Para que servem as eleições gerais?

 

A pergunta acima me foi feita várias vezes em debates abertos. Depois de muita reflexão, entre outras coisas importantes, concluí que eleições gerais deveriam servir para formar, para despertar consciências. E as eleições deste ano vêm nos dando uma boa imagem de como isto deveria estar acontecendo.

 

Estamos vivendo ainda o momento nacional em que as feras saíram das suas tocas. Está sendo o momento em que deputados, senadores, governos estaduais e presidente da República se dignaram vir a público pedir apoio à população. Em sua imensa maioria, os que detêm cargos eletivos passaram seus quatro anos de mandatos de costas para o povo – embora cara a cara com o poder econômico que lhes determina a linha dos respectivos mandatos, salvo honrosas exceções –, mas agora se viram e se vêem obrigados a falar, a aparecer na telinha, a imprimir milhões de belos folhetos, a mandar recados e a mentir deslavadamente.

 

Aproveitam-se das malfadadas leis do "horário gratuito obrigatório", que favorecem os poderosos e "criminosos do colarinho branco", para vender suas mentiras ao público. Todos se passam por santos, todos querem nos fazer crer que estão ao lado dos sofredores, preocupados com as misérias dos trabalhadores, e o fizeram e fazem com a maior cara de pau, quase todos cínicos.

 

Porém, a luta pelo poder gera suas contradições e a podridão – escondida durante anos nas gavetas dos gabinetes – é retirada e jogada na cara do povo. E isto acontece especialmente com as disputas pelas vagas majoritárias (governos estaduais e presidência). Em todos os estados do Brasil, o povo pode assistir às denúncias de corrupção, de malversação do dinheiro público ou envolvimento com criminosos, mas, sobretudo, envolvimento com os interesses escusos das grandes empreiteiras, dos banqueiros, das grandes indústrias e dos latifundiários em negócios sujos. E isto deveria servir para que o povo viesse a refletir sobre tanta baixaria e degradação das forças políticas do país. Se isto viesse a acontecer, se a consciência crítica do povo crescesse, teríamos, sem dúvidas, um enorme avanço no processo democrático. E aí, então, as eleições gerais seriam benéficas para a nação.

 

Porém – como diz a sabedoria popular, ‘sempre há um porém’ – o poder da mídia é maior que a capacidade de entendimento da maioria dos eleitores. E ela manipula descaradamente. Os interesses da exploração de classe se sobrepõem aos interesses da justiça social. Como os meios de comunicação foram concedidos aos exploradores, a verdadeira justiça é jogada na lata do lixo. Prevalecem, então, os interesses criminosos e a mentira. O cinismo e a falsidade prevalecem fazendo a cabeça da maioria desinformada. Cabeça que agirá segundo os interesses dos manipuladores.

 

Um bom exemplo, que deveria contribuir para o discernimento comum, está se dando na disputa pela presidência da República. É um jogo sujo de ataques pessoais, de muita enganação, de boatos, de falsidade, mas que revela muita coisa escondida até então. E cada lado querendo se passar por vítima, por santo, por ilibado! O outro é sempre o demônio encarnado, o corrupto, o malfeitor.

 

Até a "Santa Madre Igreja" entrou nessa fria quando alguns bispos resolveram que seus fiéis não deveriam votar em determinada candidata, usando para isto de argumentos falaciosos. E lançaram muita confusão, colocando-se acima do bem e do mal, como juízes das consciências alheias, favorecendo o desenvolvimento de uma religiosidade fundamentalista que beira a nazi-fascismo. Ingenuidade ou cinismo? De qualquer forma, prestaram um desserviço à formação das consciências.

 

Independentemente da vontade de cada eleitor, um dos dois - que foram designados há tempos pelo capital - será eleito: Dilma ou Serra. E um dos dois será eleito porque nossos eleitores não sabem ainda que detêm um grande instrumento de veto em suas mãos: O VOTO NULO. Pois se a grande maioria anular seu voto não haverá clima de governabilidade neste país, não haverá legitimidade nem legalidade ao "mais votado". Não restará ao TSE outra saída que declarar nulas as eleições e determinar um novo processo com candidatos diferentes.

 

Mas um deles será "escolhido" porque esta é a vontade dos detentores do poder econômico. E o que mudará para o povo? Segundo Delfim Netto, não haverá mudança alguma em favor do povo. Tudo continuará em questões chaves segundo os interesses do capital. Poderá até haver um pouquinho mais de migalhas para uma pequena parcela dos mais carentes, dos que vivem na miséria. Poderá até, em alguns momentos dos próximos quatro anos, ocorrer uma ínfima elevação do poder aquisitivo de uma parcela da população que trabalha. Mas nada que garanta um futuro seguro e com real ascensão do padrão de vida de todo o povo, nada que venha a fazer cair a enorme disparidade de renda entre a imensa maioria espoliada e a ínfima parcela dos exploradores.

 

Tudo continuará segundo os humores do grande capital internacional e nacional. Continuarão os desvios do orçamento público em favor do "superávit primário", que continuará recheando os cofres dos grandes banqueiros; continuarão, ainda que disfarçadamente, como vêm ocorrendo há dezesseis anos, as privatizações, a entrega das nossas reservas minerais, os desmatamentos, os "investimentos" do BNDES em favor de grandes obras sem nenhum interesse popular.

 

Muito dinheiro do povo será empregado para a construção de enormes estádios de futebol, que irá atender aos interesses do futebol capitalizado e das grandes empreiteiras. Mas continuará a faltar dinheiro para a Reforma Agrária, para um amplo programa de moradias populares através dos mutirões; faltará dinheiro para se promover uma profunda reestruturação de serviços essenciais para a qualidade de vida do povo, como a saúde e a educação públicas; continuará a faltar dinheiro para o saneamento básico (esgotos tratados, água canalizada etc.), assim como faltará verbas para preservação do meio-ambiente.

 

Restará ao povo a tomada de consciência e a determinação de retomar as mobilizações populares. Mobilizações para fazer o enfrentamento com os "que foram eleitos em nome e com o voto do povo". Mobilizações para exigir as mudanças estruturais que venham a atender, de fato, a soberana vontade popular, mudanças que venham estabelecer a igualdade e a justiça social. Que nos sirvam de exemplo as mobilizações populares que estão ocorrendo em toda a Europa (onde prevalece o Euro) e onde governantes insistem em roubar os direitos dos seus povos.

 

Se não fizermos o devido enfrentamento com os poderes, para que servirão, então, as eleições gerais, se não para mais uma vez "legitimar" esse iníquo e nefasto sistema de exploração e dominação?

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

 

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Comentários   

0 #3 pedidoRodrigo Alves Vilela 22-10-2010 19:25
Gostei muito do texto gostaria de receber por e-mail as duas canditaturas correponde ao mesmo projeto temos que votar nulo pois não da pra deixar um montro bonito nem se enfeitarmos eas duas canditaduras são montros pa os trabalhadores obrigado
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0 #2 Midia do PT?Julio de Castro 22-10-2010 07:49
Concatenado, lúcido e translúcido texto de Waldemar Rossi. Sobretudo, por conclamar o voto nulo ante as duas candidaturas das elites neste segundo turno das eleições à presidência da República.

Lamento, entretanto, que, ao apoiar agora Dilma Rousseff, quadros do PSOL intervenham na editoria do Correio da Cidadania para promover campanha eleitoral da candidata petista, ocupando quase a totalidade das páginas com textos pró-Dilma.
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0 #1 Para Que Servem as Eleições Gerais?valeria mauricio 21-10-2010 16:56
Companheiro
As eleições são importantes,para que o povo possa escolher seus representantes.
Trata-se de um momento dfícil onde o povo revoltado,com os políticos atuais e a farsa dos Governos;PSDB,PMDB,DEM e principalmente o PT,que decepcionou milhões
de brasileiros.
O que nos resta então? Se é sempre os mesmos candidatos,melhor é rir para não chorar(Tiririca)e se depois se arrepender de ter votado no candidato errado.
Nós já estamos cansados de ver, pesquisas compradas, que apoiam candidatos como forma de propaganda eleitoral enganosa e como se isso não bastasse,a mídia apela para apoiar candidatos.A imprensa deveria cumprir com o seu \"papel\" de informar o
povo(já disse Plínio).
Devemos acreditar,que essa revolta pacífica
do povão,talvez seja benéfica e talvez agora,o povo pense mais antes de eleger os
candidatos e quem sabe,os políticos tambem
pense mais no \"Povão\".
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