Correio da Cidadania

O que esperar de Biden no Oriente Médio?

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Joe Biden, New US President, Vows To End Uncivil War
Em recente discurso, Antony Blinken - que será o secretário de Estado de Joe Biden - usou a palavra “liderança” 16 vezes. Em artigo que apresentou Blinken, o presidente Biden anunciou: “a América voltou, pronta para liderar o mundo (The American Conservative, 04/12/2020)”. No site do novo presidente, em comícios, reuniões e debates ele sempre enfatiza essa sua versão do America, first Trump.

Baseado na supremacia mundial dos EUA na economia e nas forças armadas, Trump lançou uma enxurrada de sanções para impor os interesses norte-americanos aos demais países.

Assim, para bloquear a construção do gasoduto Nord Stream, em benefício do gás liquefeito estadunidense, ele fulminou com sanções os países envolvidos na obra, até mesmo aliados europeus.

E Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, um tratado contra o aquecimento global, tido como essencial à vida humana nos próximos decênios. Para o presidente, valia mais defender os interesses de lucros a curto prazo de empresas norte-americanas, especialmente da área da energia.

Ao contrário do que fez Trump, Biden promete liderar o mundo de forma a tornar os EUA respeitados pela força de seus ideais e não de suas armas.

Ele garante que os EUA reconstruirão sua liderança global, triturada por Trump, que deverá ser multilateral, definindo decisões em conjunto com outros países. E usando seu imenso poder na defesa dos direitos humanos, da democracia e da soberania das nações. E (principalmente) na consolidação da hegemonia dos EUA, ora ameaçada pela ascensão vertiginosa da China e perturbada pela Rússia e o Irã, incômodos aspirantes ao protagonismo em suas áreas de influência.

Acredito nos bons propósitos de Biden, mas a influência de exigentes e poderosos atores internos (Pentágono, indústria, produtores rurais, sindicatos, grande mídia e lobbies, em especial os pró-Israel e pró-armas) o obrigará, fatalmente, a concessões não necessariamente republicanas, inclusive na área internacional.

No Oriente Médio, a questão com o Irã parece ser uma das mais inquietantes para a política internacional.

Biden prometeu a volta dos EUA ao Acordo Nuclear com o Irã, seguida pela retirada das sanções que devastaram a economia iraniana e a qualidade de vida do seu povo. Trump procura sabotar essas boas intenções.

Ele insiste em provocar o Irã com ameaças, atos agressivos e novas sanções, para enfurecer o governo de Teerã com tanta intensidade que o obrigaria a retaliar à altura, o que justificaria um novo ataque norte-americano, ainda mais impactante. E assim o antagonismo entre os dois países seria expandido de forma radical, impedindo Biden de resolver uma situação atualmente periclitante.

O perigo é que esse jogo acabe resultando numa guerra armada. Não sei se é o que Trump quer. Ou se ele age como um valentão de boteco, para impressionar seus seguidores, tendo em vista manter seu prestígio até a eleição presidencial de 2024.
Seja como for, sua natureza doentiamente egocêntrica e transtornada o leva a ignorar o incêndio que ele está acendendo no Oriente Médio.

Mesmo que as malignas atividades de Donald Trump fracassem, ainda assim pode dar zebra no projeto de Biden para superar a crise iraniana.

Foram irrefletidas suas declarações de que será duro e esperto no trato com o Irã, pois o “regime dos aiatolás representaria perigo para a segurança da América, aos nossos amigos e parceiros e a seus próprios povos (CNN, 13-09-2020)”.

Em outra ocasião, ele explicou o significado do modo “duro e esperto” de tratar o governo de Teerã: “Nós continuaremos a usar sanções dirigidas contra os abusos de direitos humanos do Irã, seu apoio ao terrorismo e o programa de mísseis balísticos”.

As sanções foram as principais estrelas do show de “máxima pressão” promovido por The Donald, que fustigou duramente a economia e o povo iraniano, mas não conseguiu forçar os aiatolás a pedirem água como ele almejava.

Antes de pensar em usá-las contra eventuais violações iranianas dos direitos humanos, Biden deveria esgotar possíveis soluções menos cruéis e mais eficientes para acalmar Teerã.

E elas existem. Por exemplo: o pacto a se realizar entre as nações do Acordo Nuclear poderia estabelecer a punição dos culpados da prática de lesões aos direitos humanos.

Não é o caso de sancionar Teerã pelo “apoio ao terrorismo” e ao “programa de mísseis balísticos”, pois, embora os EUA afirmem que o Irã é o maior promotor de terrorismo no mundo, isso não é bem verdade.

Veja, a seguir, o envolvimento iraniano nos países em que Teerã está mais presente: Síria, Iêmen, Líbano e Iraque.

As forças do Irã, que lutam na guerra da Síria contra uma rebelião, não são terroristas, já que estão no país a convite do presidente eleito, Assad, cujo governo é reconhecido pela ONU.

É certo que, no Iêmen, o Irã está fornecendo armamentos para rebeldes contra governo Hadi, também reconhecido pela ONU. Aqui há fatos específicos a considerar.

A guerra promovida pela Arábia Saudita, em defesa do presidente Hadi, contra os houthis transformou o Iêmen no maior desastre humanitário da atualidade, conforme a ONU.

“Relatórios vem demonstrando que a estratégia adotada pela coalizão liderada pelos sauditas visa destruir a produção de alimentos das áreas controladas pelos houthis. Esta estratégia de guerra econômica, deteriorando a agricultura e restringindo as importações de alimentos objetiva atormentar e matar de fome a população (Zenith, 10-07-2019)”.

A crueldade fora do comum empregada pelas forças sauditas contra os iemenitas horrorizou a comunidade internacional.

A coalizão saudita já realizou dezenas de milhares de bombardeios, um terço dos quais atingiram hospitais, escolas, moradias de civis e infraestrutura, lançando o país mais pobre da região no horror da fome.

Nem funerais, casamentos, viagens de estudantes ou velórios foram poupados.
O povo norte-americano, cujo governo vende armamentos aos exércitos da monarquia do deserto, sentiu-se indignado.

Pesquisa do You Gov revelou que 58% dos entrevistados queriam que o governo cortasse as remessas de armas e munições para a Arábia Saudita. Somente 13% manifestaram-se a favor.

O Congresso dos EUA não ficou omisso. Várias resoluções foram aprovadas, exigindo que o governo Trump interrompesse suas transações bélicas com os sauditas. Todas vetadas por The Donald.

Se você acha que é terrorismo auxiliar os rebeldes houthis, lembramos que ninguém chamou os EUA de terroristas por treinar e armar grupos de jihadistas e de oposicionistas ao governo legal.

Além do Irã, o Hizbollah também ajuda militarmente os houthis. Trata-se de um movimento político legal, que integra o ministério libanês, e oferece serviços de assistência social a um grande número de necessitados no país.

O Hizbollah foi a mais eficiente força que se opôs à invasão do Líbano pelo exército de Israel. Também teve papel destacado na guerra ao Estado Islâmico.

Os EUA, Israel e a maioria dos países da Europa consideram o Hizbollah terrorista. A França qualifica assim apenas a ala militar do movimento, enquanto a China, a Noruega, a Rússia e a Suíça nada têm contra ele.

Vale citar a opinião do célebre jornalista israelense Uri Avnery: “Algumas pessoas podem odiar o Hizbollah e detestar Nasrallah (chefe do movimento). Mas chamar de ‘terrorista’ é simplesmente estúpido”.

As milícias pró-Irã tiveram papel destacado na luta contra a ocupação do Iraque pelos EUA no período 2003-2011. Teriam matado cerca de 700 norte-americanos, entre soldados e contratados.

Mas sua luta era justa, atacaram forças da potência que invadira injustamente seu país e o estava ocupando militarmente. Não dá para condená-los como terroristas, afinal os maquis agiram do mesmo modo contra os nazistas, que ocuparam a França. Depois da guerra foram celebrados como heróis.

Atualmente, no Iraque, os grupos controlados pelo Irã vêm lançando foguetes contra as bases norte-americanas (que retaliam vigorosamente). Alegam que lutam para expulsar os militares do Iraque, pois a única razão de sua presença é ameaçar o vizinho Irã e pressionar o próprio governo iraquiano.

Já os estadunidenses dizem que essas bases são necessárias para conter a expansão do controle iraniano sobre o Iraque.

Biden deve mesmo exigir que as milícias sejam desmontadas, desde é claro que ele tope fazer o mesmo com suas bases militares no país.

Outra exigência formulada por Biden, limitar o programa de mísseis balísticos do Irã, não tem razão de ser.

Não se pode forçar um país a eliminar os armamentos que o defendem das ações agressivas de Israel. Tem sentido, pois enquanto os chefes iranianos limitam-se a ofensas e ameaças a Israel, Netanyahu é muito mais perigoso.

No período 2010-2011, o Mossad assassinou nada menos do que quatro cientistas nucleares do Irã. Em 2020, foi a vez do mais prestigiado físico dessa área ser eliminados pelos agentes secretos de Israel. Ao mesmo tempo, reunido com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o príncipe Mohamed bin Salman, governante real da Arábia saudita, o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, propôs o bombardeio de instalações nucleares iranianas. Seria provavelmente o estopim de uma guerra. Só não aconteceu porque os outros dois estadistas não toparam, por razões diferentes. É natural que o Irã procure defender-se.

Israel tem um exército muito mais bem armado (suprido anualmente pelos EUA com 3,1 bilhões de dólares em armamentos modernos) e sua força área é considerada uma das melhores do mudo, senão a melhor. O Irã está muito atrás.

O jeito para Teerã foi adotar uma estratégia de dissuasão, investindo num programa de desenvolvimento de mísseis. Graças a eles, Israel pensaria duas vezes antes de se decidir a atacar, sabendo que sofreria severas retaliações.

Hoje, o Irã dispõe do maior conjunto de mísseis balísticos do Oriente Médio, de curto, médio alcance e de cruzeiro.

Os últimos são os que vão mais longe, atingindo 2.000 km (Military.Today.com). Estão em condições de atacar Israel, a Arábia Saudita e as bases norte-americanas na região.

O general Mohamad Jafari, chefe do exército iraniano, e o general Mohamad Bagheri, chefe do estado-maior conjunto das forças armadas, já afirmaram que seus mísseis não passarão dos 2.000 km, ficando a Europa e os outros continentes fora do seu alcance.

Exigir que o Irã renuncie a suas intervenções em alguns países (aliás, em maioria, aliados) e a seu programa de mísseis – seria enfraquecer seriamente sua capacidade de autodefesa.

São condições que só serão aceitas caso haja sólidas garantias de que EUA, Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes desistam da ideia de destruir o regime de Teerã. O que só poderia acontecer através de um Tratado de Paz (de verdade).

A volta dos EUA ao Acordo Nuclear do Irã e o fim das sanções é uma promessa muito importante, mas pode ser anulada pelas exigências esboçadas por Biden.

A pacificação do Oriente Médio, com o fim do conflito que ameaçava explodir por obra e graça de Trump, salvaria a região de uma guerra altamente devastadora.

Certamente, Netanyahu, quem mais bate bumbo pela guerra ao Irã, ficaria muito desgostoso.

Ainda mais porque Biden sempre mostrou o mais ardente amor por Israel e mesmo hoje tem sinalizado que esse sentimento continua vivo.

O fato é que apesar de Biden está longe de ser um Trump para Israel, tudo indica que, no essencial, o regime sionista não terá do que reclamar.

Já a amizade eterna EUA-Arábia Saudita deve subir no telhado. E junto com ela, a guerra do Iêmen.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça
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