Pantanal: “Já queimaram uma área tão grande que os bichos não têm mais para onde correr”

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Com cerca de 16 mil focos de incêndio registrados pelo INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) até o último dia 17 de setembro, o Pantanal vive a maior queimada de sua história, que começou em 21 de julho e já destruiu quase 2 milhões de hectares – equivalente a 20 mil quilômetros quadrados, cerca de 15% da área total do bioma. As imagens de animais e planícies inteiras queimando rodaram o mundo. Sobre esta tragédia entrevistamos Neiva Guedes, especialista em conservação ambiental, presidente do Instituto Arara Azul e professora da Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal).

“Entre 2 e 22 de agosto a fazenda onde está o santuário das araras azuis foi tomada pelo fogo. Entretanto, na propriedade não foram muitos os animais queimados porque isso ocorreu no começo dos incêndios, naquele momento ainda tinha bastante lugar para os animais correrem e procurarem abrigo. Hoje é diferente. Já queimaram uma área tão grande que os bichos não têm mais para onde correr”, relata a Neiva sobre quando os incêndios alcançaram a fazenda onde funciona um santuário de araras azuis em que trabalha.

A insatisfação com o poder público, em especial o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, é declarada por ela, também membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). Ao mesmo tempo, aponta a solidariedade popular como algo a ser lembrado positivamente em meio à tragédia.

“Vemos numa tragédia dessa que os brasileiros têm muita solidariedade. É a solidariedade das pessoas que permite que seja feito, ainda que pouco, o que é possível para resgatar áreas, combater incêndios, diminuir os danos etc. Por conta da mobilização da sociedade, de brigadistas, fazendeiros, peões, guias e até de pessoas que nem moram, mas estão no Pantanal porque se voluntariaram para vir ajudar. Infelizmente, da parte no governo atual não temos visto uma atuação nesse sentido, na escala que seria necessário nessa área e que se esperava que atuasse”.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Correio da Cidadania: A senhora trabalha em um santuário de araras azuis no sul do Mato Grosso, num local atingido ainda no começo dos incêndios. Pode contar um pouco a respeito deste trabalho e sobre esse momento em que o fogo os atingiu?

Neiva Guedes: Eu monitoro essa área há mais de 15 anos junto com outro colega, até publicamos um artigo em dezembro de 2019 demonstrando a chegada das araras nesta fazenda [onde funciona o santuário] para dormir. Chamamos o local de ‘dormitório’.

Há mais de 60 anos, o antigo proprietário – que hoje é falecido, as atuais donas da terra são as filhas dele – observou que araras, papagaios, periquitos, entre outros pássaros, chegavam na fazenda para dormir. Assim, quando comecei o projeto de preservação de espécies 30 anos atrás, ele me mandou uma mensagem dizendo para eu ir conhecer a propriedade porque havia essa grande congregação de araras. Levei um tempo para ir conhecer, mas quando o fiz fiquei realmente embasbacada. Era uma quantidade muito grande de araras, que eu nunca tinha visto em outro lugar.

Ali começamos a monitorar as araras em 2001 e seus ninhos em 2005. Viemos todo o tempo acompanhando as araras da região, para ver também o crescimento da população da área, que fica em uma fazenda tradicional, onde o gado é manejado ao longo do ano. Ela é dividida em vários pastos: o gado um dia está em um pasto, no outro dia vai para outro, e assim por diante. As araras têm uma relação boa com esse gado. Elas vão seguir o gado que come a polpa dos frutos de palmeiras dos quais elas também se alimentam. O gado facilita a vida e a alimentação delas. A fazenda faz divisa com a reserva indígena Perigara, da etnia Bororó, e também com a reserva do Sesc Pantanal, que é a maior reserva privada do país. Os outros vizinhos são fazendeiros tradicionais do Mato Grosso (MT).

No final de julho recebemos notícias com mapas do INPE dos focos de incêndio que davam conta de que o fogo estava avançando na região e tinha a possibilidade de chegar na fazenda. Entramos em desespero porque conhecemos a importância dessa área para as araras e de fato esse fogo chegou lá no dia 2 de agosto. Entre 2 e 22 de agosto a fazenda foi tomada pelo fogo.

Temos uma análise da IVC, uma ONG do Mato Grosso, sobre esses focos de incêndio que diz que 92% da fazenda foi atingida pelo fogo. Isso no final de agosto. Pensando no caso das araras, sabemos que elas voam e, por isso, alguns podem dizer que dificilmente seriam queimadas. Entretanto, o incêndio ocorreu no início da estação reprodutiva, em um momento em que produzem ninhos e gestam filhotes, e nesse momento elas não têm o costume de abandonar os ninhos. Podem até voar quando o fogo se aproxima, mas não deixam a área.

Ainda não sei dizer o real impacto do incêndio sobre as araras do santuário, mas em outro santuário, no Mato Grosso do Sul, houve um incêndio no ano passado na mesma época de reprodução. Perdeu-se ali cerca de 40% de ninhos que as araras estavam utilizando para reprodução. Muitos já com filhotes acabaram sendo tomados pelo incêndio. Sabemos que algo dessa dimensão possa ter acontecido também agora.

Ainda não analisamos, vou pra lá esta madrugada (21/9) junto com a minha equipe, para poder analisar os impactos do fogo nas populações de espécies que acompanhamos. Já sabemos que extensas áreas de alimentação foram queimadas. Entretanto, na propriedade não foram muitos animais queimados ou chamuscados, porque foi no começo do grande incêndio, que, começou em 2 de agosto. Ou seja, naquele momento ainda tinha bastante lugar para os animais correrem e procurarem abrigo. Hoje é diferente. Já queimaram uma área tão grande que os bichos não têm mais para onde correr.

Infelizmente, o incêndio não foi contido e chegamos a setembro com essas imagens terríveis de animais queimados e carbonizados, para não falar das dimensões por si só das áreas afetadas.