Correio da Cidadania

América Latina 2021: retrospectiva




Foto: Protestos na Colômbia – Paro nacional. Commons Wikimedia.

1. Os governos responderam de forma distinta às tensões acirradas pela pandemia. E também as populações. Na América do Sul, rebeliões eclodiram no Paraguai e na Colômbia, enquanto no Peru as ruas reagiram a mais um impeachment ilegítimo, derrubando um presidente. No Chile, a peste foi insuficiente para desmobilizar a população e os desdobramentos eleitorais da rebelião destampada em outubro de 2019 ganharam, inicialmente, os contornos de um protesto, sob outra forma.

2. Os fluxos da rebeldia durante a pandemia evidenciam uma relação antitética entre progressismo e rebelião: onde o progressismo está mais vivo como forma política, mais velas ainda são acesas no altar eleitoral, e menos chances há de as ruas destamparem. Mais do que uma esperança política, o progressismo se converteu em uma política da espera.

3. Do ponto de vista da ordem, Chile, Peru e Colômbia vivem, em um momento tardio, o desgaste das formas políticas associadas ao neoliberalismo. Formas que em outros casos foram reconstituídas pelo progressismo – como no México. Nesses países que ficaram fora da onda, as rebeliões produzem uma crise de legitimidade comparável à que desembocou no progressismo, e as formas de encaminhamento desta crise tendem a mimetizá-las: entre eleições e Constituições, é possível que o alcance da mudança se limite a um reordenamento político e institucional.

4. Está claro que a demanda constitucional é justa e legítima nos três países. Mas quando recordamos que Venezuela, Bolívia e Equador também reescreveram constituições no começo do século, é inevitável o sabor amargo da reprise. Nesses países, o quadro institucional foi reordenado para estabelecer as balizas de um novo padrão de dominação ― uma hegemonia progressista, poderíamos dizer.

5. Ou nem isso. No Chile, os “novembristas” que acordaram com Piñera, apostaram que o protesto das ruas ganharia forma eleitoral. Foi uma aposta arriscada, que em um primeiro momento pareceu exitosa. O povo endossou a constituinte, então dominada por candidatos independentes e de esquerda. A direita ficou sem poder de veto e uma mulher mapuche assumiu a presidência. O berço do neoliberalismo prometia a tumba do neoliberalismo.

Nesse contexto, o ex-líder estudantil Gabriel Boric emergiu como uma versão renovada e radical do progressismo. Mas, ao mesmo tempo, ganhou força um desejo de ordem e o pinochetista Jose Antonio Kast venceu o primeiro turno presidencial.

6. O drama chileno merece reflexões profundas, que não cabem aqui: de onde vem a força de uma retórica anticomunista, em um mundo em que o comunismo não existe? Parece que sua eficácia está na produção do conformismo.

Mas que mundo é esse, em que as pessoas preferem o sofrimento conhecido a investir no novo? De onde vem a força do medo e o desejo de ordem? A despeito do seu desenlace, a eleição presidencial chilena nos lembra que as pessoas podem odiar o existente, em nome de algo pior.

7. Boric dificilmente abrirá as alamedas por onde passará o homem livre, como desejou Allende. Mas tampouco se carimbou o fim da história: o futuro chileno não está mais sequestrado pelo passado.

Se o golpe de 73 congelou a revolução na América do Sul, a vitória de Kast congelaria a rebelião.

8. A mudança no continente, se mudança virá, vem de ruas que não foram pavimentadas pelo progressismo, e não mais dos países sob sua gestão ou na expectativa dela, como era o caso há vinte anos. A rebeldia no Chile, na Colômbia e no Peru não cabe em urnas progressistas.

No entanto, esta potência rebelde está em busca de novas linguagens políticas para instituir um mundo diferente. Premida entre o descrédito do socialismo do século 20 e a colonização da subjetividade pelo mundo da mercadoria, a potência criadora das ruas arrisca a se tornar cativa da gramática da ordem, que produz essa rebeldia.

9. As disputas eleitorais no Equador e no Peru em 2021 indicam que o tempo do progressismo está passando, enquanto forma da expectativa de mudança. No Equador, a fissura no progressismo abriu espaço para uma candidatura em defesa da natureza, enquanto no Peru os sentires populares foram cativados por um outsider, deslocando o lugar da esquerda convencional. Esses sinais dos tempos não significam nenhum determinismo, pois há países em que a forma progressista ainda condensa esperanças ― seja porque nunca chegou, como na Colômbia, seja porque nunca termina de partir, como no Brasil.

10.  A candidatura indígena foi denunciada pelo progressismo como um cavalo de Troia da direita e dos Estados Unidos. Nada surpreendente, já que Rafael Correa denunciou o “esquerdismo”, o “ecologismo” e o “indigenismo” como seus piores inimigos. E não foi retórica: Yaku Pérez foi preso seis vezes e na última delas foi chicoteado por um látego com pregos nas pontas. Não é preciso maquinações do imperialismo para entender porque Yaku pregou o voto em branco no segundo turno, quando o correísmo foi derrotado.

11. A violência correísta é sintoma de um fenômeno mais amplo: tendências repressivas na região não se restringem aos países comandados pela direita, mas emergem também no seio do progressismo. O regime mais próximo a uma ditadura dos tempos da Guerra Fria não é a Colômbia de Ivan Duque nem o Brasil de Bolsonaro, mas a Nicarágua de Ortega.

12. Na Venezuela, passados mais de vinte anos de bolivarianismo, constata-se um tecido social esgarçado, em que a corrosão das instituições e a informalização da economia produzem um cotidiano atravessado por corrupção e violência. A militarização do Estado se intensificou, enquanto proliferam poderes paraestatais à moda colombiana, costurando uma economia política da delinquência.

Bolsonaro se elegeu denunciando o risco de que o país virasse uma Venezuela. Parece que acertou o diagnóstico, mas não o caminho.

13. Enquanto isso, Cuba descobre que tem mais em comum com os países da região do que se gostaria. Desde o colapso soviético, a revolução está na defensiva. O «socialismo primitivo»  enfrenta uma equação econômica insolúvel, em um mundo nada socialista e muito primitivo. Como em toda a região, os impasses se agravam e as insatisfações também. Premido entre o instinto do controle e o anseio da mudança, o Estado se revela desconectado da população, para quem o passado é revolucionário, mas é passado.

14. Emilia Viotti dizia que a América Central é a caricatura da América Latina. Ou seja: onde os traços característicos do continente aparecem mais exagerados. Se a dessocialização neoliberal intensifica a violência econômica e política em toda parte, nesta região descobrimos diferentes vias do autoritarismo.

Na Nicarágua, encontramos o progressismo como tirania, apoiando-se cada vez  mais na força bruta e na fraude. Podemos dizer que é um autoritarismo à moda antiga.

Em El Salvador, o «millennial» Nayib Bukele invadiu o congresso escoltado por militares e destituiu a Corte Suprema, enquanto reina nas redes sociais. O «ditador mais cool do mundo mundial» como se autodescreveu, comanda o congresso, instituiu o bitcoin como moeda nacional, goza de altos níveis de aprovação e é emulado na região. O futuro do autoritarismo lhe pertence.

15. Mas talvez a situação mais eloquente para os brasileiros seja Honduras. Este país testemunhou o primeiro golpe jurídico-parlamentar-midiático da região em 2009, contra o liberal Manuel Zelaya. Desde então, o país foi comandado pelo Partido Nacional e, mais especificamente, por Juan Orlando Hernández (JOH). Vínculos crescentes entre narcotráfico, paramilitarismo e diferentes braços do poder estatal deram contornos a um narcoestado. Em 2017, JOH impôs de modo fraudulento a reeleição - que ironicamente tinha servido o pretexto para depor Zelaya. O país que foi o protótipo da «república bananeira» no século 20 derivou para uma narcoditadura.

16. Neste quadro, a pergunta é: como foi possível a eleição de Xiomara Castro, esposa de Zelaya?  Para o campo opositor, só um triunfo incontestável à maneira de AMLO no México impediria uma nova fraude.

Foi a degradação hondurenha que viabilizou alianças com a direita. E o beneplácito dos Estados Unidos, que se vincula ao país pela questão migratória e pelas drogas. Enquanto as caravanas migratórias crescem, o irmão de JOH foi condenado pelos tribunais e numerosos fios soltos vinculam o presidente ao narcotráfico. Estes apoios à direita criaram uma situação na qual o candidato de JOH só poderia se impor pela força, o que as forças armadas não toparam.
 
17.  À primeira vista, o triunfo da esposa de Zelaya parece uma vingança da história. De fato, a derrota de um regime narcoditatorial merece celebração. No entanto, o país que Castro encontrará é diferente daquele que Zelaya encarou. O narcotráfico, as maras (gangues de rua ligadas ao crime organizado), os militares e os paramilitares já existiam, assim como a corrupção e a violência. Entretanto, estas e outras dimensões da degradação nacional foram aceleradas nestes treze anos, conformando uma simbiose visível no narcoestado.

Em um momento de desprestígio de um regime repressor, que acelerou a produção de migrantes e delinquentes em escala massiva, Xiomara Castro emerge como o oposto da aceleração encarnada por JOH: é a alternativa da contenção, que já estava colocada no governo Zelaya. Mas neste meio tempo a crise se agudizou no país e ao redor: o alcance e os limites da contenção, são outros.

18. Traduzida para o brasileiro: os treze anos de contenção petista não impediu a dessocialização neoliberal, que é o caldo de cultura do bolsonarismo. Por outro lado, a aceleração bolsonarista pode se tornar disfuncional do ponto de vista dos de cima. A aceleração pode demandar contenção.

19. No entanto, não se trata de um movimento pendular. Assim como em Honduras, a degradação é cumulativa: a tendência é formar frentes cada vez mais amplas, para defender cada vez menos direitos.

Enquanto a mera reprodução social produzir medo, ódio e indiferença em escala massiva, os bolsonarismos deste mundo prosperarão. O futuro deste presente não pertence aos médicos da contenção, mas aos monstros da aceleração.


Fabio Luis Barbosa dos Santos é professor da Unifesp e autor com Daniel Feldmann de “O médico e o monstro”. Uma leitura do progressismo e dos seus opostos (Elefante: 2021).