“Revolucionários de redes sociais” e a crítica moralista (nas redes sociais)

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É cada vez mais evidente que estamos todos mais ou menos enredados de alguma forma com a internet, em especial com o avanço da mobilidade e conectividade a partir do início da década de 2010, o que nos leva a possibilidades e desafios para pensar a ação política na contemporaneidade.

De antemão, não pretendo ser exaustivo, mas apenas trazer alguns poucos pontos para uma reflexão sobre esse enredamento na medida em que noto um discurso de combate ao que se denomina “revolucionários de redes sociais”, especialmente em função de críticas às práticas que atores políticos consolidados no campo da oposição ao governo atual desempenham no seu exercício político.

O mais curioso é que esse discurso de combate se dá no mesmo território das redes sociais, o que mostra uma limitação e um moralismo de quem o faz, na medida em que usa as mesmas redes sociais para tentar cancelar a possibilidade de crítica a partir delas. Como pano de fundo, a disputa entre radicalidade e razoabilidade, entre imaginar o impossível e ficar limitado ao que aparece como possibilidade cada vez mais única.

A primeira questão que se coloca é entender o terreno das redes sociais corporativas (aqui falo especialmente do combo Facebook e Twitter) como terrenos de uma nova dominação que se tece nessa sociedade enredada, com formas de controle que não estavam dadas há 15 ou 20 anos. Cabe-nos lidar com essa dominação “dentro e contra” na medida em que não acredito que o êxodo de tais redes dê conta de escaparmos dos mecanismos de controle dos dados: todos estamos controlados de alguma forma, desde quem tem uma conta em banco, passando por qualquer cadastro feito nos últimos 20 anos, até aqueles que fazem testes bonitinhos no Facebook.

Longe de me somar passivamente aos que pintam um cenário catastrófico, defendo que se parta da materialidade dos modos de vida contemporâneos, tanto para lidar com uma realidade que mudou quanto perceber que o cotidiano encontra-se cada vez mais enredado, o que é uma mudança substancial que se dá a partir da popularização da internet, de 1994 em diante. Torna-se fundamental, portanto, voltarmos a falar de dominação como significante importante para pensar as relações políticas que se estabelecem nas novas configurações de poder.

Um segundo ponto envolve entender que a política nas redes sociais é apenas um nicho, e tendo a achar que é um nicho bem minoritário. No Facebook não temos a possibilidade de acompanhar essa métrica, mas não me parece que os Trending Topics do Twitter mintam tanto para um acompanhamento mais atento e não quantitativo: a política aparece de forma minoritária e essa ferramenta não deixa de servir como controle do que mais está se comentando a cada momento.

Em geral, assuntos tidos como banais ganham a preferência, tais como novelas, futebol, celebridades. A política, quando ganha destaque mostra que o tema é relevante, mas fica no radar de quem está no poder. Isso às vezes funciona como elemento de pressão, como no recuo do governo Guedes-Bolsonaro em pleno sábado em relação ao cancelamento do cadastro de MEI para atividades artísticas e culturais, entre outras.

Portanto, venho defender os que são acusados como “revolucionários de redes sociais” e depois criticar os que se colocam como críticos destes, em especial pelo moralismo. Com base na polêmica recente envolvendo o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), por conta de seu voto favorável ao pacote anticrime aprovado pelo Congresso, os críticos à postura do deputado foram rotulados como “revolucionários de redes sociais” no próprio terreno das redes sociais, o que mostra que o êxodo é cada vez mais difícil e a crítica moralista grassa.

Ora, os tais “revolucionários de redes sociais” me parecem fundamentais para politizar um cotidiano sociotécnico, mesmo que eles não façam mais nada além disso. E as redes sociais não precisam se tornar o que já tendem a ser: um terreno de prestação de contas do que se faz ou deixa de fazer, ou seja, “posso criticar somente se estiver engajado em alguma atividade política reconhecida, de preferência um partido, quiçá um movimento social”.

Daí quero chegar na consolidação de um moralismo pernicioso, que envolve dizer o que pode ou não ser feito por um outro que não se conhece além da rede social, cancelando a crítica necessária, em especial quando essa crítica atinge um alvo que se acredite deva ser preservado pela importância institucional que parece representar para um campo esfacelado.

No meu caso, é bom dizer que até cumpro os requisitos do check list que os moralistas de plantão impõem à crítica nas redes sociais: além de desempenhar meu trabalho com afinco, estou presente em projetos comunitários, mais especificamente um pré-vestibular em favela, fora tentar me envolver quando o sindicato da categoria acha pertinente chamar assembleia, já que isso nem sempre acontece. Só que isso não me faz mais legítimo para falar de política nas redes sociais quando encontro tempo.

Enfim, não sairemos do atoleiro desprezando a materialidade do que acontece na realidade, e as redes são parte integrante da vida contemporânea. Tampouco sairemos através do cancelamento da crítica, cultivando moralismo barato. Isso só cavará mais fundo o nosso poço.

Marcelo Castañeda é cientista social e professor da UFRJ.
Twitter: @celocastaneda
Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

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