Correio da Cidadania

O negócio dos submarinos ameaça afundar a aliança franco-americana





Os EUA não são mais os mesmos dos tempos em que resolviam problemas das outras nações com fartos empréstimos, planos e subsídios.

Com seu deficit de 25 trilhões de dólares, falta-lhes o que sobra na China: dinheiro. Os chineses têm investido e emprestado aos povos de todos os continentes, sem complicações, nem exigências de contrapartidas políticas ou de sacrifícios econômicos. Foi assim que, nos últimos 20 anos, a China aplicou 50 bilhões de euros no Reino Unido, 23 bilhões na Alemanha e 14 bilhões na França.

E recentemente lançou a sua “Iniciativa, Um Cinturão, uma Rota”. Trata-se de um gigantesco projeto de infraestrutura, que aplica cerca de 2 trilhões de dólares na construção de uma rede de oleodutos, estradas de ferro e de rodagem, varando a Europa, a Ásia e a África e atravessando o Oceano Pacífico, o Oceano Índico e o Mediterrâneo, marginado por bases navais e 40 portos comerciais, e ainda incluindo a América Latina e o Caribe (Consortium News,15/09/2021).

Entre os objetivos desse projeto, além do suporte ao desenvolvimento que geram nas regiões onde suas obras vão ser construídas, está principalmente a criação de uma via de acesso rápida e protegida para os mercados consumidores de produtos industriais e agrícolas chineses. Em sentido contrário, o mesmo benefício será oferecido às importações feitas pelo antigo Império do Meio.

Seria irracional que um país, mesmo alinhado aos EUA, negue-se a auferir destas vantagens, a menos que houvesse razões absolutamente indiscutíveis.

Mas é o que Biden deseja.

Se Biden moderasse seu entusiasmo e raciocinasse com isenção, não deveria pretender que os países aliados, mesmo os grandes amigos europeus, embora aceitando integrar ações para deter excessos da expansão chinesa, rejeitassem acordos econômicos e boas relações com o governo de Beijing

É verdade que todos eles concordam em fazer algo para eliminar ou pelo menos minimizar as malazartes chinesas na área de direitos humanos contra os uigures de Xinjiang. Mas os europeus não parecem dispostos a entrar numa guerra fria com a China, sob a liderança dos EUA. Para eles o apelo de Biden para participarem ao lado dos americanos na luta pela vitória das democracias contra as autocracias não passa de retórica.

Não tem sentido, em primeiro lugar, porque a China não é uma nação missionária, como a extinta União Soviética, que atuava para converter o mundo através dos partidos comunistas espalhados por toda parte e impor seu sistema aos seus países satélites. A China não é a mesma coisa. Não se conhece um único caso em que seu governo ou partidários no exterior tenham sequer tentado constranger outro país a se tornar uma autocracia como o governo de Beijing.

Em segundo lugar, porque é até escandaloso falar em unir democracias contra autocracias ao se incluir Israel no bloco das nações do Bem, quando esse país ocupa militarmente a Palestina desde 1967; fecha Gaza para o mundo e lá periodicamente realiza devastadores ataques aéreos, alvejando escolas, mesquitas, redes de água e esgoto, hospitais e campos de refugiados; anexa o território do Golã; institui o apartheid no seu país; não permite a independência da Palestina; não aceita que o TPI (Tribunal Penal internacional) julgue possíveis crimes de guerra do exército israelense. Sem falar nas democracias fake, Polonia, Hungria e Turquia, onde governantes autoritários mandam e desmandam nos respectivos legislativo e judiciário.

Desde seus primeiros pronunciamentos, Biden e seus principais apaniguados apregoaram que, por ser a nação mais poderosa do mundo, cabe aos EUA liderar os países democráticos. Provavelmente, Biden, como a maioria dos políticos americanos (até mesmo Obama) acredita no excepcionalismo americano, um povo supostamente criado para conduzir o mundo aos caminhos corretos.

Esqueceu que, numa democracia, espera-se que os líderes respeitem os liderados e seus justos interesses, ainda que diferentes dos interesses dos EUA. O que é imperdoável num estadista que pretende liderar grandes países com vastas tradições democráticas como França, Alemanha, Reino Unido e Itália.

Em 2008, em Berlin, o então Barack Obama, referindo-se à amizade EUA-Europa, afirmou sua crença em “aliados que prestam atenção uns aos outros, que aprendem com cada um, que, acima de tudo, confiam uns nos outros.”

Biden, por enquanto, não parece ser um desses aliados.

Há menos de dois meses revelou-se que os EUA haviam surrupiado da França um negócio de 66 bilhões de dólares já acertado com a Austrália em 2016, cujo objeto era a venda de 12 submarinos franceses ao país dos cangurus.

Enquanto as partes discutiam detalhes e os franceses já começavam a trabalhar no projeto, EUA e Austrália negociavam seu cancelamento e substituição por um contrato diferente: a venda de 8 submarinos nucleares americanos ao país dos cangurus.

E, o que é pior, tudo se processou em segredo. Quando os franceses souberam, subiram nas tamancas.

De fato, Biden pisou na bola.

Se pretendia liderar a França, como pudera lhe aplicar um legítimo passa-moleque? Ainda mais na calada da noite, não lhe dando qualquer chance de defender seu vantajoso negócio (66 bilhões não são exatamente uns trocados).
A reação francesa só podia ser de profunda decepção;

Uma semana depois do evento ter vindo a público, Macron, tocado emocionalmente pela traição de um país amigo, apelou aos europeus para que “deixassem de ser ingênuos” nesta fase do mundo e afirmassem sua independência dos EUA, enviando-lhe um sinal dos mais fortes de que a crise diplomática desencadeada pelo acordo dos submarinos rompido poderia ter uma longa repercussão nas relações transatlânticas (Washington Post, 28/09/2021).”

Falando em nome do governo de Paris, o ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian declarou que se tratava de uma “facada nas costas”, recheada de “duplicidades, menosprezo e mentiras”,

Não faltaram comparações especialmente indesejáveis por Biden. “Esta decisão brutal, unilateral e imprevisível lembra-me muito o que Mr. Trump costumava fazer”, afirmou em entrevista a uma rádio francesa o ministro do Exterior francês.

As críticas foram longe: Não dá para aceitar, mas a triste realidade é que ”os governos dos EUA e da Austrália montaram uma verdadeira operação secreta para manter Paris no escuro a fim de lhe tomar o seu maior contrato de Defesa (New York Times, 17/09/2021).”

E Le Drian chamou a Paris o embaixador da França em Canberra para consultas, o que, em diplomacia, se considera algo muito grave. Biden pôs as mãos na cabeça e mandou a Paris seu secretário de Estado para maneirar as coisas com Macron e Le Drian.

Buscando baixar a poeira, Blinken disse que teria acontecido um simples problema de comunicação, uma falha menor, portanto, apenas um descuido da parte do seu governo: “Nós (americanos) poderíamos e deveríamos ter comunicado melhor.” Mas concluiu sem tentar enrolar ninguém; “nós reconhecemos que isto causará tempo e esforços duros.”

Sentindo que fez besteira, Biden apressou-se a telefonar para Macron para acalmar sua justa indignação. O presidente da França concordou com ele em esperar uma reunião em fins de outubro, onde tudo poderia ser analisado, e o morador da Casa Branca forneceria as explicações necessárias. Biden assegurou ao presidente francês que semelhante descortesia jamais se repetiria (The Guardian, 19/10/221).

E a questão parecia acalmada, pelo menos temporariamente.

Mas não foi.

Poucos dias depois, outro aliado próximo de Macron, o ministro das Finanças Bruno Le Maire, foi às raízes do desentendimento. Segundo sua opinião, sendo os EUA o pais líder do mundo, querem confrontar a poderosa China, que desafia sua liderança. Enquanto a Europa, que não tem nada a ver com isso, deseja relacionar-se com os chineses.

Le Maire explicou: ‘Em contraste, a prioridade estratégica da Europa é a independência, o que significa ter maior capacidade na defesa, em defender sua própria visão na luta contra a mudança de clima, defender seu próprio interesse econômico, para ter acesso as tecnologias chave e não ser demasiadamente dependente das tecnologias americanas.

E o ministro francês concluiu: “A questão-chave para a União Europeia agora é tornar-se independente dos EUA, capaz de defender seus interesses próprios, sejam interesses econômicos ou estratégicos. (The New York Times, 12/10/2021).

Aparentemente, Biden acha um raciocínio errado. Para ele, a visão americana foca normalmente o cerne de problemas básicos que, por serem dos EUA, são também do mundo democrático, dos países aliados. Eventualmente  Washington pode ignorar interesses particulares dos aliados, na sua busca de soluções que, no fim, acabam contemplando favoravelmente a todos.

Se Biden furou a venda dos submarinos franceses foi por achar importante para todo o mundo livre (do qual a França faz parte) que a Austrália tivesse submarinos nucleares americanos, capazes de atuar no contexto da contenção do “maléfico” expansionismo da autocrática China.

Até certas medidas tomadas pelos EUA, consideradas duras pelos europeus, seriam benéficas para o eficaz relacionamento entre os países dos dois lados do Atlântico.

Trump, disposto a tratar os europeus como vassalos, que desfrutariam de vantagens absurdas devido à fraqueza dos presidentes americanos  anteriores, impôs uma série de taxações às exportações da França e de outros países da região, e bloqueou indiretamente vultosas operações econômicas com os iranianos, sancionando Teerã e quem negociasse com os aiatolás.

Indignados os principais estadistas europeus reagiram, chegando a cogitar separar seus destinos da liderança americana. Em maio de 2019, Angela Merkel proclamou: “Este parece ser o fim de uma era, na qual os EUA mandavam e a Europa obedecia.” E ainda: “As nações da Europa precisam saber que nós temos de lutar por nosso futuro e de construir nosso próprio destino como europeus.”

Macron associou-se a esta posição, propondo que a Europa tivesse seu próprio exército, o que enfraqueceria o poder da OTAN.

Em um discurso, Macron preveniu que a Europa não poderia mais depender dos EUA para sua defesa militar e pediu com urgência novas políticas diante do nacionalismo e do extremismo crescentes (Insider, 05/10/2019).”

Não foi a primeira vez que os franceses encararam as pretensões americanos. Apesar de ser o mais velho aliado dos EUA, tendo enviado tropas decisivas na guerra pela independência americana, a França contrariou Tio Sam sempre que julgou necessário.

Em 1966, por exemplo, o presidente, general de Gaulle, considerou que a França só teria independência completa retirando-se da NATO, que era (e é) controlada pelos EUA (The New Statesman, 15/05/2021).” E retirou-se mesmo, desdenhando as chuvas de críticas, que seu ato suscitou.

Em 2003, o presidente Jacques Chirac recusou o apelo dos EUA para integrar a invasão do Iraque. Somente a França, a Alemanha e a Índia tiveram a coragem de se opor ao país mais poderoso do mundo, dizendo que só topariam se a guerra fosse aprovada pela ONU. Posteriormente, descobriu-se que os motivos alegados pelos EUA eram falsos e o Iraque não tinha qualquer programa militar nuclear.

A chegada de Biden ao poder trouxe grandes esperanças aos europeus. Crítico duro das medidas trumpistas contra a Europa, esperava-se que ele as revogasse sem demora.

Biden livrou o vinho francês das malvindas taxas extra de exportação, bem como do queijo e de outros produtos desta prateleira. Mas fora disso, pouco fez. Até agora, a maioria das mais inamistosas medidas engendradas por Donald Trump continuam de pé.

Ressabiado, o secretário de Estado para assuntos estrangeiros da França, Clement Beaune, não mediu suas palavras: “o trumpismo não morreu, com a saída de Donald Trump… vai continuar a irrigar a agenda americana”, motivado pela “obsessão sobre a China, o redimensionamento da Aliança Atlântica ou ainda a defesa sem concessões dos interesses comerciais americanos (Liberation, 24/11/2020).”

Acho que a obsessão sobre a China não vai acabar.

Já a defesa sem concessões dos interesses comerciais americanos pode ser reduzida. Trump a consolidou instituindo uma série de tarifas protetoras e de sanções. Atualmente, fortes interesses empresariais não admitem ficar sem as tarifas pois perderiam mercado já que, com isso, os concorrentes europeus passariam a oferecer preços mais baixos. As dificuldades em cancelar as sanções contra o Irã estão claramente demonstradas nos meses gastos por representantes de Washington e Teerã para acertar um acordo, que talvez nem seja conseguido.

O problema dos submarinos chegou num mau momento para Biden, no qual ele enfrenta dificuldades em unir contra a China países democráticos e países nada democráticos, tipo Egito, Arábia Saudita e Hungria.

Como afirmou o ministro do Exterior da França: “A crise é séria, ela não está resolvida porque nós retomamos o diálogo, e vai durar muito. Para sair dessa, nós precisamos mais de atos do que de palavras.”

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça