Ofensivas 2021

Terramar – Associação de Solidariedade Social de Vila Chã
O início do ano é sempre tempo do exercício de pensarmos sobre o futuro a partir do conjunto de informações, fatos, pesquisas e percepções sobre o passado e o presente.

Escolho quatro pontos, a partir de minha zona de contato, para problematizar e pensar ofensivas.

O caos na saúde pública

São muitos ainda os problemas que compõem a perspectiva não apenas de caos, mas de possivelmente um colapso na saúde brasileira. Estamos com os casos de coronavírus em ascensão, escassez de verbas emergenciais com o fechamento dos hospitais de campanha, o cansaço e o desprezo da população com as medidas sanitárias, fim do auxilio emergencial que aumenta a necessidade de deslocamento das pessoas, a paralisia do governo federal com a terrível falta de planejamento para um programa de vacinação brasileiro.

Entretanto, o problema vai além da Covid-19. A saúde pública em diversas cidades do Brasil está completamente pressionada também por outras necessidades da população e tratamentos adiados de 2020. E os problemas de saúde mental tendem a ser uma das áreas mais delicadas, devido à ampliação do sofrimento psíquico de milhares de pessoas e esfacelamento das políticas públicas.

Abandonados em meio a tal crise estamos nós - os trabalhadores da saúde. Depois dos aplausos de 2020 as perspectivas para esta classe – formada em sua maioria por mulheres – não são das melhores. Excesso de trabalho, pressões inimagináveis e nenhuma sinalização de conquistas materiais por parte dos governos. Nosso ato de ir trabalhar, de nos pautar cotidianamente por evidências científicas, significa resistência. É completamente necessária uma ofensiva para garantir valorização desta nossa classe, que vai além dos médicos e enfermeiros e envolve uma gama de profissões técnicas e administrativas, muitas vezes invisíveis – como os trabalhadores da limpeza dos hospitais.

Nem saímos de 2020, mas o ano de 2022 já esta aí

Temos um ano espremido. O ano 2020 já invadiu 2021 com a realidade pandêmica e 2022 tende a chegar antes com sua eleição presidencial que já produz efeitos. Mal terminaram as eleições municipais e já se falava em desgastes e fortalecimentos de possibilidades para a eleição de 2022. No meio desta intersecção temos o imprevisível ano de 2021, com prováveis discussões sobre reformas, impeachment, possíveis e impossíveis coalizões e mais verborragias deprimentes do presidente.

Tal cenário traz em perspectiva duas indagações: será possível a formulação de um programa comum de impulsionamento da solidariedade por atores políticos diversos capazes de fazerem frente à barbárie que vivemos? Com as peças que temos nos campos políticos atuais e suas jogadas personalistas pouco criativas o desafio de tal ofensiva é imenso.

Onde as lutas se encontram

A segunda pergunta é: como os confrontos políticos realizados nas ruas irão acontecer? As lutas aconteceram em 2020, mas de uma maneira engasgada. Os atores políticos, influenciados pelas medidas sanitárias, tiveram dificuldade de promover a ocupação das ruas. As sacadas onde aconteceram os panelaços no início da pandemia podem fazer barulho, mas não produzem os mesmos incômodos necessários para gerar transformações efetivas.

Como as lutas vão se encontrar em 2021 é uma questão pendente. De alguma forma as ruas serão ocupadas, pois há muitos conflitos latentes. A violenta opressão do racismo e o patriarcado que só aumentam, ampliando a contestação. Os protestos sobre a emergência climática, que estavam em ascensão antes da pandemia, podem voltar. A retirada precoce do auxílio emergencial pode ainda potencializar uma realidade de sofrimento e indignação.

Como será resolvida esta equação da necessidade de ir para as ruas diante de tanto descalabros e a necessidade de manter o distanciamento físico, possivelmente, veremos em 2021. Talvez surjam performances de confronto em que as pessoas mantenham o distanciamento de dois metros nas ruas. Pode ser que movimentos convoquem manifestantes para vir nas ruas de braços abertos, segurando dois cabos de vassoura para ninguém chegar perto. Pode ser que a indignação seja maior que o cuidado e ocorram aglomerações.

O certo é que, na encalacrada que nós estamos, ofensivas nas ruas e nas instituições exigindo transformações são urgentes para encontramos uma forma de potência de não retornarmos a essa normalidade que nos trouxe ate aqui.

A dificuldade de tornar cotidiana a solidariedade

Uma das perguntas que guardo para o ano de 2021 é sobre o avanço da solidariedade no Brasil. Será que poderemos aumentar as ações solidárias que atingiram muitas periferias brasileiras para além da comoção pandêmica de 2020?

Ter uma ação política solidária que permaneça no tempo para além da tragédia é um dos desafios colocados para o ano de 2021. Penso que o cenário não é bom. Muitas iniciativas terão enormes dificuldades para terem continuidades, como podemos verificar no processo que a comunidade de Paraisópolis está passando para poder manter a ambulância e os atendimentos de saúde organizados por seus próprios moradores, com muita luta e resiliência.

Uma ofensiva por solidariedade transversal como forma de poder comunitário é urgente. Precisamos ressignificar solidariedade. Não mais como ato vertical que envolva o dar e receber, mas como curto circuito das realidades segregadas. Solidariedade transversal como forma política. É preciso uma força em 2021 que faça com que a solidariedade nos atravesse.

Paulo Spina é trabalhador da saúde mental, escreveu o livro: Ofensivas – a potência do não retorno à normalidade.

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