Aliança pelo Brasil: como lidar com o milicianismo batizado pelos evangélicos

Marcelo Castañeda

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Bolsonaro é tido como burro e ignorante, mas, numa jogada estratégica arriscada, conseguiu colocar no debate público e interconectado nas duas últimas semanas a sua mais recente proposta de criar um partido para chamar de seu, congregando como bandeiras Deus, armas e anticomunismo sob a regência da filosofia olavista. Trata-se de uma proposta com inspiração fascista e de base miliciana e evangélica.

Em uma perspectiva normalizadora, faço coro com boa parte das análises que proliferam na mídia corporativa de que é uma jogada arriscada pela questão do tempo e da possível dependência de um incerto processo de recolhimento eletrônico de assinaturas que depende da aprovação do TSE para ser deflagrado a tempo de concorrer já nas eleições municipais de 2020. Também fica em suspenso a possibilidade de acessar os vultuosos recursos do fundo partidário, o que só seria suprido por doações individuais.

O Aliança pelo Brasil (ApB) mobilizou atenções da mídia corporativa e das redes sociais, e boa parte da oposição individualizada em rede com sua capacidade crítica acabou por terminar de divulgar aos quatro cantos os preceitos principais do partido, o que nos leva ao que chamo de normalização dos processos em curso. Isso espanta mais do que a pretensa obra de arte com cartuchos de bala a comemorar a grande ideia de Bolsonaro para desfilar a roseira miliciana nas eleições com o número 38, na triste analogia com o revólver, e arrebanhar mais recursos a serem controlados por seu clã.

Por uma vertente crítica, a institucionalização miliciana com batismo evangélico deve ser combatida por cada um que tem esperança de que a democracia ainda será possível em terra brasilis. No entanto, quais são as formas de mobilização para além do diagnóstico que inicia esse artigo? Qual a capacidade de enfrentamento que temos frente a processos que passam ao nosso largo, tais como decisões do TSE (para o caso das assinaturas) ou atribuição de recursos do fundo partidário?

São questões que, em uma resposta que tende a dar como nula nossa capacidade de intervenção pelo seu caráter macroscópico, nos levam a perguntar: o que faremos os que ainda prezam por alguma perspectiva democrática frente a essa nova frente de radicalização que tomará forma como extrema-direita legítima? Dependeremos do feeling eleitoral de políticos interessados em embarcar no ApB, mas que temem perder sua condição eleitoral em 2020 por conta da indefinição institucional?

Frente a essa inovação monstruosa que não deixa de ser “mais do mesmo” do ApB (vide a Marcha pela Família), o que cabe à esquerda fazer além de cobrar autocrítica do PT ou mesmo olhar com saudosismo para um passado que não voltará? Indo mais além: até que ponto a via eleitoral não nos limita a estar sempre recuando frente às novas ameaças que aparecem? Como apostar apenas na institucionalidade em um momento no qual parece que as operações de comando institucional não favorecem ao campo de oposição, pelo contrário, na medida em que só recuamos e defendemos o passado neste ano de 2019?

As respostas a estes questionamentos nos levam ao único terreno em disputa atualmente: a sociedade. Sim, esta mesma sociedade que permite emergir de forma normalizada um partido miliciano-evangélico de inspiração fascista. Afinal de contas, os votos e a mudança partem da sociedade e não das ideias iluminadas de líderes que estão olhando para o passado ou mesmo com mero interesse eleitoral no curto e médio prazo futuro.

A disputa de 2018, por exemplo, não se definiu no ano passado, mas nos últimos 20 a 30 anos com a estruturação territorial das milícias e igrejas evangélicas, com apoio da bancada da bala, da bíblia e boi/ruralista, bem como do mercado financeiro, refletindo condições que não foram criadas de um dia para outro. Ainda que não sejam o fator determinante da vitória bolsonarista, certamente constituem um dos eixos mais importantes.

Por fim, se quisermos combater o ApB, o caminho possível não me parece ser “por cima” ou somente nas redes sociais individualizadas em que proliferam os melhores caminhos para cada um (denotando que não existe melhor caminho para todos), mas o reencontro com a sociedade. A questão é que essa volta dá mais trabalho e demanda paciência e alguma boa dose de perseverança, coordenação e articulação, atributos que andam em falta no terreno da oposição.

Marcelo Castañeda é cientista social, professor da UFRJ
Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

Marcelo Castañeda

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