Correio da Cidadania

Sobretudo, é preciso mudar




Foto: Brasil de Fato

Esse ano de 2022 inaugura o terceiro de uma pandemia e o quarto de um governo militar eleito com um presidente que é tido como nazista por alguns especialistas no tema. Estamos todos muito esgotados do que se tornou o Brasil desde o golpe de 2016. Não é possível saber como seria a continuidade do governo Dilma, mas é claro o que se tornou o país desde então: aumento da crise de representação, ascensão de Bolsonaro, dificuldades de organização da luta popular, expansão da vida digital, diminuição dos espaços públicos de ação e uma pandemia que veio nos despertar o que há de pior. As decisões do atual governo militar nos levaram de volta à fome e miséria, inflação alta e crise econômica talvez só comparável ao que tínhamos antes do Plano Real. Esse preâmbulo sinaliza a gravidade dos tempos que correm e o que, no Brasil, pode sinalizar como mudança dessa situação que se agrava a cada dia mais.

Um primeiro ponto a se destacar nessa mudança passa pelas eleições. É urgente que tiremos Bolsonaro e, ao mesmo tempo, é lamentável que ele tenha conseguido instalar o caos institucional durante três anos e ainda tenha mais um ano para continuar seu projeto de destruir o que puder até que, quem sabe, saia de onde nunca deveria ter chegado. A responsabilidade disso não pode ser colocada só na conta institucional, aliás. Olhando para frente, teremos que lidar com um nível de tensão diária que muito provavelmente se esticará para além desse ano, tendo em vista os efeitos do chamado bolsonarismo na sociedade brasileira, por mais que seja esperado que sua força diminua com a saída da presidência de seu representante.

Ainda nesse ponto eleitoral, parece que Lula voltará a governar a partir de 2023. Não cabe agora imaginar como será o governo, estamos nos primeiros dias de janeiro, mas a busca por acordos com Alckmin, Kassab e políticos do MDB nordestino, bem como um certo distanciamento de partidos de esquerda, sinaliza que só poderemos esperar que seja um corte na barbárie bolsonarista. A questão que mais me desperta apreensão é o que fazer com os cerca de seis mil militares em cargos no governo atual.

A contar pela reação ao general que comandará as eleições como diretor do TSE, melhor não esperar muita coisa nesse sentido. Os acordos por cima prevalecem. Ao mesmo tempo, parece que finalmente entramos no dilema “não existe alternativa” eleitoral. Ou nem existe dilema, pois faz tempo que as eleições são isso mesmo: uma ausência de escolha, um mero espetáculo da representação, com todas as desculpas aqui aos legítimos defensores da soberania popular pela via eleitoral. Que venha Lula, e que ele possa ao menos amenizar o estrago, que foi muito grande e ainda pode se intensificar no ano que resta a Bolsonaro. O cenário de 2023 será muito diferente daquele de 2003.

Para finalizar, creio que as diferentes crises irão se intensificar (falo da política, da econômica, da sanitária e da ambiental, principalmente). Estamos em um período crítico da vida mundial, de decadência de um sistema que se mostra cada vez mais um zumbi (falo do capitalismo mesmo).

A questão entre os que estão “embaixo” passa a ser como articular os diferentes vetores organizativos que agem no mundo como um todo para pensar novos arranjos produtivos e sociais que permitam formas de existência alternativas. Isso é desafiador. Resta saber se isso será possível frente ao tecnofeudalismo digital das corporações tecnológicas e o aumento vertiginoso de eventos climáticos drásticos que não podem mais ser escondidos. Talvez não seja bem o fim da existência humana na Terra, como diz a música farofa do carnaval que virou meme, mas o fim próximo de um determinado modo de existência que hegemoniza as pessoas de um modo geral e que se denomina genericamente como capitalismo. Mas aí já estou entrando no terreno da crônica e do devaneio, próprio dos primeiros dias do ano.

Vamos lá, Lula lá, o resto a gente briga e resolve depois. Feliz 2022 e até a próxima!


Marcelo Castañeda é sociólogo e professor da UFRJ.