Brasil 2019: usina de desamparo, fermento da revolta

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O Brasil terminou o ano com 12,5 milhões de desempregados, 7 milhões de subempregados e 4,6 milhões de pessoas desalentadas, segundo o IBGE. Cerca de 104 milhões de brasileiros subsistiram em 2018 com menos de R$ 413 reais per capita por mês e nada indica que 2019 foi melhor (PNAD Contínua). Conforme o Relatório do Desenvolvimento Humano da ONU publicado em 9 de dezembro, o Brasil é o 2º país com a maior concentração de renda do mundo, atrás somente do Catar e seguido pelo Chile. Aqui, os 1% mais ricos detêm 28% da riqueza nacional e os 10% mais ricos concentram 43% da renda.

Em 2019, os brasileiros que vivem em situação de extrema pobreza (até 145 reais mensais) atingiram o recorde de 13,5 milhões de pessoas. Nos últimos cinco anos, 4,5 milhões dos nossos conterrâneos foram tragados para esse grupo. Enquanto isso, os 58 proprietários mais ricos do Brasil, que aparecem na lista de bilionários da Forbes, acumulam uma riqueza de mais de 730 bilhões de reais, fatia que corresponde a 10,6% do PIB brasileiro de 2018 - mais que o dobro do que o país gasta em educação pública (5% do PIB) e quase três vezes o gasto em saúde pública (3,8% do PIB).

Ainda estão por vir os efeitos das medidas antissociais aprovadas em 2019 pelo governo Bolsonaro, que não foram poucas: a reforma da previdência, o fim do reajuste automático do salário mínimo, a carteira de trabalho verde-amarela, a oneração do seguro desemprego, para citar somente algumas. Como efeito da reforma trabalhista de Temer, hoje a cada 10 empregos criados, 6 são precários. Está em curso uma política de produção de desamparo.

O mecanismo Guedes-Damares de produção do desamparo

Em 2018, os economistas Francisco Costa, Angelo Marcantonio e Rudi Rocha publicaram uma pesquisa que associa as crises econômicas ao crescimento das igrejas neopentecostais [Stop Suffering! Economic Downturns and Pentecostal Upsurge]. Verificaram que as crises são benéficas para os templos, favorecendo a expansão da massa de fiéis. Ao contrário da Igreja Católica, os neopentecostais prometem soluções rápidas e alívios instantâneos aos desamparados. São adeptos da teologia da prosperidade, uma doutrina de valores individualistas e ultracapitalistas, criada como resposta ao sucesso da teologia da libertação nos anos 1960.

O bem-estar psicológico proporcionado pelos cultos não é apenas imaginário, é também efetivo. É fruto do pertencimento, do sentimento de confiança em uma instituição e dos benefícios materiais que surgem das relações socioemocionais (mesmo que sejam pequenos e inconstantes).

Sabemos que os 28% de cidadãos que compõem a base social fiel a Bolsonaro têm alta adesão simbólica e ideológica ao governo, sendo capaz de justificar a hecatombe econômica com bodes expiatórios (o “sistema não o deixa trabalhar”, ou o “legado maldito de governos de esquerda”). Assim, enquanto os ricos seguem ganhando, os mais pobres estão expostos a uma narrativa de autolegitimação das suas perdas.

O mecanismo Guedes-Damares é alimentado pelo sofrimento. A doutrina ultraliberal de Paulo Guedes expande o universo de desamparados; os templos dos correligionários de Damares Alves oferecem a indústria do acolhimento espiritual. A política econômica do governo é uma usina de desamparo. Embora nada disso seja automático, a tragédia social amplia o universo de pessoas expostas aos canais privados de comunicação religiosa da máquina bolsonarista. Esse mecanismo está cada vez mais protegido pelo poder miliciano, que agora viabilizou o primeiro partido de assinaturas eletrônicas da história do Brasil, a despeito das investigações sobre fraudes nas últimas eleições.

As margens da revolta

Mas há também o outro lado do desamparo. Em 2019 um fantasma rondou a América Latina: o fantasma da revolta social. Chile, Equador e Colômbia protagonizaram levantes populares com nítidos contornos antineoliberais, anunciando que o novo ciclo direitista não terá vida fácil no continente. Não é à toa que Paulo Guedes começou a ver revoltas em um Brasil de ruas vazias e discursou em tom de animal ameaçado, como se estivéssemos em junho de 2013.

A chancela do ministro dos banqueiros a um AI-5 imaginário na semana seguinte à soltura de Lula revela mais sobre seu pavor ao povo mobilizado do que sobre seu já conhecido autoritarismo. Guedes é o arquiteto da hecatombe. Ele tem em mente uma agenda de destruição ainda não anunciada e, portanto, é ele quem mais conhece a impopularidade daquilo que está por vir. Por isso, sente medo.

No Brasil, as organizações de esquerda (moderadas ou radicais) ainda estão aquém da batalha que tem pela frente. No entanto, uma cultura política antibolsonarista também pode (ou já está) sendo forjada na juventude da periferia, que se percebe como alvo prioritário das balas de fuzil da Aliança Pelo Brasil. Para 2020, se anunciam aumentos de tarifas de transporte, fechamentos de escolas e hospitais, se acelera a destruição da cultura e cresce a violência policial contra os jovens pobres.

Nas periferias, parte da juventude participa da cultura de saraus, debates sobre direitos humanos, movimentos sociais de educação popular, coletivos feministas e antirracistas, que silenciosamente também tecem sua outra rede. É verdade que o contraponto é minoritário. A periferia ainda vive a ressaca da onda bolsonarista. Também é verdade que falta religiosidade na esquerda. Mas o fermento da revolta é parte do cenário.

Ainda não está claro qual será o itinerário político dos desamparados. Já são milhões de eleitores arrependidos. A captura das dores populares pelos falsos profetas já está em curso, mas não se pode descartar a possibilidade de um levante popular, que embora pareça remota, foi elegantemente ensaiado em maio de 2019. Motivos não faltarão.

 

Joana Salém Vasconcelos

Historiadora e mestre em Desenvolvimento Econômico

Joana Salém Vasconcelos

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