Na primeira eleição municipal após morte de Marielle, São Paulo tem o desafio de eleger representantes da luta antirracista

Simone Nascimento | O Movimento Negro Unificado (MNU) é uma … | Flickr
Apesar do adiamento em um mês das eleições, o Brasil se aproxima das eleições municipais ainda numa situação catastrófica em relação à pandemia do novo coronavírus. Temas como a abstenção nas urnas e eventuais beneficiários de um pleito neste contexto serão incógnitas até o último instante. De toda forma, as eleições ocorrerão e a repartição de forças político-ideológicas terá novo capítulo. É sobre todo este contexto que o Correio da Cidadania entrevistou Simone Nascimento, militante do Movimento Negro Unificado e candidata a vereadora pelo PSOL em São Paulo.

Simone menciona “renda básica, investimento em saúde pública de qualidade e políticas geração de emprego e renda”, como prioridades. “Mas temos outras que são muito urgentes e que eu quero explicar: antes de tudo é o combate ao genocídio da juventude negra. Segurança Pública é um tema do executivo estadual, mas isso não significa que não possamos apresentar medidas para que o nosso município enfrente o problema”, completou.

Na entrevista, Simone Nascimento trata de assuntos do interesse da população periférica como os mais urgentes da cidade. Também lembra que esta é a primeira eleição municipal depois do assassinato de Marielle Franco, o que a faz destacar a importância do avanço de negros e negras em cargos legislativos, sua relação direta com a construção de políticas que dialoguem com as necessidades reais da população e a luta pela transformação dos instrumentos democráticos.

“Eu acredito que a gente precise cultivar uma nova cultura política no Brasil. Esses dogmas de mercado são tão fortes hoje porque o povo acredita neles ou acha que não é possível mudá-los. Mas é possível, sim. Vou citar de novo o orçamento participativo que a Erundina fez em São Paulo na sua prefeitura: imagine oferecer ao povo de cada bairro o poder de decidir o que será feito com o orçamento da região, escola, UBS, creche?”, pontuou.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como enxerga o contexto eleitoral em meio à pandemia? A abstenção pode ser maior do que a média histórica?

Simone Nascimento: É possível que sim, porque mesmo com protocolos sanitários as pessoas dos grupos de risco que seguiram em isolamento total até aqui podem optar por não comparecer às urnas. Mas vale lembrar que o desencanto com a política é um fenômeno crescente nas últimas eleições, independentemente de pandemia.

Acredito que a campanha de Boulos e Erundina, a nossa campanha para vereadora e, de modo geral, todas as campanhas do PSOL Brasil afora tenham também como objetivo resgatar essa esperança na política coletiva, feita pelo povo e para o povo.

Correio da Cidadania: Acredita que algum espectro político-ideológico poderia tirar proveito de uma menor presença nas urnas?

Simone Nascimento: É difícil dizer como as pessoas vão se comportar. Em um primeiro olhar a gente poderia dizer que o campo bolsonarista tende a sair favorecido, já que negaram a pandemia desde o começo e não teriam razões para mudar de atitude agora. Por outro lado, há fatores que podem entrar em cena, como uma maior mobilização do campo progressista para derrotar o atraso nas urnas ou até mesmo uma desilusão com parte dos eleitores de Bolsonaro. Só o tempo o dirá ao certo. Nosso papel é disputar esse processo e trazer as pessoas para perto do debate eleitoral: só foge de debate quem não confia na própria política.

Correio da Cidadania: Em sua visão, quais os principais temas a serem representados pelas candidaturas?

Simone Nascimento: É impossível não falar em saúde pública, emprego e renda, principalmente na minha cidade, São Paulo, que é a segunda do mundo com mais contaminados e mortos pela COVID-19. O Boulos tem dito muito: qual a cidade que a próxima prefeitura vai assumir? Temos que ter políticas públicas antirracistas e de combate à desigualdade nos municípios que ajudem as pessoas a retomarem as suas vidas, em particular as negras e negros das periferias, que já eram alvo do descaso do poder público antes; com a pandemia nós vimos escancarado o racismo estrutural e a desigualdade social existente em São Paulo e em todo país.

Uma renda solidária permanente é crucial para tirar as pessoas da miséria e fazer a economia andar na quebrada. Essa é a base e em cima disso a gente entra com políticas de valorização da cultura, combate à violência de gênero, educação, internet, transporte, todas essas propostas que trazem igualdade para uma cidade como São Paulo e que, por consequência, melhoram a vida de todos.

Correio da Cidadania: No caso de São Paulo, onde você concorre, quais seriam as principais pautas da próxima legislatura?

Simone Nascimento: Temos as que eu já mencionei: renda básica, investimento em saúde pública de qualidade, emprego e renda. Mas temos outras que são muito urgentes e que eu quero explicar: antes de tudo é o combate ao genocídio da juventude negra. Segurança Pública é um tema do executivo estadual, mas isso não significa que não possamos apresentar medidas para que o nosso município enfrente o problema. Políticas que não criminalizem a cultura periférica ajudam a PM a não lidar de forma truculenta com os jovens em bailes, como aconteceu em Paraisópolis ou em diversos outros casos que envolvem slams, batalhas e demais formas de cultura e lazer que a nossa juventude desenvolveu nas nossas quebradas.

Fora o papel de cobrança em cima dos outros poderes para que se estabeleça políticas de combate ao genocídio da população negra. Outra questão é da internet. A pandemia mostrou o que todo mundo já sabia: a internet não pega na quebrada. Isso não é só um problema para quem quer assistir a um filminho no fim do dia, é um problema principalmente para quem precisa estudar, trabalhar, marcar uma consulta, enfim. Internet é uma forma de poder no mundo atual. Acredito também que a valorização da cultura seja urgente, pois, mais que entretenimento, a cultura salva vidas e gera empregos. Temos que pensar na cultura também nessa perspectiva.

Correio da Cidadania: Você é uma figura construída através do Movimento Negro Unificado. Como enxerga o tema do racismo nessas eleições e o número de candidaturas de negros e negras?

Simone Nascimento: Esta é a primeira eleição municipal desde a execução da Marielle Franco, além do fato de termos tido grandes manifestações antirracistas no primeiro semestre denunciando a violência policial e o genocídio do nosso povo. Além disso, o movimento de mulheres negras tem ganhado força e espaço político desde a "Marcha das Mulheres Negras contra o machismo, racismo e pelo bem viver" em 2015.

Nós do MNU temos construído ao longo dos nossos 42 anos de história uma compreensão de projeto político do povo negro, que não é um projeto de sociedade apenas para os nossos, mas é pensar a política de uma forma que realmente garanta a igualdade entre todos.

Se em 2018, elegemos mulheres negras importantes como Talíria Petrone, Áurea Carolina, Érika Malunguinho, Dani Monteiro, Renata Souza, Mônica Francisco e Mônica Seixas, acredito que este ano elegeremos mais pessoas negras comprometidas com a construção de um projeto político que coloque o nosso povo no centro do debate e aumentaremos bastante a nossa bancada de mulheres negras na Câmara de Vereadores, que hoje não conta com nenhuma parlamentar negra.

Correio da Cidadania: Conjugar a atividade política profissional com as lutas sociais seria um dos principais desafios da atualidade?

Simone Nascimento: Não só da atualidade, mas há muito tempo. Não podemos jamais achar que uma coisa substitui a outra. E temos muitos exemplos de gente que se elegeu e conseguiu construir mandatos a serviço das lutas sociais. Se eleita, quero ser uma dessas pessoas que constroem mandato junto com os movimentos sociais.

O papel dos parlamentares tem de ser o de amplificar a voz dos movimentos sociais. Ficar encastelada na Câmara só negociando com prefeito e outros vereadores não é comigo. Fico feliz de estar com Boulos e Erundina nessa, porque sei que eles pensam igual a mim.

Correio da Cidadania: Há condições de promover transformações relevantes dentro do atual modelo de democracia representativa?

Simone Nascimento: Com certeza. Veja só o quanto a vida dos paulistanos piorou nos últimos quatro anos. Se dá pra piorar, dá pra melhorar também. Quando a Erundina foi prefeita de São Paulo, com um orçamento muito menor que o atual, ela construiu hospitais, moradias, criou o orçamento participativo. Só que a única forma de fazer isso por dentro da democracia representativa, com todas as falhas que ela tem hoje, é em aliança estreita com os movimentos sociais. Os movimentos cobram, se mobilizam e com o apoio dos seus representantes fazem acontecer.

Correio da Cidadania: Completando, é possível promover políticas públicas de alcance e qualidade enquanto estivermos monopolizados pelos dogmas de mercado na definição de toda a agenda política, inclusive pra além da esfera municipal?

Simone Nascimento: Eu acredito que a gente precise cultivar uma nova cultura política no Brasil. Esses dogmas de mercado são tão fortes hoje porque o povo acredita neles ou acha que não é possível mudá-los. Mas é possível, sim. Vou citar de novo o orçamento participativo que a Erundina fez em São Paulo na sua prefeitura: imagine oferecer ao povo de cada bairro o poder de decidir o que será feito com o orçamento da região, escola, UBS, creche?

Acredito que se a gente dá às pessoas o poder de decidir - e decidir mesmo, com debate e voto nos bairros - elas não vão querer retroceder depois. O entendimento de que a política é feita por cada um e cada uma é processo; é uma cultura como eu disse. Por onde começamos a construir essa cultura?

Penso que os movimentos sociais são um bom ponto de partida e a eleição de parlamentares e prefeitos aliados Brasil afora seria de grande ajuda: é no município que a vida das pessoas acontece e é nele que a gente começa a mudar a cabeça das pessoas.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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