Das redes territoriais para as redes virtuais: invertendo a lógica

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Militância clickbait: ídolos virtuais, ego e passação de pano | by ...
O principal ponto que quero destacar na coluna desta semana é que não desenhamos saídas, talvez por não havê-las mais fora de onde agimos. Quando falo em "nós", me refiro a todos os que se opõem à combinação de moralismo e neoliberalismo que vigora no Brasil e em partes significativas do mundo.

O máximo que conseguimos é ficar "dentro e contra" em reações ao que nos chega no esfacelamento da esfera pública pelas plataformas digitais. Fechamo-nos em nichos que parecem cada vez mais desconfortáveis frente aos demais. Cada qual na sua bolha, que é melhor do que a do outro. O que é comum se desfaz frente à segmentação mercadológica que o neoliberalismo e suas ruínas nos trazem em um contexto pandêmico e de mudanças climáticas.

A pandemia legou uma conectividade permanente, ao menos para um determinado perfil socioeconômico, pois as camadas populares continuaram a tecer suas redes territoriais comunitárias, com ou sem conexão com a internet, no que pode ser visto como uma saída, talvez não institucional, para o dilema político que vivemos.

No entanto, volto a salientar que a esquerda institucional, cada vez mais isolada, não conseguiu se conectar com essas iniciativas comunitárias, deixou passar a pandemia se mobilizando apenas para seus nichos virtuais, com a proliferação de lives ou agitação da sua base de seguidores em plataformas digitais, abrindo caminho para o enraizamento de quem ocupa a cadeira presidencial ou mesmo reduzindo as alternativas ao que se vislumbra como "direita sensata".

É preciso entender que as ações conectivas passaram por mudanças significativas ao longo da década. Em resumo, se no início dos anos 2010 estavam abertas a viabilizar ações coletivas, que as grandes manifestações de rua e ocupações que varreram o mundo em sua primeira metade não negam, a partir da segunda metade da década houve um fechamento, o que se refletiu na emergência de uma rede de extrema direita mundial a partir da eleição de Trump em 2016 ou mesmo pela plataformização dos sites de rede social. Estes, por meio de seus algoritmos, aumentaram a segmentação mercadológica e o consequente esfarelamento da esfera pública, que assume patamares mais altos com a pandemia.

A sensação de labirinto sem saída se amplia. É neste contexto que as ações conectivas como forma de contestação devem ser encaradas. Um tuitaço hoje não é o mesmo esforço coordenado que era em 2010, seus resultados são diferentes, sua eficácia reduzida. As plataformas levam a mais controle do que autonomia. E como buscar essa autonomia?

Em plena pandemia é muito difícil insistir na territorialização das ações como solução fácil, o que se complica ainda mais em pleno ano eleitoral. Talvez seja o momento de enxergar que não é da internet para o mundo, mas fazer o movimento contrário: das redes territoriais para a internet, refazendo o que as favelas e periferias nos ensinaram durante a pandemia, assim como também o movimento feminista.

São sinais que podem nos trazer algo diferente do que o mesmo teatro que as redes nos oferecem com sua ilusão de participação e engajamento em curtidas e compartilhamentos num processo que é, de fato, de dominação.

Por fim, talvez seja essa inversão de lógica, com a retomada do vigor dos territórios, que conseguiremos sair do labirinto político que tanto nos angustia pela política de morte adotada no Brasil. E como estamos ainda no inverno, que esse não seja tão longo.

Marcelo Castañeda é cientista social e professor

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