Israel atira a primeira pedra

How Will Iran React to the Fakhrizadeh Assassination?
Domingo, 22 de novembro, em Neom, Arábia Saudita, encontraram-se Benjamin Netanyahu, premiê de Israel, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA e o príncipe bin Salman (MBS), governante virtual do reino petrolífero.

Acelerar a ofensiva anti-Irã foi o objetivo da reunião desses três personagens.
A necessidade de destruir o regime iraniano, ou pelo menos de emasculá-lo, obrigando-o a abandonar suas ações no exterior e seus altamente eficazes mísseis de curto, médio e longo alcance é uma obsessão dos aliados EUA, Israel e da Arábia Saudita.

Trump quer impedir que os iranianos possam disputar com os EUA a hegemonia no Oriente Médio. Agora que ele está para ser despejado da Casa Branca, conta mais sua vaidade, o sonho de deixar como legado a transformação do insubmisso Irã num tigre desdentado e sem garras, pela destruição do Acordo Nuclear, o grande feito do odiado e invejado Barack Obama.

Para Israel é mandatório eliminar qualquer ameaça, provável ou não, à sua sobrevivência como Estado sionista. Sendo necessário, quaisquer medidas valem, inclusive assassinato de inimigos através do Mossad, mesmo com a morte de inocentes, por acaso nas proximidades do alvo.

Não se nega a existência de um background histórico que impulsione as talvez exageradas preocupações israelenses e explique – mas não justifique – os meios ilegais por vezes adotados em defesa dos seus interesses nacionais. As pessoas afetadas e a ordem jurídica mundial eventualmente comprometida não têm culpa do imenso sofrimento imposto aos judeus através dos séculos.

Quanto à Arábia Saudita, ela vê o Irã como seu maior concorrente pela hegemonia nos países islâmicos, motor de uma revolução latente entre os grupos xiitas, espalhados por toda parte, mesmo no território saudita, onde projetariam derrubar a monarquia e instalar uma república islâmica.

A reunião de Neom era para ser secreta, mas, no meio dos assessores dos chefes de governo havia informantes, que deram o serviço ao Middle East Eye.

O trio discutira a sabotagem da política externa delineada pelo presidente eleito Joe Biden.

Consistiria numa escalada de ataques ao Irã, cujos inevitáveis contra-ataques deixariam o país sujo junto aos norte-americanos, impedindo que Biden, cumprisse sua promessa de voltar ao Acordo Nuclear do Irã e cancelar as sanções impostas pelos EUA. Segundo reportagem anterior do The Daily Beast, Trump já havia dado a seus falcões mais agressivos sinal verde para espremer o Irã o quanto possível nas semanas finais do governo do republicano.

Teriam de agir rápido, afinal, a janela de oportunidades para atingir o Irã ficaria aberta só até 20 de janeiro, quando se dará a posse de Joe Biden. O radical Netanyahu propôs pegar fundo: bombardear uma instalação nuclear iraniana.

Disseram os informantes do Middle East Eye que Pompeo e o príncipe (MBS para seus vassalos) não toparam. O estadunidense temia que uma jogada tão violenta pudesse deflagrar uma guerra, amplamente rejeitada pelo povo dos EUA.

MBS temia que, nesse caso, a primeira vítima dos iranianos seria a Arábia Saudita, fácil de ser vulnerada pelos eficientes mísseis de Teerã. Não se sabe até onde os três chegaram.

O que se sabe é que, quatro dias depois da volta do premiê israelense a seu país, Mohsen Fakhrizadeh, o reverenciado arquiteto do programa nuclear iraniano, foi assassinado numa estrada nos arredores de Teerã. Imediatamente, o presidente do Irã acusou Israel pelo atentado.

Não faltavam antecedentes: entre 2007 e 2012, o Mossad, a polícia secreta de Jerusalém, assassinou cinco cientistas nucleares iranianos. Nenhum especialista independente teve qualquer dúvida a respeito.

A NBC News foi mais precisa. Citando fontes qualificadas, ela informou em fevereiro de 2012, que os executores foram milicianos do MEK “financiados, treinados e armados” pelo Mossad. Talvez por coincidência, em setembro do mesmo ano, a então secretária de Estado Hillary Clinton retirou o MEK da lista de organizações terroristas, que ele integrava desde os tempos áureos de Saddam Hussein, quando teve participação ativa em massacres promovidos pelo hoje extinto ditador.

Voltando ao do assassinato de 2020, deu no New York Times que o Mossad fora mesmo o autor do crime, conforme informou anonimamente “um funcionário sênior envolvido durante anos no rastreamento para Israel do senhor Fakhrizadeh”.

Há meses atrás, Netanyahu já havia indicado o cientista iraniano como o inimigo número 1 de Israel, numa reunião com seus partidários.

O governo do presidente Rouhani colocou os EUA como coautor do atentado. Não parece ser verdade, no entanto é duvidoso que tivesse sido planejado sem a aprovação de Trump.

Também não se acredita que o objetivo do atentado fosse atingir duramente o programa nuclear iraniano (pacífico), pois se sabe que existem diversos outros cientistas nucleares do país experientes e competentes, capazes de continuar tocando o barco.

Como se sabe, foi Netanyahu, o mais agressivo do trio de aliados, quem lançou a primeira pedra da operação para inviabilizar a promessa de Biden em favor do Irã, ao ordenar o assassinato do cientista iraniano.

Fato garantido por fontes insuspeitas, como Thomas Friedman, famoso jornalista pró-Israel: “Com o assassinato por Israel do principal projetista da ogiva nuclear do Irã, o Oriente Médio está prometendo complicações para Joe Biden desde o primeiro dia (New York Times, 01;12/;2020)”.

David Sanger, no Mondoweiss (30/11/22020), foi mais explícito: “o assassinato por Israel ameaça paralisar o esforço do presidente eleito Joe Biden para reviver o Acordo Nuclear do Irã antes mesmo dele possa começar sua diplomacia com Teerã”.

Em suma, o atentado é uma inegável jogada de Netanyahu e Trump que visa provocar uma retaliação iraniana para resultar numa ação militar norte-americana (New York Times, 28/11/20220).

Como era de se esperar as reações iranianas foram de extrema indignação, exigindo a mais dura retaliação.

No entanto, houve uma diferença marcante entre as posições do moderado presidente Rouhani e dos políticos conservadores da oposição linha-dura.

Depois de denunciar Israel e os EUA como os responsáveis pelo atentado, Rouhani mostrou que não era ingênuo, propondo uma reação pragmática: “nosso povo é suficientemente lúcido para não cair na armadilha do regime sionista, o Irã certamente responderá ao martírio do nosso cientista no tempo próprio”.

Mas para os agressivos membros da linha dura seria demais manter-se passivo diante da soma do assassinato de Suleimani, seu principal general, ao assassinato de Fakhrizadeh, seu principal cientista nuclear.

Disse Faad Izadiu, analista político conservador: “se você não responde a esse nível de terrorismo, eles podem repeti-lo porque agora sabem que o Irã não reagirá”.

Portanto, os belicosos conservadores exigem retaliação violenta e rápida.
Enquanto ela não vem, aprovaram no parlamento uma lei que dá dois meses para os signatários do Acordo Nuclear reduzirem as sanções sobre os setores de energia do Irã e restaurarem o acesso ao sistema bancário internacional. Caso contrário, seriam suspensas as inspeções da ONU sobre seu programa nuclear e o enriquecimento do urânio seria incrementado até 20%, para “propósitos pacíficos”. Note-se que a produção de uma arma nuclear exige urânio enriquecido a 90%, nível alcançado em cerca de três meses, depois de se chegar aos 20%.

Os líderes conservadores estão fazendo o que Trump, Netanyahu e o príncipe Mohamed bin Salman almejavam. Caso houvesse contra-ataque imediato, o trio teria pretextos para um novo ataque, que geraria novas retaliações iranianas, dando continuidade a um processo crescentemente beligerante, que dificultaria cada vez mais o cumprimento da promessa de Biden. Especialmente porque, como o prazo para o presidente eleito tomar posse vai a uns 30 dias, só restariam 10 dias dos 60 dias do prazo da lei dos conservadores para Biden atender às suas exigências. Claro, nem tudo está perdido.

Para essa lei ser validada, precisa ser aprovada por Rouhani e, depois, pelo Líder Supremo Khamenei. Rouhani vai vetar, na certa. Khamenei vem sendo extremamente agressivo verbalmente, mas, na hora do vamos ver, costuma ser cauteloso.

Isso seria bom. Bom, mas não muito, pois com a rejeição da sua lei, os conservadores não deixariam sem revide o crime praticado pelo Mossad.

Como sempre, nenhum país ou entidade internacional vai tratar esse serviço secreto de Israel como os seus similares do Murder Inc.- o esquadrão da morte do sindicato do crime dos EUA - ou do Escritório do Crime- grupo executor das milícias do Rio de Janeiro.

Os três grupos têm idêntico desprezo à vida humana, para eles liquidar pessoas é uma missão como qualquer outra. Mas há uma diferença essencial entre o primeiro e os demais.

Enquanto os dois últimos dedicam-se a matar por dinheiro, o pessoal do Mossad o faz por dever funcional. Legalmente, pois suas ações são sempre aprovadas previamente pelo primeiro-ministro de Israel, protegé dos EUA. Talvez por isso, apesar das dezenas de ações mortíferas cometidas nos últimos decênios, jamais foi punido, jamais investigado a sério.

A única vez que isso pintou como possível foi quando o governo de Sua Majestade protestou furioso porque o Mossad usou passaportes britânicos para dar cobertura aos feitos brutais dos seus funcionários. Não deu em nada, somente num “desculpe, não faço mais”. E todos foram para a praia.

Embora legalizadas em Israel, as malasartes do Mossad são consideradas crimes pelo Direito Internacional.

Por isso, a União Europeia denunciou o assassinato do cientista iraniano como um “ato criminoso”, que vai contra os direitos humanos.

Agnes Calamard, relatora especial da ONU para crimes extrajudiciais e arbitrários, explicou: “um assassinato com alvo extraterritorial, fora de um conflito armado, é uma violação das leis internacionais de direitos humanos, que proíbem a supressão arbitrária da vida, e uma violação da Carta da ONU, que proíbe o uso de força extraterritorial em tempos de paz (Tehran Times, 28/11/2020)”.

Evidentemente, o correto seria solicitar que o Tribunal Penal Internacional investigasse as circunstâncias da execução do cientista iraniano e promovesse o devido processo, caso colhesse indícios necessários.

O Conselho de Segurança da ONU teria competência para condenar o assassinato e exigir sua investigação. Ele vai se reunir no dia 22, mas seria um avanço inédito se tratar da questão, embora os EUA certamente fossem vetar qualquer decisão que deixe Netanyahu de mau humor.

Ele, Trump e o príncipe bin Salman devem estar torcendo para que os conservadores linha-dura lancem logo sua jurada retaliação.

O maior perigo é que nesse andar, a escalada acabe se tornando vertiginosa e o Oriente Médio caia numa guerra.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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