Correio da Cidadania

Um olhar indígena decolonial sobre as inundações que abriram o ano



Foto: Mar de Olivença – Sirihyba - Terra Indígena Tupinambá no enfrente a Aldeia Taba Gwarïnï Atã. Data: sem datação. Autoria: Mauricio Pinheiro.


Manó Paranã Obaitî Ybaka

“manó paranã
obaitî ybaka

robaca amana
obaitî yby

yby tecó y
suí ygarapés

robaca paranã
obaitî ybaka

nheypyrunga bebé
ybyuamana moakyma

yjara erecoara
yecobé”
(Yecobé – Casé Angatu)


A Percepção Originária vinda da Sabedoria Ancestral

Era a primeira segunda-feira do mês de dezembro desses quase dois anos da doença pandêmica (06 de dezembro de 2021). Logo cedo dois Parentes Indígenas e Pescadores – Bijupirá e Baiacu – se encontraram à beira mar entre o Jairy – Sirihyba que fica aqui em Terras Tupinambá em Olivença (Ilhéus/BA).

Estavam em frente a Aldeia Jairy Ituaçu e a Aldeia Taba Gwarïnï Atã (onde moro). Como quase sempre faço pela manhã, eu também estava lá.

Sabe... nosso Território fica na Mata (Ka’á) Atlântica e em frente ao Paranãussu (Mar Grande – Oceano Atlântico). Nossa Terra (Opaba) é cortada por rios, riachos e ygarapés onde correm águas férreas, consideradas medicinais. Opaba Poranga (Nossa Terra Linda), de muitas águas, matas, bichos e encantarias.

Voltando ao encontro que presenciei pela manhã entre os dois Parentes Pescadores Tupinambá, Bijupirá e Baiacu, no dia anterior (domingo) combinaram logo cedo de na segunda colocarem a jangada (ygapeba) no mar para pescarem. Sei disso porque estava conversando com os dois quando marcaram a pescaria.

Ao se encontrarem conversaram:

– “Katuara Parentes”, disse Bijupirá Tupinambá.
– “Katuara”, responderam Baiacu Tupinambá e Casé Angatu.

Bijupirá e Baiacu olharam então para o mar, miraram o céu, sentiram o vento e continuaram a prosa:

– “Rapaz ... hoje o mar (paranã) tá retado de agitado (yaíba) e a maré cheia (yúra pungá)”, falou Bijupirá Tupinambá.
– “Oxeee ... tu não viu ontem não ... foi a noite (pytuna) todinha de relâmpago (amamberaba) ... o céu (ybaca) ficou claro ... parecia São João”, comentou Baiacu Tupinambá.
– “Foi mesmo ... do jeito que tá aí não tem como botar a jangada (ygapeba) no mar (paranã)” – afirmou Bijupirá Tupinambá.
– “Justo agora que é época de pegar o pirá (peixe) e conseguir uns trocados”, ponderou Baiacu Tupinambá
– “Tupã sabe o que faz e Janaina também ... bora molhar a palavra que a chuva (amana) já tá caindo forte (atã) e pelo jeito vai demorar passar”, considerou prevendo Bijupirá Tupinambá
– “Isto se não virá tempestade (ybytuaíba)... bora…”, pressentiu Baiacu Tupinambá concordando com a sugestão de molhar a palavra (*1)


Foto: Jangada (Ygapeba) Indígena. O Povo Tupinambá mantém a pesca artesanal ancestral. Data: sem datação. Autoria: Mauricio Pinheiro.

E aquela chuva virou mesmo tempestade como intuíram Bijupirá e Baiacu, demorando cerca de seis dias para estiar (de 06 até 12 de dezembro de 2021). Os meus Parentes tinham razão em suas previsões feitas através da percepção originária, gerada das vivências atemporais como pescadores indígenas e da sabedoria ancestral.

Porém, não sabíamos que o temporal seria fora do comum em sua intensidade, demorando um tempo maior para abrandar. Até então não tínhamos noção que aquela tempestade era gerada por um ciclone subtropical denominado pela Marinha do Brasil com o nome em tupy de “Ubá” (*2).

Do mesmo modo, como poderíamos prever  que o lugar onde morávamos (Terra Indígena Tupinambá de Olivença – Ilhéus) seria uma das áreas afetadas pelas tempestades, bem como toda região Sul, Extremo Sul, Oeste, Sudoeste da Bahia e Norte de Minas Gerais. Para piorar sem ainda nos recuperarmos após a passagem do ciclone subtropical Ubá fomos afetados novamente por tempestades cerca de 11 dias depois entre os dias 23 até 25 de dezembro de 2021.

Os novos temporais, segundo os especialistas em meteorologia, foram causados pelo fenômeno climático chamado “La Niña” e o aumento da temperatura no oceano. Isto ocorreu quando ainda terminava este texto e por isto precisei fazer sua atualização no sentido de inserir a segunda onda de temporais que enfrentamos.

Por isto indago: será que as agências e institutos meteorológicos e climatológicos não conseguiriam prever eventos climáticos e meteorológicos extremos como os que nos abalaram? Não seria possível emitir alertas e tomar medidas de precaução, reduzindo as consequências? (*3)  

Na mesma direção questiono: são só os temporais os únicos responsáveis por afetarem as vidas das pessoas, que geralmente são as mais carentes materialmente pelo país afora, resultando em mortes, ferimentos, doenças e perdas do pouco que se tem? Ou será que o capitalismo e seus mandatários também possuem responsabilidades?

As tempestades revelam a Histórica e Estrutural Bio-Necropolítica do Bio-Necropoder Capitalista que o Genocida radicalizou

Não é objetivo deste texto responder conclusivamente à essas inquietações aqui enunciadas, mas aventar possibilidades de ponderações. Além disso, essas indagações são geradas pela indignação que surgem de pessoas como o autor deste texto que vivenciaram e ainda vivenciam as sequelas das tempestades ocorridas entre os dias 06 a 12, e 23 a 25 de dezembro de 2021.

Sei que dirão e com toda razão: o atual governo negacionista do conhecimento, da pesquisa e da ciência tem cortado verbas e investimentos também neste setor das previsões meteorológicas e climatológicas. Sem dúvida isto tem ocorrido e possui relação com as consequências geradas pelo “Ubá” e “La Niña”. É notória a nefasta atuação genocida do governo fascista e negacionista que busca a deterioração dos estudos, pesquisas e políticas públicas, especialmente quando favorecem a população a exemplo do que ocorre nas áreas meteorológicas e climatológicas.  

A título de exemplo, em setembro deste ano (2021) o governo federal interrompeu a atuação do Sistema Nacional de Meteorologia – SNM, depois de quatro meses de sua criação. O SNM tinha com intuito realizar com maior eficiência as previsões meteorológicas, sendo coordenado pelo Instituto Nacional de Meteorologia - INMET (Ministério da Agricultura), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - CENSIPAM (Ministério da Defesa). Para piorar a falta de perspectiva gerada pela suspensão do Sistema Nacional de Meteorologia vale ressaltar que a interrupção foi encaminhada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, e executada pela Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República – SAE.

Outra demonstração do descaso do atual governo federal em relação à prevenção de “eventos climáticos ou meteorológicos” ocorreu em junho/2021. Na ocasião os mandatários da república deixaram sob ameaça de desligamento o supercomputador “Tupã” por falta de recursos para sua manutenção e até para pagar a conta de luz (*4). Essencial nas análises de dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, o “Tupã” é de responsabilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais – INPE (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) e quase foi desligado já em agosto de 2021. Porém, o desligamento do supercomputador ainda continua previsto para o início do próximo ano (2022).

Mas não pensem que a paralisação do Tupã foi adiada somente por causa da necessidade de prevenir a população em relação aos “eventos climáticos ou meteorológicos extremos”. Aparentemente o desligamento foi postergado porque o supercomputador também é necessário para agricultura. Segundo Gilvan Sampaio, Coordenador Geral da Ciências da Terra:

[...] sem um supercomputador é quase impossível avançar com as previsões. "Não ter uma máquina como essa significa que em médio e longo prazo nós ficamos estagnados. E quem perde são os setores de agricultura, energia e defesa civil, justamente por não ter um avanço para melhor antever uma seca ou episódio de chuvas intensas. Nós perdemos essa capacidade de antecipar cada vez mais esses eventos que tanto afetam a agricultura”, comenta. (*5)

Claro que não tem como deixar de denunciar essas ações deliberadamente genocidas do atual governo negacionista do conhecimento e que prejudica a população brasileira. A não previsão eficiente de eventos climáticos como os que nos atingiu gera: mortes, pessoas feridas, doenças, sofrimentos, perdas materiais do pouco que se tem. Além disso, a política genocida não é uma novidade na forma como o atual governo federal trata o povo, basta lembrar como atuou negando o enfrentamento à Covid-19.

No entanto, mesmo considerando o sucateamento de setores vitais para a população no sentido dos estudos e previsões climáticas e meteorológicas, minha inquietação continua: o Estado (em suas diferentes esferas: federal, estadual e municipal), a Marinha do Brasil e o Sistema Nacional de Defesa Civil não foram informados sobre o “Ubá” e “La Niña” pelas Agências/Institutos Meteorológicos/Climatológicos ainda existentes e pertencentes aos órgãos públicos ou privados, bem como pelas Universidades Públicas.

Agências, Institutos e Instituições como: Instituto Nacional de Pesquisas Especiais – INPE (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações); Instituto Nacional de Meteorologia - INMET (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento); Instituto de Energia e Ambiente da USP – IEA/USP, Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais – CEMADEN (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações); Sistema Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres – CENAD  (Ministério da Integração Nacional), Sistema Nacional de Defesa Civil; Climatempo, MetSul – Meteorologia; entre outros.

Ou será que não é possível mais realizar previsões meteorológicas e climatológicas como ocorreu em 17 de abril deste ano (2021). Numa das publicações da página da Climatempo daquele dia encontramos que estavam previstos temporais gerados por um ciclone subtropical para o dia 19 de abril de 2021:

Novo ciclone subtropical poderá se formar na costa brasileira: Os meteorologistas estão atentos a uma nova área de baixa pressão atmosférica que começa a se desenvolver na costa de São Paulo. [...] O sistema deve estar completamente formado na próxima segunda-feira, 19 de abril [2021]. A Marinha do Brasil já emitiu um aviso de acompanhamento desse sistema. Se esta baixa pressão atmosférica evoluir até uma tempestade subtropical nos próximos dias, deverá ser batizada com o nome de Potira [...], deixando o mar agitado em parte da costa do Sudeste e também do Sul do Brasil.” (*6)

Antes de continuar reafirmo que aqui apresento indagações e não conclusões finais até porque sou leigo nesta área de previsões meteorológica e climatológica. Isto é, são inquietações de quem vive numa das regiões onde ocorreram os efeitos do ciclone subtropical “Ubá” e do fenômeno climático “La Niña” sem ter percebido a divulgação ampla e incisiva de alertas, bem como de ações de prevenção. Não obstante, se os avisos e as ações ocorreram e não percebi deixo aqui minhas antecipadas desculpas pela falta de percepção o que em si já demonstra que não foram amplamente divulgadas de forma incisiva.

Feita a ressalva acima e voltando aos questionamentos: será que não tinha mesmo como prever a formação do “Ubá” e os efeitos da “La Niña”, mesmo considerando os sucateamentos efetuados pelo governo negacionista nesta área? Caso possível a previsão porque não alertaram às populações das áreas que provavelmente seriam afetadas por temporais e vendavais, evitando algumas das tragédias que resultaram em mortes? Caso tenham avisado: por que esse alerta não foi amplamente divulgado ou efetivado na forma de prevenção?

Por isso fui pesquisar os dias anteriores ao “Ubá” e encontrei algumas informações no site da MetSul – Meteorologia do dia 5 de dezembro de 2021. Ou seja, às vésperas da primeira tempestade que nos afetou a MetSul – Meteorologia prognosticava: Ciclone com Trajetória Atípica Durante a Semana na Costa Brasileira, o texto alertava:

Ciclone vai se formar na costa brasileira e tende a percorrer uma trajetória atípica no Atlântico Sul. O sistema deverá ser responsável ainda por chuva excessiva com uma condição perigosa para inundações em alguns estados. [...] Na quarta (8/12/2021) a chuva seguiria forte a intensa no Norte de Minas Gerais e no Espírito Santo com volumes altos nos limites da Bahia com os dois estados. Na quinta (9/12/2021), as mesmas regiões seguiriam com chuva forte a intensa em diferentes pontos e acumulados diários isolados acima de 100 mm. Na sexta (10/12/2021), o quadro pouco se altera no posicionamento das áreas de chuva mais volumosa. [...] Os volumes nestas áreas podem facilmente superar os 200 mm nos próximos sete dias com registros isolados mesmo acima de 300 mm. Sob este cenário de precipitação, será alto o risco de inundações repentinas e por transbordamento de rios, além de alagamentos por chuva forte e possibilidade de deslizamentos em encostas. (*7)

Ao que tudo indica o próprio governo federal sabia do que poderia ocorrer. Numa entrevista ao Jornal da CBN no dia 14/12/2021 o Ministro Rogério Marinho (Ministério do Desenvolvimento Regional), contraditoriamente, informou que a “situação na Bahia estava sendo monitorada desde 28 de novembro por meio do Sistema Nacional de Prevenção, Enfrentamento e Ajuda a Desastres”. Rogério Marinho chegou a ressaltar a atuação “conjunta com a Defesa Civil do estado, informando a possibilidade de ocorrências de fortes chuvas, ações de prevenção e deslocamento de pessoal para a região”.
Segundo o Ministro:

Nós informamos o Estado da Bahia que haveria fortes ocorrências de chuvas, informamos os municípios que poderia acontecer o problema, fizemos um trabalho ligado a questão da prevenção porque você precisa avisar com antecedência [...] deslocamos nosso pessoal para o estado da Bahia já nesta data [provavelmente ele se refere ao dia 28/11/2021], fizemos reunião com os prefeitos e com o coordenador da Defesa Civil da Bahia desde essa época. Nós já estávamos lá com um Centro de Operações montado na cidade de Itamaraju [...]então o governo está fazendo sua parte. (*8)

Porém, pelo jeito as ações federais não foram suficientes ou não tiveram alcance desejado tanto na prevenção do ciclone e posteriormente na tentativa de amenizar suas consequências. Como morador aqui numa das regiões afetadas pelo “Ubá” não acompanhei nenhum alerta e muito menos essas medidas anunciadas pelo Ministro antes do dia 06/12/2021, durante as tempestades e depois da passagem do ciclone. Insisto: caso isto tenha ocorrido, por favor, corrijam minha informação.

Não obstante, os números resultantes dessa primeira tempestade falam por si só.

Sobe o Número de Vítimas pela Chuva Extrema na Bahia: Dados da Defesa Civil Estadual mostram que as intensas precipitações atingiram quase 300 mil pessoas com milhares de desalojados. A Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia (Sudec) confirmou no fim de semana de 18 e 19 de dezembro mais duas mortes em consequências das fortes chuvas que atingem o Sul do estado desde o início de novembro. Segundo o órgão estadual, ao menos 18 pessoas morreram e 276 ficaram feridas em função dos eventos hidrológicos (enxurradas, alagamentos, inundações e deslizamentos) que já afetaram ao menos 299.360 pessoas. Até ontem, 63 cidades baianas já tinham decretado situação de emergência. Com base em informações fornecidas por prefeituras baianas, a Sudec calcula que, até ontem, 15.483 pessoas tinham sido desalojadas, famílias que tiveram que deixar suas casas temporariamente e se hospedar na casa de parentes, amigos ou hotéis, e 4.453 desabrigadas, tendo que ser acolhidas em abrigos públicos ou locais improvisados (*9).

Ainda sobre as medidas posteriores ao ciclone vale destacar que o governo federal até o dia 14/12/2021 tinha liberado somente R$ 5,8 milhões para seis das 63 cidades então em situação de emergência na Bahia (*10).  Para mensurar o quanto é diminuto este valor basta dizer que a mansão do senador Flávio Bolsonaro (PL), localizada em bairro de luxo de Brasília, custou  R$ 6 milhões.

Outra demonstração do descaso no amparo às populações atingidas pelas tempestades transparece num comunicado emitido pela Prefeitura de Jucuruçu (uma das cidades baianas mais atingidas pelas tempestades) no dia 12/11/2021. Constrangida a prefeitura local pediu desculpas aos moradores do lugar por não conseguir auxiliar todas as pessoas que foram afetadas:

“Nossa amada Jucuruçu foi pega de surpresa, no meio da noite, com uma enchente que desabrigou diversas famílias. As águas das fortes chuvas destruíram sonhos, nosso comércio, casas e bens materiais”. (*11)

De acordo com o comunicado da Prefeitura de Jucuruçu a cidade “foi pega de surpresa”. Portanto, mesmo as autoridades de Jucuruçu não foram alertadas sofre as tempestades. Caso isto tenha ocorrido o alerta não foi o suficiente para amenizar os efeitos dos temporais.

A mesma situação se repetiu em relação ao fenômeno climático chamado “La Niña” entre os dias 23 e 25 de dezembro de 2021, tornando o quadro em nossa região mais devastador ainda. Conforme o portal UOL, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais - CEMADEN (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) desde o dia 20 de dezembro/2021 emitiu três alertas de riscos para nossa região que foram compartilhados com o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres – CENAD  (Ministério da Integração Nacional), responsável pelos contatos com as Defesas Civis dos estados e municípios.

O primeiro desses comunicados do CEMADEN era até contundente:

"Risco de novas inundações e deslizamentos de terra na Bahia nos próximos dias", o documento diz: "muito provável ocorrência de chuvas volumosas, especialmente entre os dias 24 e 25 de dezembro, [que] permitem identificar um ALTO RISCO de ocorrência de novos deslizamentos de terra e inundações" (*12)

No entanto, outra vez ao que tudo indica os alertas não foram amplamente divulgados e nem as precauções tomadas. Para José Marengo, Coordenador-Geral de Pesquisa e Desenvolvimento do CEMADEN:

Os alertas servem para minimizar os danos, não é possível zerá-los. Mas não fossem esses alertas, o resultado seria muito pior. Temos ainda cidades não preparadas, ou sem a Defesa Civil para receber essa informação. E há uma dificuldade histórica em retirar moradores de áreas de risco. (*13)

Nas entrelinhas da fala de Marengo aparece um dos pontos principais para pensarmos as razões estruturais pelas quais os alertas não foram/são oferecidos e nem as medidas de preocupações tomadas: “dificuldade histórica em retirar moradores de áreas de risco”. Isto é, a histórica lógica de morte dos que comandam o sistema capitalista que pensam em custos e não em vidas.

Em outras palavras: bio-necropolítica do bio-necropoder onde se mede as despesas e não as vidas. Porém, retomaremos e assunto mais adiante. Para o momento vale realçar que essa estrutural e histórica forma de (não) agir tem custado vidas, aumento da pobreza e sofrimentos imensuráveis como ocorreu e ainda ocorre com às populações do sul, extremo sul, oeste e sudoeste da Bahia e do norte de Minas Gerais.

De acordo com os dados apresentados pela Superintendência de Proteção e Defesa Civil - SUDEC para o dia 31 de dezembro 2021, o número de mortos chegou à 25, com 517 pessoas feridas e 643 mil pessoas atingidas pelas tempestades. Agora são mais de 91 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas, envolvendo 151 cidades em situação de emergência. Esses números correspondem aproximadamente a 30% das cidades baianas em estado de emergência. Só em Itabuna o número de atingidos pelas tempestades, segundo a Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza, envolveu 30 mil pessoas – cerca de 30% da população.

Como da primeira vez, o “auxílio” oferecido pelo governo federal é irrisório diante das necessidades. Um dos supostos “auxílios” oferecido é no mínimo uma crueldade com o Povo Baiano e dos outros estados por que o governo federal “liberou” por medida provisória (MP) R$ 200 milhões para reconstruir estradas atingidas pelas chuvas. O problema é que esse valor é pra ser dividido por cinco estados: Bahia, Amazonas, Minas Gerais, Pará e São Paulo.

Esse “auxílio” ou mesmo disponibilizar o fundo de garantia que pertence aos próprios trabalhadores são ações que demonstram mais uma vez a histórica e estrutural lógica da bio-necropolítica do bio-necropoder dos que comandam o estado capitalista. Claro que esse quadro é agravado pela atuação genocida do governo fascista. Enquanto os temporais afetavam as nossas vidas, o presidente fascista estava de férias no litoral catarinense.

Vale lembrar que mesmo que as chuvas cessem ou diminuam fica o perigo de doenças, novos acidentes por causa das estruturas abaladas das casas, prédios públicos, comerciais, estradas, condições do solo, encostas e rios. Além disso, o perigo de doenças aumenta em plena pandemia de Covid-19 e do vírus da influenza, tais como: leptospirose , hepatite A, hepatite E, doenças diarreicas, febre tifoide, cólera, dengue.

Como explica a Fundação Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ, além da necessidade de alertar a população para eventos como o “Ubá” são necessárias medidas estruturais efetivas após manifestações climáticas como a que ocorreu:

[...] um evento climático ou meteorológico extremo resulta de uma séria interrupção do funcionamento normal de uma comunidade ou sociedade, afetando seu cotidiano. Essa paralisação abrupta envolve, simultaneamente, perdas materiais e econômicas, assim como danos ao ambiente e à saúde das populações por meio de agravos e doenças que podem causar mortes imediatas e posteriores. Uma ocorrência do gênero torna o grupo afetado incapaz de lidar com a situação utilizando os próprios recursos, o que pode ampliar os prejuízos para além do lugar de sua eclosão. (*14)

Motyrõ: o Povo oferecendo Caminhos na Autoconstrução Coletiva de suas Vidas, resistindo e (re)existindo ao capitalismo

Ciente desse quadro apresentado pela FIOCRUZ um outro questionamento surge: por que não são efetuadas medidas estruturais preventivas antes mesmo de eventos climáticos ou meteorológicos extremos acontecerem? Não estou aqui tratando de remoções forçadas de famílias ou de pessoas das chamadas áreas de risco. O que assinalo é construir alternativas de forma participativa para atender as perspectivas de vida e habitacionais dos que vivem em locais de risco e de toda a população despossuída de riqueza material.

Um bom exemplo neste sentido vem da cabeleireira e artesã Samara Ribeiro, moradora de Itabuna que teve sua casa destruída pela cheia do Rio Cachoeira (principal rio que corta aquela cidade) durante as últimas tempestades. Samara junto com cerca de 242 pessoas de 82 famílias precisou se abrigar no Parque de Exposições municipal nas baias que comportam animais durante exposições. Após protestos dos abrigados a prefeitura local procurou transferir as pessoas para Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Porém a cabeleira e artesã foi uma das pessoas que se recusaram a sair do Parque de Exposições porque:

Apesar dos riscos, ela afirma que não vai para a UFSB porque é proibido que ela leve os três porcos que conseguiu salvar durante a enxurrada. Além disso, ela, que teve a casa e o comércio do marido destruídos, afirma que no abrigo da faculdade é necessário cumprir regras como não sair do local depois das 18 horas. “Já não basta tudo que estamos vivendo e ainda precisamos cumprir regras em abrigos? Eu que não vou ficar aprisionada”, afirmou. Samara também afirma que a faculdade é longe do lugar onde reside e que não quer ficar longe dos seus animais. Além dela, o marido, duas filhas e crianças e outros parentes estão abrigados no parque. (*15)

Insisto: é necessário construir coletivamente e de forma participativa caminhos para moradia popular gratuita, atendendo as perspectivas de vida dos que habitam. Tem que ser gratuita porque senão não é popular.

Não se trata de implementar práticas históricas de exclusão das camadas populares da população. Em dois dos meus livros (“Nem Tudo Era italiano – São Paulo e Pobreza” e “Identidade Urbana e Globalização”), discutindo especificamente a cidade de São Paulo e Guarulhos, analiso como os donos do poder político e econômico usam os discursos de urbanidade, segurança, higiene, combate às moradias de risco para implementar práticas de limpezas socioculturais, expulsões e exclusões.

São exemplos históricos neste sentido o combate à cortiços, favelas, moradores em situação de rua, habitações em áreas consideradas irregulares, de risco, perseguições ao comércio popular, diferentes formas de trabalhar e expressar tradições socioculturais. (*16)

O caminho que assinalo é outro porque parte do princípio da construção participativa de soluções para a habitação popular e criação de infraestruturas atendendo as perspectivas de vidas e vivências das pessoas. Soluções por vezes já existentes nas formas como o próprio povo constrói suas moradas e vivências, resistindo às imposições e (re)existindo em suas tradições.

Assim, tomando como exemplo Ilhéus, município onde fica a Terra Indígena onde moro e que também foi atingida pelo ciclone subtropical “Ubá” faço as ponderações a seguir, seguindo o levantamento feito pelo site da Câmara Municipal da cidade:

Números estimados pela Defesa Civil apontam que, hoje, residem nos altos e morros de Ilhéus 17 mil famílias em áreas de anormalidade (sem regulamentação de imóveis e onde sequer chegam serviços essenciais), 5 mil famílias em áreas de risco e mais 20 mil famílias em áreas de morro. Em todos estes locais há necessidade de intervenções para garantir a segurança dos seus habitantes. Dos 45 altos e morros, apenas 12 têm acessibilidade de veículos com serviço de transporte público, mesmo assim de forma precária. A maioria destas localidades conta apenas com escadarias. (*17)

Desta forma, feito o levantamento da situação cabe a criação de políticas públicas participativas junto com as comunidades mencionadas para enfrentar os riscos a que estão submetidas. As intervenções não podem ser práticas unilaterais do poder público e sim formas conjuntas respeitando as populações.
Aliás, as ações contando com a participação popular nas decisões estão previstas pela Lei Federal No. 10.257, de 10 de julho de 2001. Chamada de “Estatuto da Cidade” essa Lei tem 20 anos e assinala que as cidades deveriam possuir: um planejamento participativo; função social da propriedade (os imóveis precisariam servir para moradia, comércio, lugar de trabalho); estudo de Impacto Ambiental e Social.

Ainda conforme o “Estatuto da Cidade” é preciso garantir: [...] o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações. (*18)

Do mesmo modo, pensar e agir assim não se trata de uma utopia ou devaneio impraticável. Um exemplo de ações pensando na moradia das camadas populares da população de forma participativa foi a atuação da prefeita Luiza Erundina na cidade de São Paulo entre 1989 e 1992. Em sua gestão a prefeita desenvolveu o Programa de Construção por Mutirão e Autogestão: “os mutirões foram pensados como solução habitacional de baixo custo onde os próprios ‘mutirantes’” num sistema de “autogestão eram responsáveis pela construção da unidade e também pela administração do empreendimento”. (*19)

Vale observar que o mutirão é uma palavra de origem tupy: potyrom ou motyrõ que significa “pôr as mãos juntas, trabalhar juntos, trabalho em comum". Alguns chamam este processo de Arquitetura Vernacular, Bioconstrução ou Popular. Prefiro chamar essa forma de construir de Manejo da Autoconstrução Coletiva Originária ou Popular. Um manejo que depende de condições geográficas, climáticas, aspectos socioculturais específicos.

Os Povos Indígenas sempre praticaram essa forma de construir suas habitações. A uka (oca) onde moro na Aldeia Gwarïnï Taba Atã na Terra Indígena Tupinambá de Olivença (Ilhéus/Bahia) foi assim construída, bem como as demais. As imagens que seguem demonstram a Comunidade da Aldeia Itapuã também daqui do Território Tupinambá de Olivença construindo em Mutyrõ e na tradição da taipa a sede da nova Escola Estadual Indígena Indígena Amotara. (*20)



Fotos: Comunidade da Aldeia Itapuã na Terra Indígena Tupinambá de Olivença em Mutyrõ; constrói na tradição da taipa a sede da nova Escola Indígena Amotara. Data: 18/01/2019. Autoria/Fonte: Ayra Tupinambá.

Nas cidades vejo em alguns lugares, especialmente nos territórios das camadas populares, várias características dessa forma de construir indígena e também considerando as condições climáticas, geográficas e socioculturais. Até porque muitas das pessoas que habitam as periferias ou as chamadas áreas de risco tem suas origens na indianidade. Assim, a exemplo de como atuou a Prefeita Erundina e como indica o Estatuto da Cidade é possível utilizar as experiências populares de construção de suas casas nos projetos para evitar áreas de risco.



Fotos: Mutirão em Heliópolis na periferia paulistana que assim como em várias cidades as comunidades se organizam coletivamente para construir suas habitações. Data: 1994. Autoria/Fonte: Juca Martins / https://olhar.photoshelter.com/gallery-image/FAVELA/G0000ubBGjF4WYnQ/I0000eDawtHrtDa0


Foto: Início da ocupação Anita Garibaldi em Guarulhos/SP. Aquela comunidade em regime de mutirão construiu suas casas e tornou o local hoje um bairro da cidade de Guarulhos. Data: 2002. Autoria: Mauricio Pinheiro.

Mas por que parecem impossíveis práticas como o Programa de Construção por Mutirão, Autogestão e aplicação dos caminhos apontados pelo Estatuto da Cidade? Esse é mais um questionamento que se soma aos anteriores. Por qual motivo muitas pessoas não questionam a falta de alertar às populações avisando sobre eventos climáticos ou meteorológicos extremos como o que nos atingiu? Qual a razão de muitos não se questionarem sobre a ausência de medidas preventivas (mesmo que provisórias) quando é possível prever ciclones como o “Ubá”? Como é possível não contestarmos o descaso ou pouca ação do Estado junto as populações afetadas por “eventos extremos”?

Existem mesmo os que atribuem a culpa dos eventos como o “Ubá” e “La Niña” às explicações genéricas universais, tais como:

– "o que ocorreu é culpa do próprio ser humano".
– "o culpado é do juruá ou cari".
– "é a natureza se vingando".

Isto quando não se responsabiliza as vítimas com frases como:

– "também ... quem mandou morar naquele lugar".
– "são essas pessoas que mais sofrem as que mais degradam a natureza".

As vezes percebo a falta de ponderações mais profundas e estruturais mesmo entre os que lutam por direitos, participam de movimentos sociais, identitários e partidos de esquerda. Isto transparece quando as pessoas vitimadas por eventos climáticos ou meteorológicos extremos aparentam não serem organizadas em movimentos sociais e/ou não se autodeclaram em algumas das identidades possíveis ou idealizadas. São as pessoas que estão fora das pautas mesmo dos que militam em movimentos sociais e identitários.

Como escrevi antes, aqui em Ilhéus uma grande parte dos que foram vitimados pelas tempestades (melhor seria: descaso do estado) é composta por pessoas moradoras em áreas de risco. Pessoas que não estão em nenhum território considerado indígena ou quilombola e não necessariamente se autodeclararem ou se organizarem em movimentos sociais e identitários. Mesma ponderação acredito que vale para as diferentes pessoas atingidas pelo “Ubá” e “La Niña” nas diversas áreas do sul, extremo sul, oeste e sudoeste da Bahia e no norte de Minas Gerais.

Porém, questiono: quais as origens étnicas e sociais da maioria das pessoas vitimadas e esquecidas pelo estado aqui nas áreas afetadas? Quais as ancestralidades daquelas e daqueles que moram em áreas de risco e que são despossuídas de riquezas materiais?

Como pondera Frantz Fanon, o caminho é refletir sobre a necessária decolonização. (*21) Isto é, precisamos enfrentar um processo de culpabilização dos próprios pobres pela pobreza. Combater psicopatologias que tentam introjetar nas subjetividades uma rede de autorresponsabilização por não se adaptarem a chamada “civilização” ou a posturas idealizadas. Posições que tiram de foco o estrutural processo de colonização, enriquecimento, racismo e desigualdade social do sistema capitalista.

Assim, na minha percepção, são expressões da colonialidade assinalar que a culpa da pobreza é dos próprios pobres; responsabilizar pelos eventos naturais extremos o “ser humano” como uma categoria genérica universal; atribuir à vingança da natureza acontecimentos como o ciclone subtropical “Ubá” e “La Niña”; não ter empatia ou solidariedade aos que não se organizam ou se identificam com as formas como desejamos, mesmo sendo excluídos.

Precisamos ser solidárias/solidários e unidas/unidos na luta resistente e (re)existente de todas as pessoas marginalizadas e excluídas pelo estado, grupos que possuem o poder econômico/político e pelo capitalismo.

Na minha compreensão eventos extremos como o “Ubá” e “La Niña” têm relação com a existência do capitalismo. Segundo o climatologista Francisco Eliseu Aquino, Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

“Neste momento, não conecto diretamente as mudanças climáticas com esse evento extremo", pondera. "Mas, num planeta mais quente, eventos extremos tornam-se mais frequentes, com a formação de depressões subtropicais como esta [vista na Bahia]", finaliza. (*22)

A contínua exploração da natureza, bem como o aumento da já elevada desigualdade social são fatores que provocam desequilíbrios naturais e cada vez mais colocam pessoas em situações de perigo. Pessoas que geralmente pertencem as camadas populares da população e são vítimas dos que estão a frente de instituições, empresas, organizações, estados e corporações. Dirigentes adoecidos de wetiko - que é uma palavra usada “por grupos indígenas norte-americanos” para denominar um “patógeno [que] engana seus hóspedes, levando-os a acreditar que obter a força vital dos demais (plantas, animais, pessoas etc.) é uma forma lógica e racional de existir. Em outras palavras, é o vírus do egoísmo (…) (*23)

Cada dia mais a destruição em nome do capital vem devorando as matas, bichos, povos e águas de tudo quanto é lugar. Essa fome insaciável tem vários nomes de empresas, pessoas, estados, corporações, instituições, organizações. Nomes que tentam se disfarçar com o “manto” nada sagrado de civilização e do desenvolvimentismo. Por vezes também aparecem disfarçados em “empreendedorismos”, “sustentabilidade”, “ecologismo” e “ambientalismo de resultado”.

Novos questionamentos surgem então: como acreditar nas resoluções da Conferência do Clima (COP26) no enfrentamento da “urgência ambiental” sem discutir o capitalismo que em si é devastador da natureza? Por que também não discutir o fim da exploração do homem pelo homem, do trabalho humano e das desigualdades que geram as ocupações de risco? Por que não debater o fim das desigualdades sociais e econômicas? Porque também não falam da crise do capitalismo que gera governos fascistas, ditatoriais e falsos democratas.

Os seres humanos que comandam a destruição estrutural e sistemática da natureza possuem nomes e dirigem política e economicamente o capitalismo em seu plano estatal e nos setores privados. A Natureza em nossa concepção não é vingativa, mas está em sua sabedoria nos avisando para pararmos as atuações dos que estruturalmente dizimam o meio natural e cometem os ecocídios.

Refletimos que se não enfrentarmos a doença do capital, devastadora da Natureza e dos direitos humanos, novos eventos climáticos ou meteorológicos extremos, patógenos e comorbidades como a covid-19 podem surgir ameaçando a vida como um todo. Não entendam essas palavras como manifestações distópicas, melancólicas, conformistas, fatalistas. Sou Indígena e como os Povos Originários resistimos e (re)existimos mais de cinco séculos de invasões, genocídios, etnocídios e ecocídios.

Por isto questionamos no início deste texto: será que foram só os temporais que abalaram e ainda acometem as populações despossuídas de riqueza material do sul, extremo sul, oeste e sudoeste da Bahia e no norte de Minas Gerais?

Os chamados eventos climáticos e meteorológicos extremos são os únicos responsáveis por afetarem as vidas, geralmente das pessoas mais carentes materialmente pelo país afora, resultando em mortes, ferimentos, doenças e perdas do pouco que se tem? Ou será que o capitalismo e seus mandatários também possuem responsabilidades?

Reafirmo que precisamos ser solidárias/solidários e unidas/unidos nas lutas resistentes e (re)existentes das pessoas que não são organizadas em movimentos sociais e/ou que não se autodeclaram em algumas das identidades possíveis ou idealizadas. Meu caminhar é de inspiração Zapatista e de união à todes que sofrem e lutam contra o capital no cotidiano. Precisamos lutar por  um mundo ondem cabem vários mundos, com justiça social, respeitando as diferenças.

Quando perguntaram ao zapatista Subcomandante Marcos porque cobria o rosto, ao finalizar sua resposta ele disse ...

“Marcos é: todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e aguentar. Todos os intolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos. A vezes é necessário cobrir o rosto para mostrar a realidade”.

Os potyrom, motyrõ, mutirões populares são expressões desses caminhos de construção coletiva, autônoma e às margens do poder do estado. Na ausência do estado e do capital o povo não cansa de nos oferecer exemplos de resistências e (re)existências à bio-necropolítica que mantém o bio-necropoder do capitalismo. Alguns desses caminhos vêm durante estes momentos de sofrimento como ocorre aqui em terras baianas.

O Povo da cidade de Vereda (BA) realizou um motyrõ e improvisou uma ponte com pedras e troncos para liberar o acesso daquele município no sentido de veículos passarem “levando mantimentos e resgatando moradores no município de Jucuruçu (BA)”, ilhados por causa das enchentes dos rios. (*24) Já algumas pessoas moradoras de Coaraci e Itapitanga aqui no Sul da Bahia fizeram uma "corrente humana" para “poder transportar doações a pessoas afetadas pelas fortes chuvas, depois que um trecho da BA-561 se rompeu ( …)” (*25)

Motyrõs populares que fazem lembrar de algumas das canções que cantamos em nossos porancys e torés:

Vamo, vamo minha gente
Uma noite não é nada
Vamo vê se nós acaba
Com resto da empreitada

Aqui chegou foi o Povo
No romper da madrugada
Vamo vê se nós acaba
Com resto da empreitada

AWÊRÊ AIÊNTÊN !!!


Notas

1. Os nomes dos Parentes que aparecem neste diálogo foram recriados para presente narrativa no sentido de resguardar os mesmos. A conversa foi aqui reproduzida com algumas alterações até porque estava guardada na memória que as vezes é etérea.

2. O nome “Ubá” dado pela Marinha do Brasil ao ciclone subtropical que nos afetou é de origem tupy e significa Canoa. A Marinha utiliza uma série de nomes indígenas para denominar “eventos climáticos ou meteorológicos extremos” como o que ocorreu: Arani (tempo furioso); Bapo; Cari (homem branco);  Deni (tribo indígena); Eçaí (olho pequeno); Guará (lobo do cerrado); Iba (ruim); Jaguar; Kurumí (menino); Mani (deusa indígena); Oquira (broto de folhagem); Potira (flor); Raoni (grande guerreiro); Ubá (canoa indígena); Yakecan (o som do céu) (In: CLIMATEMPO, Clima e Previsão do Tempo. Novo ciclone subtropical poderá se formar na costa brasileira. Acesso em: https://www.climatempo.com.br/noticia/2021/04/17/novo-ciclone-subtropical-podera-se-formar-na-costa-brasileira-9190).

3. “Evento climático e meteorológico extremo” é forma como os especialistas em climatologia e meteorologia chamam acontecimentos como o ciclone subtropical “Ubá” que nos atingiu.

4. O nome Tupã faz menção a uma das manifestações da nossa cosmologia indígena.

5. NOTÍCIAS AGRÍCOLAS. Supercomputador Tupã não será desligado em 2021: Brasil precisa atualizar máquina, mas previsões são mantidas, diz INPE.
Acesso em: https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/clima/294364-supercomputador-tupa-nao-sera-desligado-em-2021-brasil-precisa-atualizar-maquina-mas-previsoes-sao-mantidas-diz-inpe.html#.YbnZ9b3MLIU , 05/08/2021.

6.  CLIMATEMPO, Clima e Previsão do Tempo. Novo ciclone subtropical poderá se formar na costa brasileira. Acesso em: https://www.climatempo.com.br/noticia/2021/04/17/novo-ciclone-subtropical-podera-se-formar-na-costa-brasileira-9190 , 17/04/2021

7. METSUL – Meteorologia. Ciclone com Trajetória Atípica Durante a Semana na Costa Brasileira. Disponível em: https://metsul.com/ciclone-com-trajetoria-atipica-durante-a-semana-na-costa-brasileira/ , 5/12/2021.

8. CBN, Jornal da. Ministro descarta necessidade de conversa com governador da Bahia sobre estragos da chuva. Acesso em: https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/361227/ministro-descarta-necessidade-de-conversa-com-gove.htm , 13/12/2021,

9. METSUL – Meteorologia. Sobe o Número de Vítimas pela Chuva Extrema na Bahia. Disponível em: https://metsul.com/sobe-o-numero-de-vitimas-pela-chuva-extrema-na-bahia/ , 19/12/2021.

10. FOLHA/UOL, Cotidiano.  Após temporal na Bahia, famílias reviram lama e temem por futuro. Acesso em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/12/apos-temporal-na-bahia-familias-reviram-lama-e-temem-por-futuro.shtml , 14/12/2021.

11. Jucuruçu foi uma das cidades mais abaladas pelas tempestades onde “mais de 500 famílias foram desabrigadas. Casas e pontes foram arrastadas e as equipes de saúde tiveram que transferir o atendimento à população para um local provisório depois que o prédio da Secretaria Municipal de Saúde foi totalmente danificado”. (In: METSUL – Meteorologia. Sobe o Número de Vítimas pela Chuva Extrema na Bahia. Disponível em: https://metsul.com/sobe-o-numero-de-vitimas-pela-chuva-extrema-na-bahia/ , 19/12/2021.

12. UOL, Portal. Bahia: órgão federal emitiu 3 alertas de risco de inundações. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/12/28/orgao-federal-emitiu-alertas-mas-chuva-superou-todas-as-previsoes-na-bahia.htm?cmpid=copiaecola , 28/12/2021.

13. UOL, Portal. Bahia: órgão federal emitiu 3 alertas de risco de inundações. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/12/28/orgao-federal-emitiu-alertas-mas-chuva-superou-todas-as-previsoes-na-bahia.htm?cmpid=copiaecola , 28/12/2021.

14. FIOCRUZ, Fundação Instituto Oswaldo Cruz. Análise de Situação em Clima e Saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica - Icict, Ministério da Saúde, Organização Panamericana de Saúde - Opas, 2017. Disponível em: https://climaesaude.icict.fiocruz.br/tema/eventos-extremos-0 , 2017.

15. CORREIO 24 HORAS, Após cheia do Rio Cachoeira, 82 famílias se alojam em baias de animais em Itabuna. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/apos-cheia-do-rio-cachoeira-82-familias-se-alojam-em-baias-de-animais-em-itabuna/ , 31/12/2021.

16. Os dois livros de minha autoria que foram mencionados são: ANGATU, Casé (SANTOS, Carlos José F. dos). Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza na virada do século (1870-1915). São Paulo: Annablume/FAPESP, 4a. Edição 2018; &  ANGATU, Casé (SANTOS, Carlos José F. dos). Identidades Urbanas e Globalização – a formação dos múltiplos territórios em Guarulhos/SP. São Paulo: SINPRO/GRU, 2006.

17. ILHÉUS, Câmara Municipal. Comissão dos Altos e Morros de Ilhéus Visita o Amparo, Legião e Soledade. Disponível em: https://www.camarailheus.ba.gov.br/Site/Noticias/noticia-071220212112261673-COMISS-O-DOS-ALTOS-E-MORROS-DE-ILH-US-VISITA-O-AMPARO-LEGI-O-E-SOLEDADE , 07/12/2021

18. BRASIL, República Federativa do. Estatuto da Cidade   - Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001 que regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências. Disponível em: https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/101340/estatuto-da-cidade-lei-10257-01

19. “Implementado pela Prefeitura de São Paulo em parceria com 108 Associações Comunitárias e 24 entidades de assessoria técnica, o Programa beneficiou cerca de 60 mil pessoas. Os recursos foram oriundos do Fundo Municipal de Habitação e do Ministério das Cidades”. (In: CEDEM, Centro de Documentação e Memória da UNESP. Habitação social da prefeita Erundina é referência internacional. Disponível em: https://www.cedem.unesp.br/#!/noticia/173/habitacao-social-da-prefeita-erundina-e-referencia-internacional/ , 29/11/2016).

20. As fotos fazem parte do seguinte estudo: AYRA TUPINAMBÁ, Vanessa Rodrigues dos Santos. Aupaba Anamã Jycayba: Mbaecuaba-Eté Mboessaba Tupinambá Amotara – Taba Itapuã = Território E (Re)Existência Na Educação Escolar Indígena Tupinambá Decolonial: Colégio Estadual Indígena Tupinambá Amotara (Aldeia Itapuã – Olivença –Ilhéus/BA). Terra Indígena Tupinambá: Dissertação de Mestrado apresentada junto ao PPGER/UFSB. Disponível em: file:///C:/Users/casea/Downloads/Vanessa_R_Santos_-_Verso_Final_28_12_2020_1%20(3).pdf , 2020.

21. FANON, F. Os Condenados da Terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2006.

22. BBC MEWS. O que causou tempestade atípica que arrasou o sul da Bahia. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59617328 , 10/12/2021.

23. REDAÇÃO, Outras Palavras. “Wetiko, a grande doença psíquica do Ocidente?”. In: Outras Palavras. Disponível em: https://outraspalavras.net/sem-categoria/wetiko-a-doenca-psiquica-do-ocidente/ , 21/01/2020.

24. UOL, Cotidiano. Mutirão improvisa ponte com pedra para liberar acesso a cidade ilhada na BA. Acesso em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/12/13/moradores-e-prefeito-improvisam-ponte-para-chegar-a-municipio-ilhado-na-ba.htm?cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola , 13/12/2021.

25. UOL, Cotidiano. BA: Moradores fazem 'corrente' para levar doações após cratera abrir em via. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/12/28/moradores-fazem-corrente-para-levar-doacoes-na-bahia.htm?cmpid=copiaecola , 28/12/2021.

Sobre o Autor: Casé Angatu - Indígena e morador no Território Tupinambá em Olivença (Ilhéus/BA) na Taba Gwarïnï Atã – numa das áreas afetadas pelas tempestades causadas pelo ciclone subtropical Ubá que abalou as populações do Sul, Extremo Sul, Oeste, Sudoeste da Bahia e Norte de Minas Gerais. Leciona no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia (PPGER-UFSB) e na Universidade Estadual de Santa Cruz – (UESC/Ilhéus/BA). Pós-Doutorando em Psicologia na UNESP/Assis/SP; Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP); Mestre em História pela PUC/SP; Historiador pela UNESP; autor dos livros: Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e Pobreza na Virada do Século: 1890-1915 (4a. Edição – 2018); Identidades Urbanas e Globalização: constituição dos territórios em Guarulhos/SP (2006); um dos Autores dos Livros: Índios no Brasil: Vida, Cultura e Morte (2018);  A Lei 11.645/08 nas artes e na educação: perspectivas indígenas e afro-brasileiras (2020); Dossiê: De/S/Colonização Estética: Saberes Tradicionais, Artes, Dissidências (2021); Literatura comparada, ciências humanas, cultura, tecnologia. (2021).

A Coluna Imbaú é um espaço aberto no Correio da Cidadania junto de organizações e indivíduos indígenas de 13 etnias diferentes, com a finalidade de divulgar as produções e o pensamento dos povos originários brasileiros e suas pautas.


CONTRIBUIÇÕES
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A UESC-SOLIDÁRIA - SOS Sul da Bahia é uma ação gerida pela: AFUSC (Sindicato dos Funcionários Administrativos da UESC); ADUSC/ANDES (Associação de Docentes da UESC / Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior); Representantes Discentes; DCE-Carlos Marighella; com apoio da PROEX (Pró-Reitoria de Extensão da UESC). A UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz) fica entre Ilhéus e Itabuna e atende pessoas de várias cidades do Sul da Bahia.

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(OBS: o nome que aparece na conta PIX é do Presidente da AFUSC - Sindicato dos Funcionários Administrativos da UESC)

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