A saída de Trump preenche uma grande lacuna no Oriente Médio

Joe Biden ya samu gagarumar nasara a zaben fidda gwani na jam′iyyar  Demokrat | Labarai | DW | 11.03.2020
Com Biden em lugar de Trump, os objetivos dos EUA no Oriente Médio não devem mudar: expandir a hegemonia na região, conter os ímpetos do rival Irã e brecar a crescente influência da Rússia.

No entanto, há divergências sérias entre as estratégias do presidente que entra e as do que sai.

A política externa do presidente ainda de plantão baseia-se no uso da imensa força da nação mais poderosa do mundo.

Contra o recalcitrante Irã, Trump aplica devastadoras sanções econômicas - a chamada “máxima pressão”, prodigaliza ameaças assustadoras e lança operações, às vezes criminosas, como o assassinato do general Suleimani, a principal autoridade militar iraniana.

Oriente Médio

Há nove anos a Síria sofre os horrores de uma guerra civil que, originada de uma repressão violenta do governo a protestos da oposição, acabou engrossada por desertores do exército do país, árabes democrata-liberais e várias milícias jihadistas, inicialmente treinadas e armadas pelos EUA, Catar, Arábia Saudita e Turquia.

Depois de se ver em apertos, o governo Assad, graças ao apoio da Rússia e do Irã, acabou controlando quase toda a Síria. Hoje, o último bastião da revolução, Idlib, é governada pela al Qaeda, os curdos ocupam uma estreita faixa e os EUA mantêm algumas bases no leste do país, prontas para não se sabe o quê.

Biden declarou que deverão ser fortalecidas e ficarão onde estão até que o regime Assad aceite fazer concessões para se chegar a um acordo de paz.

Enquanto isso, Israel vem lançando bombardeios sobre o território sírio para, conforme explica, atingir instalações militares do Hizbollah, que potencialmente ameaçariam o território sionista.

Trata-se de ações ilegais, pois não há estado de guerra entre a Síria e Israel, mas Biden não deve se meter nisso. Com ele, os EUA continuarão ligados umbilicalmente ao regime sionista, a quem se obrigaram a proteger e ajudar, como um verdadeiro irmão mais velho. O que, aliás, Trump fez. A diferença é que o golfista amador extrapolou esta postura fraternal, ofereceu ao regime sionista até mais do que o premiê Netanyahu propunha.

Por seu lado, embora não deixando de proclamar sua estreita amizade com Jerusalém, os Estados Unidos de Biden deverão contrariar certas decisões e atos israelenses, digamos, excessivos, como fez a administração Obama-Biden, além de repelir eventuais abusos israelenses.

Como vice de Barack Obama, o fiel Joe Biden marchou ao lado do então presidente em causas como a “solução dos dois Estados independentes” e a condenação dos assentamentos, que obstaculizam a paz na Palestina.
Mais recentemente, ele declarou inaceitável a anexação por Israel de 1/3 da Palestina ocupada.

Espera-se que Biden, a exemplo do que fazia Obama, influencie o chefão do Likud a evitar violações dos direitos humanos dos palestinos e dos árabes israelenses, pelo menos aquelas que tenham potencial de chocar o mundo, especialmente o mundo dos intelectuais, jornalistas, empresários e políticos moderados do Partido Democrata.

Provavelmente, por ser multilateralista, Biden poderá incluir a ONU e a União Europeia na proposta de criação de mais uma nova negociação de paz entre israelenses e palestinos, na qual a pauta principal seria a criação de um Estado palestino independente, sem reduzir a segurança de Israel.

Os líderes palestinos não devem alentar grandes esperanças quanto aos nobres propósitos declarados por Biden, pois tangenciam a imparcialidade, haja vista o enorme apreço por Israel repetidamente apregoado por ele na sua campanha presidencial.

Biden se disse um grande amigo de Netanyahu e um “inflexível apoiador de Israel”. Embora estas descrições comportem uma ampla gama de significados, o candidato democrata já se posicionou com um punhado de posições adversas aos palestinos, a saber:

– Biden foi contra a ideia de usar os 3,8 milhões de dólares em armas, anualmente doados a Israel pelos EUA, para pressionar Jerusalém a moderar suas exigências em futuras negociações de paz;

– condenou o movimento BDS, que propõe o boicote de relações comerciais, militares, científicas, artísticas, intelectuais e esportivas com Israel até que cesse a expansão dos assentamentos e a ocupação militar da Cisjordânia. Noto que a comunidade internacional agiu de forma semelhante para forçar a África do Sul a abandonar o apartheid. Nenhum estadista da época criticou;

– aplaudiu o estabelecimento de relações completas de Israel com os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e o Sudão, qualificando-o como contribuição para a paz no Oriente Médio. Feito mais do que discutível, pois enfraquece a unidade árabe pela independência da Palestina (que Biden diz apoiar). Sem contar que em nada favorece uma paz, que sempre existiu entre Israel e aquelas duas monarquias absolutistas do Golfo Árabe.

– segundo seus assessores, ele manterá a embaixada norte-americana em Jerusalém e o reconhecimento de Jerusalém indivisa como capital do Estado de Israel, atos adotados por Trump, rejeitando posições dos presidentes anteriores dos EUA, favoráveis à divisão da cidade entre judeus e árabes (Daily Sabah, 09/10/2020).

– não deverá defender a volta dos palestinos, expulsos de suas casas e propriedades agrícolas na Palestina durante as guerras de 1948 e 1967.

– sabe-se, também por assessores, que Biden manterá o reconhecimento à anexação por Israel do território sírio de Golã, aprovada por Trump contra decisões da ONU e dos governos estadunidenses desde Ronald Reagan, que a reputavam como “aquisição de território por conquista”, método aceito no século 19, mas estigmatizado pelo Direito Internacional do nosso tempo.

Pouco a dizer aos palestinos

Alguns analistas consideram que, dadas as declarações de amor de Biden a Israel e suas reconhecidas restrições a justas reivindicações palestinas, pouco mudará a política externa pós-Trump. Há aqui um excesso de pessimismo.

O fim do trumpismo poderá trazer avanços ponderáveis, dos quais o principal seria a destruição do seu tão alardeado “acordo do século” para o problema palestino, cuja implantação enterraria os sonhos de independência palestina.

A solução de Trump estabelece a anexação por Israel de grande parte da Cisjordânia ocupada, incluindo a maioria quase total dos assentamentos israelenses e do vale do Rio Jordão. Os habitantes palestinos não poderiam ser cidadãos de Israel. Um Estado palestino independente poderia ser criado nas partes restantes da Cisjordânia e em Gaza, mas seria inviável, um arquipélago de enclaves não-contíguos, incrustrados em território de Israel, sem fronteiras com outras nações, acessados através de estradas e túneis sob controle do exército israelense.

O novo Estado não poderia ter nem aeroportos, nem portos, sendo seu espaço aéreo e águas costeiras fiscalizados pelas forças armadas de Jerusalém. Ao contrário de um Estado de verdade, o palestino não poderia ter exército.

No frigir dos ovos, seria pouco mais do que uma colônia de Israel.

É de se supor que Biden ignorará este vergonhoso documento e procurará convencer israelenses e palestinos a se reunirem para negociar um acordo de paz, de acordo com a “solução dos dois Estados independentes”, ainda bem-vista no Ocidente. Possivelmente ele apelará para que a União Europeia também participem, talvez como mediadora ao lado dos EUA.

Para dar certo, lembramos do provérbio inglês, It takes two to dance, e uma das partes, o premiê Netanyahu, vai fazer tudo para que as negociações fracassem. Como, aliás, já fez no passado.

Obama admitiu a despropositada intransigência do premiê sionista, em entrevista à TV de Israel: “Netanyahu impõe tantas condições [a um acordo], que não é realista pensar que elas serão cumpridas num futuro próximo. O perigo é que Israel como um todo perca a credibilidade. A comunidade internacional já não acredita que Israel leve a sério a solução de dois Estados (JC , 02-06-2016)”.

A descrença nas negociações, somada à aproximação de monarquias árabes a Israel, que tende a englobar outros países islâmicos, levou os movimentos rebeldes palestinos a desistirem de soluções pacíficas.

Fala-se, cada vez mais, na provável eclosão de uma Terceira Intifada, que seria uma última e desesperada tentativa. Desta vez provocaria muito mais mortos e destruições, pois contaria com o apoio decidido do Hamas e do Hizbollah, que hoje dispõem de mísseis capazes de atingir todo Israel.

Na Síria e no Iraque, a ascensão do Estado Islâmco (EI) justificou o envio de uma força militar liderada pelos EUA que aliada a milícias pró-Irã e ao exército iraquiano impôs derrota definitiva ao EI, que hoje não passa de mais um grupo de jihadistas selvagens.

Nem por isso os EUA voltaram para casa. No Iraque, eles mantêm bases militares, embora o governo local agradeça a ajuda, mas peça que se retirem. O que eles não fazem.

Na Síria, o desrespeito à soberania alheia é pior. Não só as bases norte-americanas vão bem, obrigado, sem autorização do governo de Damasco, mas numa delas, uma força de 600 homens, com tanques de guerra e apoio de aviões protege as instalações de uma petrolífera estadunidense, fundada às pressas para explorar o petróleo desta região que os EUA tomaram do regime sírio, o que configura um roubo.

Irã

Aparentemente, as mudanças de Biden na política de The Donald seriam mais sentidas no conflito EUA-Irã.

Biden já declarou querer voltar ao Acordo Nuclear com Teerã, do qual Trump se retirou com consequências danosas, não só para os iranianos, como também à Europa e mesmo à paz mundial.

As sanções impostas pelo ser exótico que habita a Casa Branca, provisoriamente, devastaram a economia iraniana e as condições de vida do seu povo. Por sua vez a Europa viu-se despojada de oportunidades (proibidas pelas sanções) de realizar grandes negócios na industrialização do país dos aiatolás e no seu comércio externo. E o mundo ficará em perigo, pois o governo iraniano, caso as sanções continuem, se voltaria para a produção de armas atômicas, para defende-lo de Israel e sua enorme superioridade bélica. O governo Netanyahu, como já se cansou de prometer, não iria permitir isso e lançaria uma guerra, à qual os EUA não ficariam estranhos.

Putin fecharia seus olhos? Xi se limitaria a protestar? Os governos desses dois países estão cada vez mais se aproximando de Teerã, para ajudá-lo a burlar os efeitos das sanções norte-americanas, importando petróleo iraniano e fornecendo armamentos e materiais nucleares.

A parceria chinesa com o Irã, que foi anunciada há um mês atrás como prestes a ser oficializada, ainda não foi, talvez esperando pelo resultado das eleições norte-americanas.

Será um acordo de aliança estratégica de 25 anos, no qual a China investirá 400 bilhões na infraestrutura e nas indústrias do Irã. Se de fato acontecer, Pequim terá posto um pé no Oriente Médio.

Houve alívio universal (particularmente em Teerã) quando Biden garantiu que recolocaria os EUA no Acordo Nuclear, pondo fim nas malignas sanções de Trump e assim tirando a economia iraniana do buraco e satisfazendo os interesses empresariais da Europa em ganhar muito dinheiro com a derrocada da “máxima pressão”.

A euforia que a promessa do presidente democrata produziu deve ser amenizada pelas suas declarações de que será duro e esperto no trato com o Irã, pois o “regime dos aiatolá representaria perigo para a segurança da América, aos nossos amigos e parceiros e a seus próprios povos (CNN, 13-09-2020)”.

Em outra ocasião, ele explicou o significado do modo “duro e esperto” de tratar o Irã: “Nós continuaremos a usar sanções dirigidas contra a) os abusos de direitos humanos do Irã; b) seu apoio ao terrorismo; c) ao programa de mísseis balísticos”.

Tudo bem punir violadores de direitos humanos, embora o desejável seria que estas boas intenções se estendessem até outros países praticantes dessa condenável modalidade.

“Se você conta uma grande mentira e continua repetindo-a, as pessoas eventualmente acreditarão”. O establishment dos EUA seguiu esta lição do chefão nazista Joseph Goebbels, espalhando pelo país, durante muitos anos, que o Irã seria o maior protetor de terrorismo do mundo.

E assim esse mantra virou dogma. Na verdade, Teerã tem se associado ao Hamas na luta pela independência palestina e ao Hizbollah para defender o Líbano contra Israel. Causas justas, não? Esses dois movimentos já foram terroristas no passado, mas é duvidoso que continuem sendo.

Arábia Saudita

Existem outros países candidatos ao cetro de maior promotor do terrorismo no planeta. A Arábia Saudita, por exemplo, que Hillary Clinton, quando secretária de Estado do governo Obama, num telegrama revelado pelo Wikileaks, escreveu: “a Arábia Saudita continua uma base decisiva de apoio financeiro à al Qaeda, ao Talibã e à Le T (Lashkar-e-Taliba, no Paquistão)”.

Trata-se do próprio EUA, veja o que diz o renomado intelectual Noam Chomsky sobre os drones que nos governos Bush, Obama e Trump atacaram suspeitos de terrorismo no exterior, matando também muito inocentes: “a campanha dos drones é de longe a maior campanha terrorista do mundo”.

Exigência mais grave é considerar objeto de punição a produção de mísseis balísticos iranianos, única forma de o país fazer frente à inegável superioridade militar de Israel, num eventual confronto. Como esse programa é essencial à defesa do Irã, ele jamais aceitará seu cancelamento.

E aí, o que fará Biden? Manterá as sanções, repelidas majoritariamente pela comunidade internacional? Continuará fora do Acordo Nuclear?

É outra cruel incerteza nas perspectivas de mudanças da política externa norte-americana, sob Biden.

Se é possível que as relações dos EUA com o Irã possam sair da casinha onde Trump as colocou, no caso da Arábia Saudita as probabilidades são de que entrará lá.

Biden prometeu que irá acabar com o relacionamento amigável entre Trump, acolitado pelo seu genro, e o rei Salman, ao lado de seu filho Mohamed bin Salman.

Ele até mimoseou a Arábia Saudita com o qualificativo de país pária, ou seja, fora da lei. E foi um duro crítico do príncipe bin Salman, governante de fato do país, pelo assassinato do jornalista oposicionista Khashoggi ordenado por ordens principescas (Foreign Policy, 05-11-2020).

O novo presidente tem dito que vai reavaliar a Arábia Saudita. Não será mais tratada com os carinhos e bajulações de Trump, que a via como elemento fundamental na aliança, que ele vem promove, unindo os EUA, Israel e os “democráticos” reinos ditatoriais do Golfo Pérsico.

Havia também o petróleo, do qual o reino do deserto é o maior produtor mundial.

E, last but not the least, Trump ama o rei Salman e seu dileto príncipe pelas compras de armamentos, que fazem do seu país o maior importador desses bens bélicos fabricados nos EUA.

É verdade que, na guerra do Iêmen, bombas norte-americanas têm sido lançadas pelos aviões sauditas sobre bairros residenciais, atingindo indiscriminadamente objetivos nada militares como casamentos e enterros.

Biden paira como uma sombra ameaçadora sobre esta paisagem tão lucrativa quanto abominável. Salman e filho não devem esperar mais a compreensão ilimitada que gozaram com Trump de seus atos típicos de certos sultões turcos da Idade Média.

Biden foi bastante assertivo ao condenar a participação dos EUA na guerra contra o Iêmen e ao afirmar que acabaria com a venda de materiais bélicos aos sauditas para usarem onde matam crianças (The Intercept, 20-11-2019).

Sem as armas norte-americanas, a aposta é que a monarquia desista da guerra, aceitando que a ONU medie uma paz que não faça mal a ninguém. Se Biden cumprir o prometido, a guerra do Iêmen, considerada pela ONU a maior catástrofe do mundo em nosso tempo, estaria com seus dias contados.

Para mim, podemos estar esperançosos demais. Como Garrincha respondeu ao técnico que lhe explicava todas as jogadas que deveria dizer: “você já combinou com os russos?”

Maltratando os sauditas, Biden enfraqueceria a frente unida contra o Irã. Muitos políticos republicanos e os belicosos generais do Pentágono não vão deixar passar batido.

Os grandes lobbies das poderosas indústrias de armas norte-americanas devem entrar em ação para influenciar Biden a evitar brigas com os sauditas. Centenas de bilhões de dólares em exportações podem falar alto.

Seja como for, tudo indica que Biden tem potencial de mudar a situação na Palestina, na Síria, no Irã, no Iêmen, em tudo o Oriente Médio.

Em todos esses fronts, que são os principais da política externa no Oriente Médio, ele apresenta posições aparentemente firmadas.

Algumas me parecem justas, outras não. Mesmo nesses últimos casos, percebe-se intenções louváveis de buscar consenso, ouvir aliados isentos (espero que europeus), usar a diplomacia, em vez da força militar.

Seja como for, ele não abandonará o objetivo de expandir seu poder pelo Oriente Médio. Até já falou que deseja recuperar a liderança dos EUA no planeta Terra (site da campanha presidencial).

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados