Correio da Cidadania

Nova guerra à vista no Afeganistão

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Créditos da foto: Carta Capital

No século 330 a.c., o grande conquistador Alexandre Magno vinha derrotando um reino atrás do outro no seu caminho para a Índia.

No Afeganistão, sua marcha foi interrompida, os afegãos eram um povo duro na queda. Alexandre teve de encarar uma barra das mais pesadas para acalmar o país e poder continuar sua marcha. O que levou o guerreiro invicto a comentar: entrar no Afeganistão é fácil, o difícil é sair.

Trinta e quatro séculos depois, a história se repete e os EUA são obrigados a desistir de uma guerra de 20 anos, que custou 2,3 trilhões de dólares dos contribuintes. Não sabem o que fazer para evitar perder o país para o outro lado.

A verdade é que já passara a hora de entregar os pontos. O povo norte-americano não aceitava mais continuar uma guerra sem sentido, que já registrava a morte de 2.000 dos seus soldados e o repúdio do resto do mundo.

Avaliando a situação, Donald Trump achou que seria uma boa retirar as tropas, pois agradaria os eleitores e lhe traria substanciais votos no pleito presidencial que se aproximava.

Depois de uma série cansativa de contatos EUA/Talibã, chegou-se a um entendimento inicial. Os fundamentalistas juravam não usar nem deixar usar o território afegão para atentados contra a segurança dos EUA e aliados (leia-se o bem-amado Israel). Em troca, todas as forças estadunidenses e da OTAN deixariam o Afeganistão.

Por fim, os talibãs se comprometiam a realizar negociações de paz com o governo de Cabul e topavam um cessar-fogo, enquanto as duas forças rivais aceitavam reduzir ao mínimo suas ações militares.

A princípio, tudo parecia estar indo nos conformes. Em dezembro de 2020, o Talibã e o governo afegão chegaram a um acordo para definir a sequência das reuniões até a conclusão das deliberações finais.

Foi quando os EUA elegeram Joe Biden e passaram a viver sob nova administração.

O presidente recém-eleito topou a volta para casa das tropas ianques. Mas não o prazo de 1 de maio.

Coisa do irresponsável Trump... Não dava para produzir e executar um plano para atravessar o mundo, com frotas de navios levando 3.000 soldados norte-americanos e 7.000 da OTAN, mais toneladas de canhões, lança-mísseis, carros blindados, tanques de guerra, metralhadoras, munições, foguetes, drones e outros itens bélicos em apenas 4 meses.

11 de setembro seria um prazo realista. Esse adiamento, de maio para setembro, não agradou nada aos talibãs.

Usaram como desculpa para o grande aumento das suas ações militares e atentados, passando do mínimo prometido ao máximo: o lançamento de uma ofensiva em regra, objetivando tomar o que desse e, desta vez, manter suas conquistas sob sua ocupação, enquanto avançavam pelo território do Afeganistão.

Inicialmente os ataques se concentraram nas áreas rurais do país. O sucesso está sendo retumbante.

Os talibãs garantem que 85% da população já está sob seu controle, o que é contestado por Cabul, mas admitido por militares dos EUA (Morning Star, 02/08/2021).

Segundo o general Kenneth McKenzie Jr, chefe do comando central dos EUA, o movimento rebelde capturou mais da metade dos distritos do Afeganistão e agora ameaça as cidades principais. Até agora, os militares do governo não foram páreo para o Talibã, muitos até cederam áreas ao inimigo, quase sem luta (New York Times, 25/07/2021).

Nessa segunda etapa, as cidades de Herat, Kandahar, Lashkar Gah e Zaranj estão sendo invadidas. O regime de Cabul ordenou o envio de reforços para a defesa das cidades atacadas, inclusive forças especiais, treinadas pelos EUA.

Diante do poder bélico dessas tropas e dos arrasadores bombardeios da aviação norte-americana, apoiadas por aviões afegãos, os rebeldes foram expulsos de algumas posições em Herat. No entanto, o ataque Talibã se renovou, a partir de localidades ao redor da cidade, que prossegue sitiada.

Em Kandahar as coisas vão mal para o governo de Cabul. Os talibãs já avançaram pela cidade, a segunda maior do país, localizada perto da fronteira com o Paquistão.

A situação parece ainda mais grave em Lashkar Gah, principal centro do tráfico de ópio, em cuja produção o Afeganistão é o recordista mundial. Hoje, 6 de agosto, a vitória parece pender para os talibãs, caso em que haveria uma intensa influência negativa no animo dos soldados do governo.

No mesmo dia, os talibãs conseguiram tomar Zaranj, seu maior triunfo por ser a primeira capital de província que caiu em seu poder.

O general John Sopko, inspetor geral das forças estadunidenses, vê problemas na sorte da guerra. Sustenta que todo o exército afegão precisa ser envolvido na luta, em vez de depender de forças especiais de elite em cada missão. Nota que a maioria das tropas regulares “recusa-se a efetuar missão sem as forças especiais afegãs. Não se pode ganhar essa guerra somente nas costas das forças especiais afegãs”.

As autoridades locais parecem chocadas com a pouca combatividade demonstrada por boa parte dos seus oficiais e soldados.

Alegam que o atraso crônico dos pagamentos ao pessoal de segurança pesa negativamente no ânimo deles nos campos de batalha.

O buraco é mais profundo

Nos 20 anos da guerra do Afeganistão, os EUA gastaram 64 bilhões de dólares para treinar e equipar as forças do governo.

Dinheiro mal empregado, pois a eficiência dessas forças continua escassa, devido principalmente à corrupção dos vários governos que se sucederam e de muitos soldados e até oficiais militares.

Em 2016, o país pegou a rabeira do campeonato mundial da corrupção, classificando-se em desonroso 169º lugar. Não creio que, de lá para cá, tenha feito por merecer uma nota muito melhor.

Em diversas cidades, soldados venderam munições à gente da região, inclusive a clientes pouco recomendáveis, conhecidos comandantes talibãs.

Além do grande número de deserções, muitos recrutas, após receberem o primeiro salário, roubavam seus rifles de assalto e desapareciam na noite, talvez a caminho do posto mais próximo do Talibã para vender os produtos dos seus furtos ou para aderir ao movimento islamita.

Fatos assim geraram perspectivas sombrias entre os militares norte-americanos.

Para alguns membros da inteligência, o governo de Cabul poderá cair dentro de 6 meses (Político, 02/08/2021).

O general Sopko é mais cauteloso. Afirma que o governo do presidente Ghani tem chance de resistir ao avanço dos talibãs, mas que “vai ser difícil. Eles (o governo) têm de vir com uma estratégia coordenada que use todos os seus recursos, e têm de fazer isso rapidamente”.

Esses recursos incluem os ataques da poderosa aviação estadunidese, usados com eficiência em Herat, expulsando os rebeldes de algumas posições conquistadas em áreas locais.

Apesar das deficiências de suas forças militares, o presidente afegão, se diz otimista. Anunciou que está para executar um plano de guerra, que vai mudar tudo nos próximos seis meses. Concentrando suas tropas na defesa das cidades, o governo pensa que bloqueará o avanço talibã. Seria criado, então, um impasse, o que forçaria os milicianos a voltarem à mesa de negociações políticas.

Muitos analistas acham que o objetivo da ofensiva dos talibãs é ganhar uma posição dominante nessas discussões para forçar o governo Ghani a aceitar concessões mais vantajosas aos insurgentes.

Seja como for, mesmo depois da completa retirada das suas tropas, o governo Biden prometeu que continuará oferecendo apoio aéreo a Cabul, caso o Talibã não interrompa os avanços militares. E o general McKenzie afirmou que os bombardeios têm aumentado e aumentarão mais nas próximas semanas, a menos que os insurgentes parem de atacar.

Na verdade, os milicianos islâmicos afegãos talvez estejam de olho em algo mais do que a conquista de uma posição de superioridade nas negociações do projetado acordo político entre as partes em conflito.

Há indícios de que seu alvo seria a conquista do governo.

Há poucos dias, Zabihullah Mujahid, porta-voz do movimento rebelde, tuitou que “...acusações e mentiras não podem prolongar a vida do governo de Ghani, seu tempo acabou, se Deus quiser”.

China na área

E, na semana passada, a China recebeu uma delegação do Talibã, como se representasse o governo do Afeganistão.

O grupo tratou de questões de Estado com Wang Yi, ministro do Exterior chinês, que declarou esperar do Talibã o desempenho de um papel na “paz, reconciliação e no processo de reconstrução do Afeganistão”.

A grande mídia interpretou esses contatos como a China avalizando a legitimidade do Talibã na área internacional.

Agora que os EUA estão se retirando, os chineses têm interesse em substituí-los.

Em primeiro lugar porque o país faz fronteira com a região de Xingiang, habitada pelos uigures, uma minoria que preocupa Pequim, a ponto do regime encerrar cerca de 1 milhão de pessoas desse povo em campos de reeducação.

Os militantes uigures são islamitas fundamentalistas exatamente como os talibãs. Os dois grupos já mantiveram contatos cordiais no passado.

Respondendo a Wang, os representantes do Talibã garantiram que não irão apoiar ou sequer permitir qualquer ação terrorista contra países estrangeiros.

Se eles forem mesmo ajuizados, o governo do presidente Xi lhes dará paternais empréstimos e investimentos para participar da modelagem do novo Afeganistão.

Claro, os chineses não costumam dar pontos sem nós.

Certamente pretendem associar-se à exploração das ricas reservas minerais da região além de incorporar o país à Iniciativa da Roda e da Estrada.

Oferecendo o apoio econômico e político de que o Afeganistão vai precisar, a China poderá influenciar os talibãs a fazer as pazes com o regime atual. Não quer dizer que os deixariam na mão caso persistam na ideia de derrubar o regime atual.

É possível, ou mesmo provável, que os milicianos fundamentalistas se recusem a fumar o cachimbo da paz com os representantes do governo Ghani.

A lógica manda que eles deveriam, se você comparar as forças militares dos dois grupos rivais.

O exército de Cabul conta com 307 mil soldados, dos quais 180 mil podem entrar em ação sem demora, conforme dados do relatório de abril do Inspetor Geral de Reconstrução (SIGAR) e do think-tank militar CNA. Por sua vez, os talibãs somam apenas entre 55 mil e 85 mil (estimativa dos monitores do Conselho de Segurança da ONU).

A manutenção das forças legais exige um gasto anual de 5 a 6 bilhões de dólares. Washington prometeu continuar arcando com 75% dessa despesa.

Os talibãs gastam muito menos: de 300 milhões de dólares a 1,5 bilhão, que são arrecadados da indústria de tóxicos, extorsões de empresas e taxas cobradas das regiões que controlam.

Em armamentos, então, a superioridade dos liderados do presidente Ghani é avassaladora. Receberam dos EUA equipamentos e armas da mais atualizada tecnologia: uma grande variedade de rifles de assalto, óculos com visão noturna, tanques de guerra, veículos armados, lança-mísseis, artilharia e drones de vigilância entre outros artefatos mortíferos.

Comparando armamentos, o Talibã está, talvez não na Idade da Pedra, mas próximo. Os guerreiros fundamentalistas lutam com armas leves, rifles de assalto AK-47, rifles para atiradores furtivos, lança granadas e algumas armas antiaéreas e antitanques.

Por fim, o governo legal tem uma frota aérea com 167 aviões, incluindo helicópteros de ataque (SIGAR). Enquanto o Talibã não tem nada que voe (fonte dos dados militares: Al Jazeera, 04/08/2021).

A única real vantagem do Talibã está na coesão e espírito de luta dos guerreiros, estimulados por seu forte apelo religioso e promessas de futuros ganhos materiais, em caso de vitória, ou de passagem direta para o paraíso, se morrerem lutando.

Já no exército do governo, o desânimo se espalha. Embora haja muitos soldados e oficiais valorosos, muitos outros desertaram, praticaram ações corruptas, entregaram-se sem luta e agora perderam a segurança que lhes dava o apoio das poderosas forças estrangeiras em retirada do país. Comandantes, em geral incompetentes e pouco combativos, completam esse quadro nada auspicioso.

Ainda assim, na eventualidade de uma guerra civil, a grande desproporção de forças deve pesar a favor dos aliados do Ocidente.

Possivelmente, os talibãs cederão à força da realidade e toparão baixar as armas, aceitando uma anistia geral e irrestrita, a participação num novo governo e a marcação de eleições.

Eu não apostaria nisso.

Há um retrospecto a considerar.

Na batalha decisiva de Gaugamela, o conquistador Alexandre Magno enfrentou o império persa, postando menos de 40 mil homens contra mais de 400 mil adversários. Por sinal, mais bem armados, tinham até carros de combate com lâminas cortantes.

Mas, graças ao comando superior e à obediência tática e alta motivação de suas tropas, ele venceu.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça
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