Tentar sair do abismo

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É triste reparar que estamos cada vez mais próximos do nazismo do que de uma democracia. Temos em curso um projeto de caráter mortífero que a pandemia deixa claro e os últimos acontecimentos reforçam: apoio militar, articulação com Congresso e STF, base de fãs que sustenta um terço de popularidade, culto à personalidade (em que Bolsonaro produz liderança de seus fãs, mas esta também é produzida por eles), apoio de empresários e alinhamento com a política externa norte-americana. Não haverá golpe, o golpe já aconteceu em 2016, o que tivemos de lá para cá foi uma rápida transição até chegarmos ao Estado miliciano-militar.

A questão passa a ser: como sair disso?

Evidente que a breve reflexão abaixo se limita apenas a perspectiva dos atores políticos que disputam a gestão da crise no âmbito nacional, tendo em vista a condição periférica do Brasil no cenário internacional, em especial como fornecedor de commodities.

Se, para evitar a ascensão do projeto representado por Bolsonaro em 2018, as esquerdas teriam alguma chance apenas se se unissem e furassem suas bolhas, agora isso se torna imperioso, mas ainda distante:

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Como pensar a união de forças democráticas a partir de iniciativas das esquerdas se cada liderança parece jogar para seus fãs? Falo de Ciro e Lula, os mais evidentes, mas não só, vide a entrevista de Freixo ontem. A iniciativa do deputado em não concorrer à prefeitura do Rio é legítima, bem como sua posição de procurar se fazer articulador de um campo esfacelado como fica evidente em suas respostas. No entanto, como lidar com as disputas que os regimes de visibilidade impõem aos que hoje se dedicam à política como um espetáculo que tem nas redes comerciais (chamadas de sociais) sua expressão mais visível?

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Como fazer com que qualquer articulação de atores políticos relevantes no nível macro (Lula, Ciro, Freixo, Boulos) seja acompanhada de mobilização e engajamento de várias camadas da micropolítica que se distribuem nacionalmente? Como as tecnologias podem ajudar/atrapalhar nesse processo? De que forma podemos pensar um nível intermediário de articulação que não apenas determine “de cima para baixo” ou “de baixo para cima”, mas seja condizente com o que acontece na prática tendo em vista que nos deslocamos por essas esferas analíticas (macro/micro, cima/baixo) o tempo todo?

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O ponto fundamental: como articular essas duas questões anteriores com o momento dramático e trágico de pandemia que nos atinge plenamente? Sem isso não vamos a lugar algum. Entender que a pandemia é um acontecimento que divide o tempo entre antes e depois e que o “nada será como antes” é uma tônica em todos os sentidos faz com que ela se torne elemento primordial de qualquer iniciativa. E isso não está acontecendo de forma articulada no campo político “das esquerdas”. De onde vejo, a crise político-institucional está à frente da crise sanitária no Brasil, e poderia dizer que isso é uma característica nacional.

As esquerdas teriam a oportunidade de liderar esforços no âmbito da sociedade no que diz respeito a lidar com a tragédia social e econômica da pandemia ou acham que cabe neste momento um enfrentamento do governo que se apresenta estabelecido? Até que ponto a maior parte dos ataques ao governo, dos que balançam, vem da “nova direita sensata”, dos que deserdaram da esfera governamental bolsonarista? Conseguir estar conectado com a sociedade seria mais importante.

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Seria possível (re)construir uma democracia “liberal”, “burguesa”, novamente no Brasil ou entramos num caminho sem volta? Esses termos sairão do nosso vocabulário e pensaremos sem as instituições atuais? Entramos de vez na época da “democracia securitária” nos termos que Paulo Arantes define? Seremos capazes de criar novas instituições caso superemos o pesadelo nazista em curso? Como pensar as eleições marcadas (?) com um campo das esquerdas cada vez mais reduzido na era dos fãs? Como romper com a atomização vigente do “cada um por si” neste campo? São questões que voltam e a pista que trago é nada inovadora: em contato com as condições materiais de existência do nosso tempo, em especial com as classes que são exploradas na configuração atual do capitalismo flexível. A sociedade importa mais do que os jogos da representação neste momento, até para que seja possível representar algo mais a frente, caso tenhamos condições para tal.

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Uma última observação: Flávio Dino é o único político de esquerda que foi atacado recentemente por Jair Bolsonaro por conta das medidas que adota como governador do Maranhão em relação à pandemia. Trata-se de um indício forte a seguir como um nome de consenso visando as eleições presidenciais de 2022, tendo em vista que terminará seu segundo mandato como governador e poderia representar um sinal de renovação de um campo que se encontra viciado pela disputa entre Ciro e Lula que já dura pelo menos cinco anos. Isso não é uma declaração de voto, apenas uma análise.

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Por fim, talvez 2022 esteja muito perto já, 2020 já foi...

Marcelo Castañeda é cientista social e professor da UFRJ
Twitter: celocastaneda

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