Dois ultras no poder: mau presságio para o Oriente Médio


Se você pensa que a queda de Netanyahu pode desanuviar o turbulento ambiente do Oriente Médio, enganou-se. Não que seu sucessor, Naftali Bennett, seja pior do que ele.

O problema é que Raisi, recém-eleito presidente do Irã, é tão ultrarradical quanto o novo primeiro-ministro de Israel e, como você sabe, dois bicudos não se beijam.

Até antes das mudanças, Netanyahu e seu amigo e protetor, Donald Trump, fartaram-se de ameaçar ataques ao Irã e de advertir pelo suposto perigo representado pelo país dos tapetes. The Donald chegou a mandar assassinar o general Suleimani, a segunda pessoa mais importante do governo islâmico.

A vitória da linha-dura iraniana

Mas o moderado presidente Rouhani, sem abaixar a cabeça, soube ir levando as coisas, negando pretextos para seus inimigos partirem para uma guerra, que poderia incendiar todo o Oriente Médio.

Ele salvou a paz, mas seu partido perdeu o governo. Ajudado pelos presidentes Donald Trump e Joe Biden.

As malignas sanções disparadas por Trump contra o Irã devastaram a economia do país, atingindo duramente a qualidade de vida do seu povo.

Sem recursos para enfrentar a situação e realizar suas ideias de expansão do desenvolvimento e das liberdades individuais, Rouhani perdeu o prestígio popular.

A desesperança espalhou-se por todo o país, reduzindo as chances dos candidatos a presidente moderados e reformistas, que seguiam o governo.

Para total garantia de vitória, o Conselho dos Guardiães vetou a candidatura de todos os postulantes com chance de derrotar Raisi (a lei lhe dá este poder), o candidato dos ultraconservadores, da entourage do Supremo Líder Khamenei.

Rouhani e os seus contavam com a possível volta dos EUA ao Acordo Nuclear com o Irã e o cancelamento das sanções que abalavam o país, o que, liberando a economia, poderia reanimar o povo e reestabelecer a confiança no grupo moderado/reformista. E votar a seu favor.

Aí, Joe Biden entrou em ação.

Apesar de ter prometido o pronto retorno norte-americano ao Acordo Nuclear com o Irã, até agora, seis meses depois, ainda está vacilando. Prefere levantar dúvidas, insistindo em negociações até agora infrutíferas.

E assim, chegou-se ao dia da eleição, com os EUA fora do Acordo Nuclear e Biden mantendo a “máxima pressão” de Trump, continuando a devastar a economia iraniana com as malignas sanções responsáveis pelos sofrimentos dos iranianos e por sua falta de ânimo em votar num candidato que defendesse reformas políticas e direitos humanos.

Favorecido pelas sanções de Trump e pela ambiguidade de Biden, o ultra Raisi venceu num pleito onde a desinteresse dos eleitores ficou claro na abstenção de 49%.

Raisi, o novo presidente, foi chefe do Judiciário, por indicação de Khamenei, seu líder. Ele tem uma folha corrida manchada por graves violações dos direitos humanos.

Em 1988, foi um dos quatro procuradores, o chamado “comitê da morte”, responsável pela execução de milhares de dissidentes.

Durante os protestos do Movimento Verde, 2009/2010, ele opinou que os manifestantes deveriam ser executados.

Nas grandes passeatas de protesto em 2019, Raisi assegurou a impunidade dos agentes de segurança responsáveis por assassinatos, torturas e desaparecimentos dos participantes, segundo Agnes Calamard, a relatora da ONU, em prisões e execuções arbitrárias.

Expoente da linha dura, o novo presidente não aceita fazer novas concessões ao Ocidente, assegurou que o Irã continuará a expandir seu programa de mísseis balísticos e sua política de intervir em países da região. E não aceita sequer discutir essas questões.

Como seu líder, Khamenei, Raisi considera os EUA indignos de confiança. Logo na posse já afirmou que não tem nenhum interesse em reunir-se com Biden. O que foi um tanto intempestivo, e igualmente revelador.

Enquanto o moderado Rouhani sempre insistiu apenas no fim do regime sionista de Israel, mas jamais “querer tirar o país do mapa”, temo que se pode esperar uma posição mais dura do seu sucessor ultra.

A continuidade da linha dura israelense

Se o Irã recuou para um radicalismo avesso a acordos, ponderou-se que, para contrabalancear, Israel e o mundo teriam ficado livres de outro ultra: Bibi Netanyahu. Sem ele, apesar da agressividade do novo presidente do Irã, haveria uma redução nos conflitos no Oriente Médio.

Na verdade, isso não parece provável. Bennett é tão radical e agressivo quanto Raisi.

Ele, que será primeiro-ministro de Israel nos próximos dois anos (nos dois seguintes, assume o centrista Lapid) marcou sua carreira por uma linha violentamente antiárabe e anti-Irã, intransigente no trato da crise palestina e dos problemas internacionais, de um modo geral.

Político de extrema-direita, Bennett foi adepto de Netanyahu, tendo sido seu ministro até pouco tempo. Considerado mais linha dura do que o ex-chefe, ele já chamou Bibi de brando demais em relação aos insurgentes palestinos.

O Irã deve também seguir na mira dos ataques de Israel.

Logo ao assumir sua posse, Bennett lançou uma declaração, afirmando que agiria para alterar o Acordo Nuclear com o Irã, pois “é um erro que, mais uma vez, dá legitimidade ao mais agressivo e mais sombrio regime do mundo (New York Times,29/06/2021)”.

Contrário à independência da Palestina, Bennett é partidário da anexação de 62% da Cisjordânia e dos territórios de todos os assentamentos na Cisjordânia ocupada.

No entanto, na sua gestão, ele terá de conter seus ímpetos agressivos, uma vez que:

a. foi eleito por uma coalizão diversificada, integrada por partidos do mais amplo espectro, desde direitistas, até de esquerda, além de um partido árabe;
b. se um único partido se retirar da coalizão, o governo Bennett pode cair.

Para evitar esse incômodo resultado, Bennett teria de evitar posições excessivamente radicais, em qualquer sentido.

Sinais enganosos

Depois de unir uma variedade de partidos tão opostos entre si para derrotar Netanyahu, a coalizão pretende continuar unida para impedir a volta do inimigo comum.

De olho nesse objetivo, os líderes fizeram um pacto, comprometendo-se a ficar com o governo, aprovando suas posições desde que não ferissem os princípios fundamentais de cada um dos parceiros.

Os primeiros desafios ao pragmatismo dos novos detentores do poder apareceram logo.

Na semana passada, o governo determinou a evacuação de um assentamento (ilegal pelas leis internacionais e do próprio Estado de Israel), em Eviatar, que ocupava terras de agricultores palestinos na região próxima à cidade de Beita, na Cisjordânia sob administração da Autoridade Palestina.

Não deixou de ser surpreendente, pois Bennett, no seu discurso de posse, havia prometido “fortalecer a construção de comunidades por toda a terra de Israel”, o que incluiria assentamentos na Cisjordânia ocupada” (Middle East Eye,28-06-2021).

A evacuação do assentamento ilegal foi recebida com alegria pelos árabes e esquerdistas da coalizão, adversários jurados de assentamentos.

Mas teve sua importância diminuída pela recente aprovação por Bennett de 31 novos projetos em assentamentos espalhados pela Cisjordânia. Além disso, em Hebron, os israelenses tomaram as áreas junto à mesquita de Ibrahim, completando o controle de um local protegido pela UNESCO.

O partido Ra’ham, dos árabes e o Meretz, da esquerda, preferiram fechar os olhos diante de decisões que contrariam suas posições tradicionais. Afinal, são apenas projetos sem dimensão suficiente para justificar ações divisionistas, que poderiam ameaçar a sobrevivência da coalizão de governo.

Mas o pior estava para acontecer. Desde abril deste ano, os grupos de colonos instalados em Eviatar, em terras roubadas de palestinos, vinham construindo edificações sob a proteção do exército de Israel.

Sem passar os limites deste assentamento ilegal, os palestinos promoviam constantemente protestos noturnos, com sirenes, lasers, pequenos incêndios, gritos e ameaças. Várias vezes houve choques com os soldados, que atingidos por pedras, reagiram com tiros de munição real. Nesta luta desigual, de estilingues contra fuzis, foram mortos 4 palestinos.

Os conflitos chegaram à imprensa internacional, suscitando manifestações de personalidades públicas, organizações de direitos humanos e até do Departamento de Estado dos EUA, que condenou o assentamento ilegal (Times of Israel, 25/05/2021).

O governo Bennett acabou agindo, determinando a evacuação de Eviatar.

Foi bom, não? Bom, mas não muito. A história não acabou assim.

O exército de Israel firmou um acordo com os colonos judeus. Eles deixariam o assentamento, sim, porém as diversas construções já prontas seriam protegidas pelos militares de uma base a ser estabelecida no local.

Em seguida, o governo examinaria o status de propriedade das terras de Eviatar. Depois de concluído esse trabalho, os colonos receberiam autorização para construir uma yeshiva (escola religiosa judaica) no local da disputa e os colonos poderiam voltar se e quando fosse determinado que a terra era de propriedade estatal.

Nessa ocasião, Eviatar se tornaria um assentamento legal e os antigos donos palestinos ficariam falando sozinhos, privados do que fora seu.

Parece um jogo com cartas marcadas. Poucos duvidam de que o governo decida em favor dos colonos.

Será então possível acalmar a consciência dos políticos esquerdistas e árabes da coalizão?

Parecem caroços duro de engolir, embora o Meretz esteja muito feliz, acomodado no ministério que ganhou, e o Ra’Am com os 6,1 bilhões já empenhados em projetos para melhoramentos nas abandonadas comunidades árabes.

Há ainda mais outra pedra no meio do caminho do governo Bennett.

Deveria ser votada a renovação de uma lei de 2003, que proíbe palestinos de ganharem cidadania ou direito de residência em Israel por terem cônjuges israelenses.

Sendo uma lei declaradamente temporária, precisa ser submetida à aprovação anual. Os árabes de Israel, os grupos de esquerda e os movimentos de direitos humanos sempre têm se manifestado pela sua revogação. Nunca tiveram chance, pois o parlamento e o governo, durante todos estes anos, vêm sendo dominados pela direita israelense.

Agora, como integrantes de um governo que conta também com esquerdistas e árabes esses partidos esperam ver sua reivindicação atendida.

Não está nada fácil. É verdade que somando os 4 deputados do Ra’am, aos 6 do Meretz e, em tese, os 7 centristas do Labor e aos 17 do Yesh Atib (de Lapid), eles teriam maioria entre os 61 deputados da coalizão.

Apartheid e limpeza étnica seguem fortes

Sucede que o próprio primeiro-ministro, o ultradireitista Naftali Bennett, é favorável à aprovação da lei, contando de cara com o apoio do Yamina, seu partido, além dos 3 partidos de direita do bloco governante. Além disso, duvida-se que o Labor e os partidos árabes deixem na mão o novo primeiro-ministro, e admitam abandoná-lo para colaborar numa crise que poderia levantar do chão o derrubado, mas não abatido, Bibi.

Adiantando-se à decisão do governo Bennett, Ayelet Shaken, ministra direitista do Interior, ameaçou os deputados do Ra’am e do Meretz: caso não votassem a favor da renovação da lei, seria apresentado um projeto de reforma do sistema de imigração, que facilitaria grande número de deportações e dificultaria a entrada de imigrantes e palestinos (Times of Israel, 30/06/2021).

Pragmático, Bennett preferiu calar a boca de sua companheira de ideais e adiar a votação da lei para tentar convencer os insatisfeitos parceiros de que a lei seria um mal menor do que o atordoante ruído que Netanyahu provocaria, aproveitando a eventual oposição dos dois partidos e a crise decorrente.

Acredito que a lei de renovação, caso aprovada, será usada para expulsar palestinos de Israel, ferindo gravemente os programas do Ra’Am e do Meretz.

Para forçar o partido árabe a aprovar uma lei que prejudica seus eleitores palestinos, Bennett está investindo 1,6 bilhão de dólares nas reformas das infraestruturas precárias das cidades de maioria árabe e de combater vigorosamente a criminalidade, que é alta por lá.

Por sua vez, o Meretz reluta em votar contra um governo que lhe deu um ministério e com o qual conta para realizar um trabalho que leve o povo judeu a vê-lo com maior boa vontade.

É de se crer que Bennett sairá desta crise, embora com muitos hematomas. Outras batalhas o aguardam, talvez com maior potencial traumático.

Será quando o governo terá de decidir ou não por ações violentas antipalestinas condenadas pelas leis internacionais, mas aprovadas pela opinião pública israelense. Como uma nova guerra de Gaza, por exemplo, que alguns analistas apontam como inevitável até o próximo verão do hemisfério norte.

Talvez o Natalli Bennett que, em 2003, afirmou que “já matei muitos árabes e isso não me dá qualquer preocupação”, seja o mesmo que, em 2021, afirmou, referindo-se ao exército de Israel: “Se e quando formos solicitados a usar da força, nós o faremos e seremos mais letais do que nunca”.

Tirem suas conclusões.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça