídia para a puta que pariu e sugeriu enfiar as latas no rabo.

É preciso lembrar que, no dia 26/1, enquanto aa redes martelavam a questão da lista de compras, a mídia corporativa estendia tapete vermelho para Paulo Guedes e sua visão sacrificial sobre o auxílio emergencial e reformas.

A reação de Bolsonaro na churrascaria circulou como uma bomba e fez com que muitos vissem aí uma forma dele mostrar que estava forte, confortável até, mas não seria esse seu padrão de dobrar a aposta e esticar a corda que nem existe mais? Perdemos a noção até.

Uma questão que chama atenção é como Bolsonaro consegue surfar e instrumentalizar o que se tem de mobilizações hoje no Brasil que se concentram contra as medidas restritivas que impedem a circulação e a renda de trabalhadores em sua maioria na informalidade.

Esse mundo do trabalho de quem não pode se “isolar” de forma confortável com renda garantida por um emprego estável não pode ser compreendido por uma oposição que acaba caindo num moralismo barato sem conseguir acompanhar os movimentos que não são apenas negacionistas.

Um primeiro elemento que salta aos olhos na capacidade de ação e reação constante de Bolsonaro é a falta de articulação da oposição de esquerda para se conectar a essas mobilizações, o que restringe sua atuação à denúncia da política de morte do governo, que existe, mas é atenuada pela ênfase que Bolsonaro coloca na economia desde o início da pandemia.

Um segundo elemento que acaba colaborando para que Bolsonaro mantenha sua popularidade em um terço (que é um feito tendo em vista o que faz durante a pandemia) é a ambiguidade da mídia corporativa, que está agarrada a Paulo Guedes e às reformas, possibilitando sempre um espaço para a recomposição de Bolsonaro.

Um terceiro elemento, instável, mas que mantém Bolsonaro longe do impeachment tão propagado nas redes esquerdistas é o apoio do Centrão, que vai garantir a conquista das duas casas do Congresso.

Além desses três eixos, os militares sorriem com seu projeto indo de vento em popa, pois, quando são citados pela mídia, os veem como pobres iludidos que embarcaram em um governo desastroso, comprometendo sua credibilidade. Não se vê quem ache que esse é um projeto político dos militares, desta vez eleito democraticamente, depois de um golpe legislativo.

O máximo que se faz é pedir a cabeça de Pazuello, o rei da logística, que pode ser substituído por um deputado do Centrão em breve; cogita-se o ex-ministro de Temer, Ricardo Barros, líder do governo na Câmara. Os militares avaliam se isso pode deixar Bolsonaro desprotegido frente à pandemia. Pazuello é um bom escudo.

Voltaremos a deixar que Bolsonaro saia das cordas?

Enquanto isso, temos 220 mil mortos em uma pandemia que avança, agora com uma variante brasileira que assusta o mundo, isolando o Brasil, uma política de morte em curso, um processo de vacinação que será lento e cheio de problemas como fura-filas, inclusive do setor empresarial: o cenário não é animador.