Greve dos Correios: fim da greve não pode encerrar a luta na categoria

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A greve dos trabalhadores dos Correios mostrou a força e a disposição da categoria para lutar contra o governo Bolsonaro e a sua política de retirada de direitos e privatização. Foi uma greve que enfrentou, além do governo, a Justiça, uma vez que esta, por dois momentos, atacou o acordo coletivo para beneficiar a política bolsonarista contra a classe trabalhadora. Infelizmente, a greve também mostrou o papel dos pelegos no movimento sindical: foram cúmplices de Bolsonaro e do general Floriano na retirada de 49 cláusulas do nosso acordo coletivo, já que os dois maiores sindicatos do país (RJ e SP), filiados à CTB, boicotaram a greve.

Um ataque para avançar na privatização

O que ocorreu com os ecetistas é reflexo da política global do governo Bolsonaro e do presidente da Empresa, General Floriano, para avançar na privatização. O desmonte do acordo coletivo é parte desse projeto, por isso partiram para o ataque sobre os nossos direitos. Para eles, é necessário reduzir os custos da mão de obra para facilitar a venda da empresa.

Também simboliza como o governo trata os direitos da classe trabalhadora: tudo para beneficiar os privilegiados de sempre, como o próprio presidente dos Correios, que ganha mais de R$ 46.000 e manteve o seu salário intacto, enquanto os demais trabalhadores da Empresa amargaram perdas nos benefícios.

A Justiça ao lado do governo

A Justiça mais uma vez atuou ao lado do governo. Já tinha sido assim quando o STF mudou a vigência do ACT e, agora, a decisão do TST só confirma essa afirmativa. A retirada de 49 cláusulas do acordo causa um impacto social e econômico brutal nos direitos da categoria. A retirada de tickets, gratificações, auxílios e adicionais, a redução no percentual pago no adicional noturno e na hora extra e a redução do tempo da licença maternidade e do período da amamentação é de uma brutalidade inaceitável, considerando que é uma categoria que segue trabalhando no meio da pandemia, o que já ocasionou a morte de mais de 120 trabalhadores, e possui o menor salário entre as estatais. O reajuste de 2,6% concedido tentou minimizar o resultado que na somatória final é de perda.

O que aconteceu foi que uma casta de juízes privilegiados decidiu a vida de 100 mil trabalhadores. Por isso, desde o início colocamos que não deveríamos confiar na Justiça pelo seu histórico contra a categoria e porque, em muitas pautas, em especial a trabalhista, estão totalmente alinhados ao governo. É importante lembrar que o relator do acórdão final é Ives Gandra Martins, um bolsonarista de carteirinha que está sendo cotado para assumir uma cadeira no STF.

A categoria mostrou muita disposição

Foram 36 dias de greve em que a categoria ecetista mostrou a sua força enfrentando o governo, a Justiça e até o isolamento, uma vez que bancários e petroleiros não entraram em greve. A dupla General Floriano/Bolsonaro tentou a todo momento reduzir a força da greve, aplicando descontos ilegais e fazendo ameaças. A categoria não se intimidou e fortaleceu ainda mais com piquetes, atos e ocupações.

A caravana a Brasília demonstrou que, apesar de mais de 1 mês de greve, os trabalhadores continuavam firmes e protagonizaram um ato espetacular que ficou de exemplo para outras categorias que também estão sendo atacadas pelo governo. A força da base mostrou que o resultado da greve não pode ser depositado nas costas desses bravos guerreiros e que o caminho da luta é o que deve ser seguido contra esse governo autoritário e ladrão de direitos.

O papel pelego da FINDECT/CTB

Apesar da forte disposição da base e da brutalidade do ataque, a política da FINDECT (PCdoB/CTB), que dirige os maiores sindicatos (Rio de Janeiro e São Paulo), foi de desmontar o movimento grevista. Primeiro, chamaram a apostar no STF, depois sumiram dos locais de trabalho e negaram a unidade para construir o calendário da greve.

No Rio de Janeiro, o SINTECT-RJ chegou a orientar os grevistas a não participarem de atividades de greve nas bases da oposição. Um verdadeiro peleguismo que apostava no enfraquecimento do movimento paredista. Além de nunca colocarem sindicatos importantes como o da Sintsama (Sindicato dos Trabalhadores da Cedae) ou comerciários do Rio a serviço da unidade e solidariedade nessa luta.

O ápice da traição foi o boicote à caravana para Brasília, uma atividade nacional unitária do movimento e que foi atacada por essa federação, o que mostrou toda a sua subserviência ao governo. Não temos dúvida que essa postura significou uma traição no momento em que era necessário fortalecer a greve. Esse papel pelego já começou a ser cobrado pela categoria (vide os resultados das assembleias virtuais de RJ e SP, nas quais a suspensão da greve passou por poucos votos de diferença). Não podemos aceitar uma direção que trai a categoria no momento em que ela mais precisa. É hora de os trabalhadores que ainda acreditam no PCdoB refletirem e romperem com esses dirigentes. O fato é que o PCdoB e a cúpula da CTB são organizadores da derrota econômica.

Ao mesmo tempo em que denunciamos a falta de unidade no movimento sindical, ocasionado pela traição da FINDECT, não eximimos de críticas a ausência das principais centrais sindicais do país (CUT, CTB e Força Sindical) na greve. A cúpula da CUT, Articulação Sindical, que lidera a maior central do país e comanda majoritariamente a FENTECT, não realizou uma ação de apoio nacional que cercasse de solidariedade à greve. Não mobilizou sua ampla base sindical e não construiu um novo dia nacional de luta aproveitando a greve dos Correios que, no momento, era o principal fato da luta de classes no país e que enfrentava, nas ruas, o governo Bolsonaro.

A nossa central, a CSP-Conlutas, fez essa proposta. O fato é que a cúpula da maior central do país, a CUT, isolou o movimento e impediu a unidade com bancários e petroleiros, falhando no teste de fogo da luta nacional contra a extrema direita.

A necessidade de um polo alternativo

Diante da traição protagonizada pela cúpula da CTB, é importante construir um polo alternativo de direção para o movimento ecetista. Vimos também que, apesar dos discursos, a Articulação Sindical isolou o movimento ao não batalhar pela unidade entre bancários e petroleiros. Por isso, precisamos construir uma alternativa que agrupe os sindicatos da CSP-Conlutas, os companheiros da INTERSINDICAL, setores da CUT como MRL e LPS.

Um polo que construa outra atuação no movimento sindical, garantindo a democracia operária, contra a burocratização e que tenha como política central a mobilização da categoria, mantendo a sua independência frente aos governos. Um polo que continue a luta contra a privatização da empresa.

No RJ, ativistas da CSP-Conlutas e do MRL (CUT) fizeram incansavelmente atividades da greve mesmo sem contar com a direção do sindicato e devem seguir construindo uma forte oposição.

Por um plano de lutas contra a privatização

A categoria mostrou muita disposição e Bolsonaro/Floriano não irão recuar nos ataques. Eles seguirão com a política de privatização dos Correios. Diante desse quadro, é fundamental não abaixarmos a cabeça e seguirmos lutando para evitar o avanço dos ataques.

É necessário que as federações construam um plano de lutas para resgatar as perdas e barrar a privatização, somando-se aos servidores públicos na batalha contra a Reforma Administrativa. Mesmo com o resultado adverso, a greve mostrou que existe disposição da classe para lutar contra o governo.

Adriano Dias é funcionário dos Correios na cidade do Rio de Janeiro.

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