“O atual momento reforça a necessidade da tarifa zero no transporte coletivo”

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Como manda a tradição das gestões técnicas, 2021 começou com alguma forma de aumento dos custos do transportes para a população. Desta vez, a gratuidade para pessoas entre 60 e 64 foi a primeira medida do recém-eleito Bruno Covas para a prefeitura de São Paulo. Outra tradição do período são as manifestações contra as políticas favoráveis aos empresários do transporte e pela tarifa convocadas pelo Movimento pelo Passe Livre, geralmente interditadas por desproporcional aparato militar, como voltou a ocorrer em 3 de fevereiro. Confira a entrevista que publicamos com o movimento.

“A gestão de ambos (Doria e Covas) soma uma série extensa de violências no transporte coletivo: sucessivos aumentos de tarifa, corte e extinção de linhas, demissão de trabalhadores(as) do transporte coletivo, um significativo aumento na militarização do transporte, concessão/privatização sobre o serviço... O transporte coletivo como marcador de segregação e violência na cidade”, explicam.

Além de afirmarem que o movimento está ao lado de todas as lutas sociais que tenham afinidade com a ideia do passe livre, acreditam que a pandemia e a crise econômica que se acentuam, com evidente empobrecimento da população, apenas reforçam a necessidade do fim das catracas.

“A chamada ‘viabilidade técnica’ para a Tarifa Zero é sistematicamente reatulizada ano após ano pelo menos desde o início dos anos 90, seja pelo movimento, seja por parceiros e parceiras próximas à pauta. Há um zilhão de aprofundamentos sobre as possibilidades de sua realização, em diferentes contextos econômicos, inclusive”.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como enxergam o fim da gratuidade das passagens para pessoas entre 60 e 64 anos e as alegações da prefeitura para esta decisão?

Movimento Passe Livre: O movimento enxerga o fim da gratuidade da única forma possível de ser enxergada, que é com muita revolta.

Esse é ainda mais um ataque de Covas e Dória contra a população mais pobre em São Paulo, e o fazem sobretudo num momento de ainda mais dificuldade por conta da pandemia. Não há qualquer argumento que justifique essa covardia. A propósito, vale lembrar que o anúncio do corte no Passe Livre das pessoas idosas veio na mesma semana de aumento no salário para Bruno Covas, o que é bem simbólico sobre o que realmente importa para ambos.

Correio da Cidadania: Qual o resumo das gestões Doria-Covas no transporte público?

Movimento Passe Livre: A gestão de ambos soma uma série extensa de violências no transporte coletivo: sucessivos aumentos de tarifa, corte e extinção de linhas, demissão de trabalhadores(as) do transporte coletivo, um significativo aumento na militarização do transporte, concessão/privatização sobre o serviço...

O transporte coletivo como marcador de segregação e violência na cidade.

Correio da Cidadania: Como tornar público este assunto num momento de tamanha crise institucional, social, econômica e sanitária no Brasil?

Movimento Passe Livre: Não é à toa que na história recente do país tenham existido recorrentes revoltadas populares acerca da pauta do transporte coletivo, é uma pauta muito próxima e cotidiana na vida das pessoas mais pobres. O busão cada vez mais cheio e mais caro é um marcador muito reconhecível para as pessoas mais pobres de que a vida não anda bem. Não há dificuldade em associar o quão ligadas estão todas essas questões, ainda que olhando somente o busão ou trem cheio nas quebradas.

Correio da Cidadania: Como foi a manifestação deste dia 3? Houve outras? Vocês pretendem continuar na rua?

Movimento Passe Livre: A manifestação do dia 3 foi mais uma das ações de luta contra o corte do passe livre das pessoas idosas. As pessoas que colaram no ato estavam realmente bem dispostas e animadas a tocar luta, estarem na rua de forma cuidadosa consigo e com as outras pessoas, mas, como de costume, houve a truculência desnecessária por parte da polícia que tentou reprimir o ato e o estourou ainda na saída.

A tentativa deles é sempre de intimidar e criminalizar a luta, não aceitamos e nunca aceitaremos. Os atos do movimento são, sim, combativos e feito a partir da vontade e necessidade das pessoas de baixo. Não deixaremos que o Estado paute como devemos e podemos estar na rua!

Correio da Cidadania: O MPL pretende ir às ruas em eventuais manifestações políticas referentes a outros temas?

Movimento Passe Livre: O movimento está sempre apoiando e/ou compondo outras lutas que entendemos tão urgentes e necessárias quanto a luta por um transporte realmente público.

Correio da Cidadania: Por que a tarifa zero é viável e necessária? O atual momento de crise econômica reforça ou prejudica esta pauta?

Movimento Passe Livre: Nós sempre fizemos questão de frisar que a viabilidade da Tarifa Zero já existe desde muito tempo e que só não houve sua implementação até hoje por um profundo desinteresse da política dos partidos em melhorar a vida das pessoas mais pobres.

A chamada "viabilidade técnica" para a Tarifa Zero é sistematicamente reatulizada ano após ano pelo menos desde o início dos anos 90, seja pelo movimento, seja por parceiros e parceiras próximas à pauta. Há um zilhão de aprofundamentos sobre as possibilidades de sua realização, em diferentes contextos econômicos, inclusive.

O atual momento reforça a necessidade desse direito, não realizá-lo prejudica (desde muito tempo) a vida de quem necessita se locomover e ter acesso à cidade.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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