O que se espera de Biden no Oriente Médio (2)

A Biden presidency would not be good news for Palestine | Conflict News |  Al Jazeera
“Eu sou um sionista”... “Eu sou um inflexível apoiador de Israel”... “Eu sou amigo de Netanyahu”. Se julgarem Biden por estas suas frases, os palestinos podem perder suas esperanças nele.

Biden é tudo isso mesmo, no entanto, ele é também o presidente dos EUA, eleito com a promessa de pautar a política externa norte-americana pela justiça, respeito às leis internacionais e aos direitos humanos dos povos.

Visto isso, ele pode amar Israel à vontade, mas não pode negar aos palestinos seu supremo desejo: o direito à independência do seu país, algo que somente Israel e mais um ou outro país contestam.

Parece que Biden está consciente desse dever, pois afirmou diversas vezes ser favorável à solução dos dois Estados independentes, Israel e Palestina.

Por isso mesmo, ele condenou o plano de Bibi (apelido do primeiro-ministro de Israel) de anexar 1/3 da Palestina e a expansão dos assentamentos, que sabotariam a criação de um Estado palestino viável e dono do seu nariz.

E mostrou-se disposto a agir ao declarar que os EUA precisam “pressionar Israel constantemente” a “mudar para a solução dos 2 Estados”.

Não dando tempo para os palestinos pularem de alegria, surgiu “o sionista, inflexível apoiador de Israel e amigo de Bibi”, autolimitando à pressão que seu governo exerceria sobre Israel.

Afirmou que jamais usaria os 3,8 bilhões de dólares em armas fornecidos a Israel anualmente como poder de barganha visando forçar o regime sionista a aceitar a solução do dois Estados (Jewsih Insider, 20-12-2019).

Desse jeito, Biden renunciou a um recurso poderoso para forçar Netanyahu a ser razoável. Na verdade, não há motivo sério para justificar essa benesse bilionária oferecida pelos EUA. As forças armadas de Israel são fortes o suficiente para vencer qualquer dos países islamitas, eventualmente inimigos, dos quais apenas o Irã teria coragem para enfrentá-lo... E sofrer uma derrota certa, ainda mais devido ao paternal e certo apoio estadunidense ao regime sionista.

Acrescente-se ainda que criar um Estado palestino não basta. Ele precisa ser independente e viável. Os palestinos exigem que delimitação entre os dois Estados seja baseada nas fronteiras anteriores a 1967.

Já o primeiro-ministro Netanyahu quer anexar 1/3 da Palestina, englobando praticamente todos os assentamentos e deixando para os palestinos uma série de territórios não contíguos entre si, legítimos bantustões, ligados por rodovias controladas pelo exército de Israel e tendo limites apenas com Israel.

A dúvida é para que lado Biden vai pender? Ou, sua posição será imparcial? Há indícios de que a tendência natural do presidente eleito seria favorecer Israel. Nas suas opiniões sobre a crise, Biden frequentemente censura o ódio dos árabes a Israel e apoio ao terrorismo (sem mencionar que a maioria é contrária), mas não tem uma única palavra de crítica às arbitrariedades do governo Bibi, como seu programa de demolição de casas árabes e de aldeias beduínas, os cada vez mais frequentes ataques de colonos judeus contra famílias e plantações de palestinos, o confisco ilegal de terras de propriedade palestina para construção de assentamentos e o excessivo número de manifestantes palestinos mortos por obra do exército israelense.

Coisas assim não sensibilizam Biden. Ele prefere se mostrar chocado com o suposto viés anti-Israel na ONU. Uma acusação totalmente sem base. Relatório do Human Rights Watch, a mais respeitada ONG de direitos humanos do mundo, informou, em 2017, que Israel é culpado em “pelo menos cinco categorias das principais violações dos direitos humanos internacionais... Execuções ilegais, deslocamentos forçadas de palestinos, detenções abusivas, o bloqueio de Gaza, o desenvolvimento dos assentamentos, as políticas que discriminam os palestinos e outras restrições desse calibre (The Guardian, 12/06/2017).

Outra bola fora do novo presidente foi aceitar como natural a anexação do território sírio do Golã, não reconhecida por nenhum outro país por violar flagrantemente o direito Internacional. Tomar à força uma parte de outro país foi o que Hitler fez ao despojar a antiga Tchecoslováquia dos Sudetos. Não é propriamente um exemplo a ser seguido.

Não me parece justa a condenação do BDS, movimento que prega o boicote de relações comerciais, militares, científicas, artísticas, intelectuais e esportivas com Israel até que cesse a expansão dos assentamentos e a ocupação militar da Cisjordânia.

Trata-se da única forma de luta pacífica dos palestinos contra o domínio ilegal de Israel. O que Biden acha? Que eles devem deixar a solução dos seus problemas para a comunidade internacional, que até agora pouco fez para colocar Netanyahu na linha?

Há ainda outros aparentes sinais de que o coração de Biden bate mais forte (e ilegalmente) por Israel. Segundo seus assessores, ele manterá a embaixada norte-americana em Jerusalém e o reconhecimento de Jerusalém indivisa como capital do Estado de Israel, atos adotados por Trump, rejeitando posições dos presidentes anteriores dos EUA, favoráveis à divisão da cidade entre judeus e árabes (Daily Sabah, 09/10/2020).

Biden imitou a Pôncio Pilatos ao não se pronunciar no caso dos refugiados palestinos expulsos durante as guerras de 1948 e 1967. Disse que deixava para as duas partes resolverem a questão. Como Israel não aceita a volta dos refugiados e it takes two to tango, tudo ficará como está.

Antes de duvidar da imparcialidade de Biden, note-se que há também pontos favoráveis aos palestinos nas posições que ele já anunciou.

Ele jurou que imediatamente vai restaurar a assistência econômica e humanitária ao povo palestino, de Gaza e dos campos de refugiados, cancelada por Trump. E que ajudará a resolver a crise humanitária sem fim de Gaza.

Numa demonstração de que deseja trabalhar também com os chefes palestinos, Biden prometeu reabrir o consulado norte-americano em Jerusalém Oriental (habitada por árabes) e reestabelecer a missão da OLP (Organização de Libertação da Palestina) em Washington.

Como parece inevitável, Biden será o mediador nas negociações entre israelenses e palestinos.

Somando suas decisões humanitárias à sua oposição à anexação de 1/3 da Palestina e à defesa da solução dos dois Estados, dá para os palestinos terem esperanças de que não serão roubados pelo juiz.

Síria

Depois da derrota do Estado Islâmico, a crise na Síria deixou de aparecer entre a breaking news dos jornais e da TV.

Na campanha eleitoral, Biden tratou rapidamente do assunto, preocupando-se menos em atacar o governo Assad do que em criticar Trump por sua ação errática.

Atualmente, a presença militar estadunidense limita-se a 5 ou 6 mil soldados, guarnecendo bases em geral no território dos seus aliados curdos.

Não é de se crer que as coisas vão esquentar muito por lá. As forças sírias e russas dificilmente tentarão desalojar esses incômodos ocupantes de áreas que de direito são da Síria.

Por sua vez, Biden não é amigo de conflitos militares. Em 2012, num debate, ele contestou a posição pró-guerra da Síria, do candidato republicano Mitt Romney: “A última coisa que a América precisa é entrar em outra guerra no Oriente Médio (CATO News, 11-12-2020)”.

Ao tomar posse, assuntos mais urgentes aguardam solução. Ele vai ter que lidar com a mortífera expansão da pandemia nos EUA e nas condições de vida da população mais empobrecida, além da delicadíssima questão do Irã.

A Síria pode esperar. O povo sírio é que não pode, ele já sofreu demais nesses 9 anos de uma guerra devastadora.

Não será o Caesar Act, as sanções desferidas por Trump em junho passado, que os EUA levarão Assad a erguer a bandeira branca. Nem ele, nem os principais chefes sírios sofrem os efeitos dessas sanções. Mas, como disse Alena Douhan, especialista da ONU em Oriente Médio: “Na verdade, a aplicação do Ato (Caesar) pode piorar a crise humanitária existente, despojando o povo sírio da chance de reconstruir sua infraestrutura básica”.

A guerra da Síria foi praticamente ganha por Assad, graças em especial à aviação russa. No entanto, os rebeldes ainda dominam a província de Idlib e algumas áreas esparsas, a leste do rio Eufrates, e os curdos lutam para manter seu pequeno território, ao norte.

Graças ao empenho da Rússia e do Irã (que apoiam o governo) e da Turquia (que apoia os rebeldes) foi acertado um cessar fogo, enquanto as partes em conflito e seus apoiadores processam negociações de paz.

Trump não quis participar, mas Biden, caso saia bem no affair Iran, poderá juntar-se de cabeça erguida às nações que buscam acabar de vez com a guerra síria.

Egito

O general Sissi, presidente do Egito, tornou-se destaque internacional pelas torturas e sucessivas prisões de seus opositores e pela negação das liberdades civis no país.

Seu governo vai mal, tendo a dívida pública quase triplicado desde 2014 – foi de 112 bilhões de dólares a 321 bilhões. A pobreza também cresce, atinge 40% do povo.

São algumas das razões que obrigam o Egito a pedir ajuda internacional. Trump o atendeu prontamente. Afinal, Sissi é seu “ditador favorito”, aliado incondicional dos EUA, merecendo o 1,3 bilhão de dólares anuais com que seu governo é brindado anualmente.

Biden não deve ter tanta boa vontade. Prometeu não mais dar um cheque em branco a Sissi. As mercês dos tempos de Trump não continuarão a ser concedidas graciosamente ao Egito, terá de haver contrapartidas: nada de violações graves de direitos humanos; libertação dos prisioneiros políticos; fim das execuções, assassinatos extrajudiciais e desaparecimento misteriosos de pessoas mal vistas pelo governo.

Sissi deverá concordar com todas estas penosas exigências, ansioso em pôr a mão nas verdinhas. Os problemas são dois: será que o general conterá suas tendências ditatoriais, impedido de tratar seus incômodos oponentes como gostaria? Se ele esquecer o prometido, Biden irá mesmo suspender o 1,3 bilhão?
Cabem dúvidas, afinal, o Egito é o mais populoso país árabe...

Circunstancialmente, pode ser inconveniente para os EUA criar um caso ali. Seria surpreendente se Biden brigasse com o ditador. A surpresa seria maior se o novo presidente adotasse a mesma postura beligerante diante da ditadura da rica Arábia Saudita.

No governo Trump, o rei Salman e o príncipe Mohamed bin Salman, governante de fato do país, foram alvo dos mais abundantes tagatés do presidente republicano. Ele tinha suas razões.

Irã-Arábia

O país é o maior inimigo do inimigo Irã, depois de Israel. É o maior importador da indústria de armamentos dos EUA, por sua vez, a maior exportadora do mundo. O mercado norte-americano dependeria da importação do petróleo saudita. Para garantir as armas e munições necessárias aos sauditas na guerra do Iêmen, Trump vetou diversas tentativas do Congresso de cancelar esse negócio.

No bárbaro assassinato do opositor Jamal Kashoggi, comprovado pela própria CIA e condenado pela comunidade internacional, Trump negou-se a admitir as culpas principescas, salientando, ao mesmo tempo, os milhões de empregos que as boas relações comerciais com os sauditas garantiriam.

A proteção ao assassino saudita teve a pior repercussão nos EUA. Contribuiu para agravar a ira popular contra esses bárbaros príncipes orientais, a quem o presidente Trump agradava tanto. O rei Salman e seu príncipe coroado foram colocados na galeria dos vilões, ombreando com Darth Veder, Galactus e Darkseid.

Embalado pela raiva nacional, Biden comprometeu-se a retirar o tapete vermelho que Trump estendeu diante da realeza do deserto. Posição que lhe granjeou o aplauso do povo.

Biden atacou a “perigosa carta branca” de Trump para o reino pintar e bordar à vontade. E prometeu “ordenar a reavaliação do relacionamento com a Arábia Saudita”.

Houve ainda informações de que Biden cortará a venda de munições e armamentos para os sauditas atacarem o Iêmen. Sem eles, ficarão enfraquecidos e tenderão a aceitar o fim guerra, em termos aceitáveis pelos houthis.

Atualmente, os EUA têm menos problemas para enfrentar a monarquia. Na crise com o Irã, os sauditas precisam mais dos norte-americanos do que o contrário. Os EUA não dependem mais da importação do petróleo saudita. Sua produção aumentou nos últimos anos, tornou-se o maior produtor petrolífero mundial.
E, no caso de interrupção do fornecimento do Oriente Médio, contaria com o petróleo do México e do Canadá para atender às necessidades nacionais.

Com os armamentos, é diferente. As poderosas indústrias do setor não vão renunciar facilmente aos gargantuescos lucros obtidos com as vendas para a Arábia Saudita.

A pressão sobre Biden seria muito forte, reforçada pelo Pentágono, cujos generais gostam muito de armas. E tudo pode acabar em pizza.

Parte 1

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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