O labirinto da esquerda e a política da morte

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Bolsonaro limpa nariz e cumprimenta idosa durante passeio
Jair Bolsonaro tem certeza que a morte não causa mais espanto. Aposta nesta certeza todas as suas fichas e pode ser bem-sucedido no país que banalizou a morte no cotidiano. Essa perspectiva mórbida fica evidente quando o personagem que ocupa a presidência, já eleito por uma plataforma política da morte, representada no seu gesto de fazer uma arma com as mãos, trata a pandemia provocada pelo COVID-19 como uma “gripezinha” e trampolim para suas pretensões autoritárias a partir do caos que pode se instalar no ambiente econômico que a sociedade brasileira configura.

Ao cumprir um papel fundamental de desinformação camuflada como preocupação com “a população que precisa trabalhar para pagar suas contas”, bem como ao bancar uma aposta em um remédio (cloroquina) que não tem o aceite da comunidade científica, Jair Bolsonaro trava uma batalha apoiado por seus filhos, pelo astrólogo da Virgínia, os militares, políticos obscurantistas do porte de Osmar Terra e empresários inescrupulosos para consolidar sua parcela de um quarto a um terço das opiniões relativas à popularidade política em um momento que é contestado por antigos aliados do que emerge como uma “nova direita sensata”, tais como Dória, Witzel, Caiado e outros mais, como Joyces e Frotas, bem como por toda centro-esquerda e esquerda, que perfazem um campo cada vez mais reduzido, ainda que tenha mantido panelaços em grandes cidades ao longo do mês em que a pandemia foi decretada. É apenas o começo.

Jair Bolsonaro contesta a possibilidade de isolamento social e quase que diariamente dá mostras práticas dessa contestação, seja visitando um canteiro de obras, seja comendo um sonho (dos brasileiros?) na padaria ou mesmo sentando na rua de forma estranha na noite desta segunda. Não usa máscara em suas saidinhas, tira fotos, cumprimenta as pessoas, às vezes até depois de um escarro nas mãos. Quer mostrar que é o super-homem do povo com histórico de atleta que mostra a histeria de literalmente todo o mundo.

Não se importa se o Brasil já passa dos mil mortos em um mês de pandemia, nem mesmo com o potencial de que atinja para além de meio milhão. Quer parecer para sua claque de mitomaníacos que o Brasil é alvo de um grande complô global em que ele luta pela pátria amada quando, no fundo, se torna um grande campo de concentração estadunidense para o teste da cloroquina. Se der certo ótimo, se der errado morrem brasileiros.

Jair Bolsonaro trata como se fosse uma “guerra” (destaco que considero um vocabulário equivocado de boa parte das autoridades globais), em que todos sabem que vidas podem ser ceifadas em nome de um bem maior, no caso a preocupação com aquilo que sempre fez questão de dizer não saber sobre: a economia. É o representante do caos, que ele mesmo promove a fim de que possa implementar seus planos autoritários.

Engana-se quem pensa que está isolado, que não tem apoio popular ou mesmo enfrenta conflitos graves dentro do seu governo, em especial com o agora aplaudido ministro da Saúde, laureado com pompa de possível candidato para 2022. Até porque, considerando-se Mandetta, o que a população ganharia, além de ter um oscilante ministro que ora joga com os protocolos internacionais, ora com a agenda obscurantista do seu chefe político, chegando a dizer que o comando do navio é de Jair Bolsonaro? Apostar num conflito desses agora, aliás, não beneficia em nada a esquerda, como tratarei a seguir.

Os atores políticos não estão em suspenso, todos jogam com o calendário de 2022, ainda que sequer saibam como chegarão lá. No entanto, o único que maneja esse cronograma com o poder é Jair Bolsonaro, contra quem Rodrigo Maia não se arvora além de notas pálidas a favor de uma democracia que está no ralo ou mesmo indiretas literais em redes sociais. Basta ver a quantidade de pedidos de impeachment e de crimes de responsabilidade que estão sendo engarrafados neste momento. Alguns chegaram a falar de renúncia, questão que é fora de ordem. Vale a pena falar do judiciário? Creio que não.

Esse cenário mórbido faz com que o Brasil se cacife como modelo de fracasso na pandemia: não consegue seguir os protocolos básicos que percebem o isolamento social como medida prioritária para conter a curva dos casos associados ao COVID-19, não possui testes em quantidade suficiente, nem máscaras para todos. O caos se planeja.

O país comandado por Jair Bolsonaro aposta na banalização da morte, que foi regra para os índios, os negros, os pobres, as mulheres, travestis, gays, lésbicas, enfim, todos que o atual presidente marginalizou durante toda sua vida pública e contra os quais se posicionou ao longo de sua vitoriosa campanha eleitoral em 2018. Intuitivamente e por meio de pesquisas, sabe que maneja uma parcela da sociedade que se identifica com seu discurso mortífero travestido de preocupação com os trabalhadores.

O que fazer contra isso?

O que preocupa é uma certa colonização da oposição pelo governo federal: ao mesmo tempo em que é pautada e reage ao invés de agir e propor, quando consegue articular e propor (como na proposta aprovada de renda básica) é capturada pelo governo federal e não consegue sequer mostrar que a proposta é dela.

A hipótese é que está imersa na avalanche de reação relacionada ao que o governo promove todo dia, em especial na figura sórdida de Jair Bolsonaro. O desafio é imenso, por isso não acho que seja uma questão tão simples lidar com os atos do presidente, se opor a eles e conseguir mostrar que existem alternativas, em especial quando parece que elas ainda precisam ser construídas não só entre os principais atores políticos, mas em diálogo com a sociedade.

O labirinto da esquerda se traduz na seguinte equação: quanto mais reage aos posicionamentos vindos do governo federal, em especial os que emanam da figura mórbida presidencial, mais estéril se torna o campo de esquerda, incluindo nele o limbo chamado centro-esquerda, com as saídas escorrendo pelas mãos conforme o tempo passa.

Esse cenário dramático abre espaço para a consolidação de uma “nova direita sensata” como opção, que remete a nada mais que a um ex-bolsonarismo com levíssimo verniz civilizacional, podendo ser tão mórbido quanto quem está hoje dando as cartas no governo brasileiro. Essa é a encruzilhada que a representação política falida nos apresenta hoje no Brasil.

O dilema passa a ser como vislumbrar saídas ao longo do tempo. A primeira tarefa é a mais paradoxal: a meu ver, para voltar a ter chances eleitorais no cenário nacional, o campo esquerdista precisa se desconectar do calendário eleitoral e retomar contato com o cotidiano, com as pautas que se tecem na sociedade, perfazendo uma perspectiva de longo prazo.

Até isso acontecer, acredito que novas derrotas eleitorais serão inevitáveis caso se repitam as mesmas fórmulas que remetem apenas ao momento eleitoral como ápice da política. Cabe lembrar que nas eleições municipais de 2016 a esquerda já sofrera uma derrota acachapante que prenunciava a derrota de 2018. Evidentemente, não se esperava o bolsonarismo como vitorioso, o que mostra que tudo pode piorar.

Portanto, o lema “voltar às bases” nunca fez tanto sentido, não para conduzi-las, mas para se encontrar com suas pautas e desejos. Trata-se do movimento mais estratégico e difícil de operar quando a repetição se manifesta de maneira exacerbada e, com ela, o derrotismo é visto como algo preferível ao risco da inovação. É cada vez mais clara a opção por um “lutamos como nunca, perdemos como sempre” como forma de consolo e reforço de uma identidade.

Um segundo movimento de mudança, mais relacionado com o curto prazo, mas tão difícil de operar quanto o primeiro, remete à postura reativa em relação ao governo federal. Considerando que a oposição de esquerda institucional atualmente se restringe aos líderes Lula e Ciro Gomes, que preferem sempre a troca de farpas à conversa humilde, que se somam a alguns governadores nordestinos, dentre os quais se destaca Flávio Dino, e uma rede de deputados federais que se articula mais em plataformas digitais próprias e menos entre eles em algumas poucas frentes e, quiçá, seus encontros em comissões congressuais e, claro, dentro de seus partidos políticos, que raramente se falam e pouco se veem agindo conjuntamente de forma propositiva, vale destacar que, sem a construção de alternativas que sejam visíveis e reconhecidas pela sociedade, a esterilidade das reações tende a se acentuar.

Aqui também temos um paradoxo na medida em que a oposição precisa manter a postura crítica de uma espécie de “marcação cerrada” em relação a tudo que emana do governo federal, sem deixar de propor alternativas. Creio que o problema maior não é a reação em si, mas a falta de alternativas que a acompanhem de forma sistemática. Não estou propondo que paremos de combater cada medida absurda que venha do governo Bolsonaro, mas se ficarmos apenas no terreno da crítica, esta será sempre usada em benefício do próprio governo, seja ajustando seu rumo a partir delas, seja recuando para avançar mais adiante. É típico das estruturas de poder que a crítica sem proposição as alimentem.

Logo, creio que apenas com uma intensificação do diálogo entre os atores que configuram a oposição de esquerda atualmente no Brasil é que esse panorama pode mudar. Como isso não está em curso por uma série de fatores que remetem a uma visão rasteira da política, a esquerda tende a continuar reagindo de forma estéril e se apagando cada vez mais no que diz respeito ao reconhecimento popular como alternativa de poder.

Entre esses dois movimentos de curto e longo prazo, a sociedade lida com uma pandemia global, talvez teremos uma eleição em todos os municípios já neste 2020 (curto prazo) e uma eleição nacional em 2022 (médio prazo). Não diria, como Safatle, que a esquerda está morta, mas certamente respira por aparelhos e não parece ter sinais de melhora, mas, ainda como bom sinal, depende de seus atores (seriam anticorpos ou novos vírus?) para sair dessa situação, que não é das mais agradáveis, nem para o campo esquerdista, nem para o país.

No final das contas, o labirinto é uma imagem angustiante, mas as saídas ainda estão lá. É hora de começar a procurar em conjunto.

Marcelo Castañeda é cientista social e professor da UFRJ.

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