Reflexões sobre a pandemia (2)

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Marcelo Castañeda

Coronavírus: como vencer o capitalismo de desastre? Por Naomi ...
Tenho duas imagens em mente: o fuzuê político brasileiro e questões gerais:

1 - Bolsonaro confirma a insanidade permanente de um projeto de poder autoritário e genocida, o que pessoas atentas foram capazes de notar em 2018, independentemente de serem ou não petistas; um apreciador de Brilhante Ustra que nos esfrega a cada instante as feridas não fechadas do último período ditatorial que ainda reverbera.

2- A insanidade em questão não remete à psiquiatria, da qual não tenho qualquer vocação para diagnosticar, mas da repetição de erros que são vistos como qualidade para segmentos da população que continuam lhe dando o crédito necessário para continuar sua saga destruidora nos colocando em uma encruzilhada: pode ficar isolado politicamente e desinformando, bem como pode continuar em campanha eleitoral permanente e desinformando, o que no contexto da pandemia é grave de qualquer jeito.

3 - Por ora, ele transita entre esses dois cenários, o que é preocupante, em especial quando sua briga principal é com seu próprio Ministro da Saúde, que não é lá flor que se cheire, em especial quando fica fazendo média. Mas é cada vez mais claro que está sendo fritado em prol do presidente da Anvisa, que responderia mais adequadamente aos planos de Bolsonaro, perfazendo um cenário sórdido num futuro breve.

4 - O pedido de impeachment que está colocado em mais de uma frente (assinei um deles), tiraria o componente Bolsonaro e nos colocaria Mourão como possibilidade, que, pela sua entrevista ontem na Folha, seria apenas uma versão mais polida de Bolsonaro. No entanto, Rodrigo Maia se coloca à altura de Bolsonaro e opta por lançar notas a cada nova esticada de corda do “Capitão Corona”.

5 - Nossas saídas no curto prazo estão restritas pela ausência da possibilidade das ruas atuarem em conjunto com as redes. Voltamos aos abaixo-assinados virtuais, aos tuitaços, à política na rede com ampla intensidade, e isso não significa necessariamente aumento da capacidade de pressão. A mídia tem a possibilidade de se reerguer, ainda que os principais grupos mantenham a perniciosa prática do paywall, e a ciência tem a chance de dar seu revés. Mas isso não garante a construção de uma saída política de curto prazo, como pressionar pela saída de Bolsonaro. Posso estar enganado, mas alguém eleito com WhatsApp não cairá por uma petição eletrônica.

6 - A realidade é que as articulações são todas feitas em rede. É o que temos para o momento. O volume típico de uma Matrix que se consolida nos coloca interagindo e produzindo uma quantidade de dados, imagens e telas que não imaginamos até então. É o triunfo da tal virtualidade real que uns saúdam e outros temem. Da minha parte, prefiro dosar, colocando uma certa disciplina no contato tecnológico, até porque se, por exemplo, parar para ouvir todos os áudios e participar ativamente de cada grupo de WhatsApp não ser faz muito mais coisa além disso.

7- Assim, é preciso refletir e isso envolve alocar tempo para tal atividade. Venho lendo bastante as visões que pipocam de vários intelectuais sobre a pandemia e as que me chamaram mais atenção foram as de Bruno Latour e Paul Beatriz Preciado. O primeiro coloca a necessidade de reflexão mediante a oportunidade que a, até então impossível, parada sistêmica nos dá para avaliar o que desejamos que continue ou não em termos de atividades que nos interessam. Isso para que, quando formos chamados a voltar nossas atividades, sejamos capazes de, e se conseguirmos nos articular, assumir a posição de que nada voltará a ser como antes, da forma que os predadores organizacionais esperam. Logo, é tempo de inventariar e refletir. Quem quiser ler o artigo traduzido: https://www.dropbox.com/s/dv7x89btfh02los/B%20Latour%2C%20Imaginar%20gestos%20que%20barrem.pdf?dl=0. É bem interessante, inclusive por propor um questionamento da produção, que para muitos revolucionários esquemáticos seria impossível na medida em que enxergam apenas a redistribuição como horizonte.

8 - Paul Beatriz Preciado nos acena com a possibilidade emancipatória frente a uma perspectiva de interpretação biopolítica adequada para o entendimento da pandemia globalizada, dando ênfase não ao uso indiscriminado das tecnologias, mas na nossa capacidade de nos desligar delas no confinamento em prol da reflexão que considere acessar diferentes formas de construção da resistência para pensar em como nos organizar para fazer frente a esse mundo novo que surgirá. O artigo pode ser lido em espanhol aqui: https://elpais.com/elpais/2020/03/27/opinion/1585316952_026489.html 

9- Enfim, a princípio, a disputa que precisamos fazer agora é pelo futuro, sem abrir mão do que acontece em nossa volta, em especial aqui no Brasil governado pela insanidade chamada Bolsonaro.

Hoje é segunda-feira, dia 30 de março de 2020. Uma boa semana!

Marcelo Castañeda é cientista social, professor da UFRJ.
Twitter: https://twitter.com/celocastaneda 

Marcelo Castañeda

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