Correio da Cidadania

O profeta Jonas e a indigestão da baleia




Qual é a sensação de andar pela cidade? Walter Benjamin afirmava que andar pela cidade é uma experiência única, tanto que merecia uma palavra única: flanar. Passear pelas galerias e bulevares de Paris, pelos parques de Londres, pelas vielas e cafés de Viena, sem destino certo e apenas por andar, deixando-se fascinar pelas vitrines, pela arquitetura, pelas gentes que passam, não é mesmo nada mal.

Outra coisa é andar por São Paulo. Perder-se na multidão que se acotovela aos trancos e barrancos para não perder o trem ou o metrô não dá uma sensação de diversionismo burguês como flanar por uma grande capital da Europa. Além do mais, apenas andar por São Paulo já parece algo quase milagroso. O recente episódio do infame touro na frente da Bolsa de Valores mostra bem isso: disseram que a estátua levaria muitas pessoas ao lugar, que favoreceria o turismo no centro velho, dando impulso ao comércio local. Plágio de mal gosto do touro que fica em Nova Iorque, a estátua foi retirada nem uma semana após ter sido implantada, por infringir a Lei da Cidade Limpa. A empresa responsável vai pagar multa e a retirada salienta o infame e o patético da situação: um touro dourado implantado em frente a uma bolsa de valores subsidiária, em uma cidade degradada onde as gentes morando na rua atrapalham o pesado trânsito e o precário turismo, uma cidade enfeiada que poderia ser linda, mas constrói caroços de concreto no chão para que as gentes que a habitam a contragosto não durmam sequer nas calçadas. Para o padre que teima em quebrar esses caroços, a cidade que não para de trabalhar dá um baita trabalhão, ao mesmo tempo em que não deixa de ter muitos desempregados.

Será mesmo que esses monumentos atraem as pessoas à cidade? A arquitetura do aço e do vidro reflete muitas coisas, mas não chama para dentro. Está lá, a baleia na Avenida Faria Lima, recém implantada em frente ao escritório do Facebook, toda metálica, toda prateada. Numa cidade que destrói cotidianamente todos os seus rios e mananciais, uma baleia de metal reluzente numa calçada petrificada é mesmo coerente. Não há mar em São Paulo, mas há prainha. A tal baleia serve de entrada para o prédio, ela engole as pessoas para dentro do prédio, como aquela que engoliu o profeta Jonas das escrituras sagradas. Da calçada, ninguém vê o que está dentro, o vidro reflete tudo. Mas tudo bem, a calçada ali não é feita para passear mesmo. Assim também o Facebook e as demais redes antissociais – obrigado, Juca Kfouri! – engolem a gente para dentro delas, ao mesmo tempo que os nossos rostos são refletidos pelas telinhas eletrônicas e pensamos que estamos passeando. Mas estamos mesmo? A nostalgia da pracinha, com suas relações provincianas, combina com o flanar de Benjamin. A baleia de cacos metálicos e reflexos multifacetados dá a pensar que quem anda ali pela Avenida Faria Lima, passa, não passeia, é engolido. Lá dentro, será deglutido ou causará indigestão?

Os monumentos da cidade de São Paulo são muitos, variados, diversos. Ultimamente, provocam emoções frias como os vidros dos prédios, mesmo que alguns tenham literalmente esquentado. O Borba Gato da avenida Santo Amaro foi recentemente incendiado. Além de horrorosa, é uma estátua de um homem que, sozinho, matou, estuprou e destruiu mais do que muita gente ruim conseguiria fazer se se reunisse com essa finalidade. Borba Gato é parte da história nossa, ele também construiu esse país, ele também está no nosso íntimo, entranhado na nossa alma, nos arrastando pela nossa lama. Hoje estamos aqui também porque ele foi, porque ele continua sendo. A morte da pantera negra nas mãos do jagunço no Maranhão confirma a sobrevivência de Borba Gato. O sertão está morto, o sertão é o lugar da morte. Deixamos de ser sertão? Seremos outro um dia?

Cidades são lugares confusos e em eterna mutação. Cidades se transformam e nunca param de se transformar e de transformar memórias, identidades, narrativas. Cada rua acumula muitos estratos de histórias. Cidades misturam tudo junto. Nem sempre o equilíbrio dá a tônica nesse emaranhado de relações, mas é justamente essa possibilidade de desequilíbrio que torna uma cidade memorável – aquelas situações em que a experiência uniforme se quebra e algo inusitado acontece. Em momentos assim, nossa memória é gravada e o prosaico vira mágico. É isso que vai retornar, é isso que passa a habitar os nossos sonhos, é a imagem que fica e que muda nossa ação dali em diante.

Identidades e imagens andam juntas nas cidades. As associações que fazemos, as referências que utilizamos nas nossas vidas na cidade marcam os caminhos que traçamos para nós mesmos, em nós mesmos. É possível imaginar um Rio de Janeiro sem o Corcovado ou o relógio da Central do Brasil?

Apenas quem nunca os tenha visto, imagino eu… Vou mudar a questão. Como andar em São Paulo e não pensar, enquanto andamos, em alguma rua, um viaduto, uma avenida? Quem é que consegue andar em São Paulo? Flanar, às cegas, como se faria em Paris, parece algo impossível. Entanto, muita gente ainda anda em São Paulo. É impressionante ver, de repente, alguém andando na Marginal congestionada, para vender uma garrafa de água aos motoristas ou apenas para atravessar ao lado de lá; alguém tomando banho na calçada da Avenida Tiradentes, de um cano que sai da parede; alguém surgindo como se fosse do nada, debaixo de um viaduto qualquer; alguém que anda sem ter para onde ir, encontramos a todo momento na cidade de São Paulo.

O cinema sempre fez parte do cotidiano das cidades. No século XX, descer do ônibus e entrar num cinema para ver um filme era parte da vida cotidiana. Sair do cinema e reconhecer, na vida, as imagens vistas na tela, era parte da diversão. Essa experiência, no Brasil, nunca foi realmente popular. Poucas vezes a massa da população brasileira deve ter tido essa experiência. Imagino que sim, após algum filme de Mazzaropi, ou Mojica, ou dos Trapalhões, mas muito menos após os filmes de Leon Hirzsman, ou de Luís Sérgio Person, ou de Kleber Mendonça Filho, que realmente nunca foram tremendos sucessos de público, principalmente por razões comerciais, e não estéticas.

O número de salas de cinema pode ser um bom indicativo para pensar no tamanho da economia e da urbanização. Comparativamente, por volta de 1920, os Estados Unidos já tinham mais de 20.000 salas de cinema em operação. O Brasil, durante todo o século XX, chegou a ter 3.000? Mesmo assim, os filmes de Mazzaropi, durante as décadas de 1960 e 1970, conseguiam atrair 7 milhões de espectadores a cada novo lançamento. É um fenômeno único na história do cinema nacional, não obstante, localizado e amplificado pelo tamanho da cidade de São Paulo.

Seria possível viajar aos Estados Unidos e não pensar nas imagens do cinema de Hollywood? Seria possível imaginar San Francisco sem as imagens de Hitchcock? O Oeste sem o horizonte plano de John Ford? Nova Iorque sem as luzes noturnas de Martin Scorcese ou Woody Allen, ou os travellings pelas ruas do Queens filmadas por Spike Lee? Nos filmes, mesmo os lugares mais mundanos e corriqueiros são transfigurados. Múltiplas significações nascem, as imagens invadem a psique da plateia, as pessoas começam a criar outras associações com os lugares já conhecidos, novas concepções da cidade se movem e se desenvolvem.

Mas o que dizer, então, das imagens do subúrbio, da favela, da periferia e dos trancos e barrancos das quebradas? Se o cinema de um Adirley Queirós é capaz de nos mostrar uma Brasília além da ambígua monumentalidade do Plano Piloto, uma Ceilândia que não figura normalmente nas imagens veiculadas da Capital Federal, é porque a cidade não é mesmo uma só e não há uma única experiência capaz de resumi-la. É o mesmo Adirley que afirma: a gente nunca sabe onde um filme vai passar, se no cinema ali naquele Shopping, no outro lado do mundo, talvez na China (mais de 75.000 telas de projeção em 2020), na nossa cabeça, na cabeça daquela mulher ali no ponto de ônibus…

A espetacularização do espaço urbano anda junto com o processo de expulsão da gente pobre dos espaços públicos, um processo de homogeneização espacial chamado de “gentrificação” que dá a impressão de combater a pobreza e os pobres. O cinema trabalhou muito para transfigurar as imagens das cidades, nesse sentido. Enquadrar o que é para ser visto, afinal, implica que há o que não é para ser visto. Mas, hoje em dia, nesta nossa época em que cada um de nós produz imagens cotidianamente, trazendo uma câmera no bolso pronta para uso a qualquer momento, a experiência da dissolução identitária e da heterogeneidade das memórias é potencializada – cada um produz um enquadramento, cada um deixa algo de fora da imagem, cada fora é o dentro de cada um. Se essa situação de fato se confirmará como força oposta à memória imposta à força ou apenas se conformará em ser engolida no ventre metálico da baleia, é algo que ainda não sabemos com certeza. A baleia pode nos deglutir ou nos vomitar, a replicação das imagens ainda não foi totalmente digerida. Não é preciso ser profeta para ver: o cinema não morreu. E nós também não.

Cordiais saudações, principalmente aos que se recusam a morrer pela voracidade alheia.