Xuxa e as cobaias humanas

Luís Fernando Tófoli on Twitter: "Eis uma imagem para explicitar por que a  fala de Xuxa sobre realizar experimentos médicos em prisioneiros é  fascista, provavelmente sem que ela tenha a menor ideia.
Causou profunda indignação a declaração da ex-apresentadora Xuxa Meneghel (agora tratada em redes digitais como Xuxa Mengele) de que pessoas presas sejam usadas como cobaias em testes de remédios e vacinas. A sugestão de caráter neonazista, expressada em 26 de março em live sobre direitos dos animais, promovida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), mereceu a concordância do entrevistador.

Pressentindo que pisava em falso, a apresentadora ainda admitiu que suas palavras desagradariam “esse pessoal dos direitos humanos”, deixando claro que ela se exclui de tal atitude ética e moral. E demonstrou ignorar o sistema penal brasileiro ao se referir a pessoas que ficam 60 anos ou mais na prisão. No Brasil não existe prisão perpétua, e o máximo de reclusão permitido por lei é de 40 anos.

Xuxa deu voz ao que pensam milhões de brasileiros, inclusive a família Bolsonaro: bandido bom é bandido morto. Culpa de famílias e escolas que evitam o tema dos direitos humanos e, assim, fortalecem os preconceitos que produzem a aberração de eleger, para funções públicas, milicianos e seus cúmplices.

Michel Foucault, em “Vigiar e punir: história da violência nas prisões”, faz uma magistral análise de por que o sistema não elimina sumariamente os detentos e os mantém vivos como referência negativa aos trabalhadores que, fora das grades, suportam condições aviltantes de sobrevivência. O encarceramento, em vez de execução, visa a preservar a suposta humanidade do juiz, e não do condenado.

Estive preso quatro anos (1969-1973). Dois, entre presos comuns de São Paulo: Penitenciária do Estado, Carandiru e Penitenciária Regional de Presidente Venceslau, de segurança máxima, que abriga atualmente os líderes do PCC.

Os dois anos de convivência com presos comuns estão descritos em minhas obras “Cartas de prisão” (Companhia das Letras) e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco). Constatei que a maioria dos condenados resulta de um histórico familiar marcado por desgraças: miséria, violência doméstica, falta de escolaridade, desemprego, drogas etc. Tivesse eu tido trajetória semelhante, seria um deles.

Nosso sistema prisional é meramente punitivo, não corretivo: celas superlotadas, ociosidade dos encarcerados, falta de higiene, brigas entre facções, torturas praticadas por carcereiros, corrupção que facilita a entrada de drogas, armas e celulares. Ações educativas de ressocialização são exceções, como a APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), a REPARE (Rede de Amparo ao Condenado e ao Egresso), a FUNAC (Fundação Nova Chance) e a Humanitas360.

Na penitenciária de Venceslau, seis presos políticos, misturados a 400 comuns, promoveram iniciativas que resultaram na efetiva recuperação de alguns detentos, como grupos de oração e teatro, oficina de arte e curso supletivo de ensino médio.

O ex-presidiário carrega, para sempre, o estigma de seu passado. Todos lhe fecham as portas. Encontrar um emprego é quase impossível. A rejeição da sociedade perdura e a polícia costuma tratá-lo como eterno suspeito.

Vez ou outra vemos autoridades prometerem melhorias em nosso sistema penitenciário. As palavras esfumam e nunca se tornam ações efetivas. Para o sistema, eles não merecem os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Devem ser tratados como ratos de laboratório, como propôs Xuxa.

Basta constatar que, embora involuntariamente aglomerados, segmentos da população carcerária não têm merecido prioridade no direito à vacina. E, possivelmente, os que foram vítimas da Covid-19 nem constam da relação de mortos.

Frei Betto

Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos")

Frei Betto

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