Correio da Cidadania

No Rio, massacre e espetáculo são o novo significado de ‘segurança pública’

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"Segundo a investigadora Vera Malaguti, o inimigo público número um está sendo esculpido tendo por modelo o rapaz bisneto de escravos, que vive nas favelas, não sabe ler, adora música funk, consome drogas ou vive delas, é arrogante e agressivo, e não mostra o menor sinal de resignação" (Eduardo Galeano,De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso).

 

Desde domingo passado (21/11/2010), quando surgem os primeiros incêndios de veículos nas ruas do Rio de Janeiro e a imprensa dá início à cobertura dos fatos, uma voz vem repercutindo e crescendo acima do burburinho e do bombardeio – o outro bombardeio, o das imagens, estáticas ou dinâmicas, que vêm de todas as direções. Parece existir uma esperança no ar, algo semelhante àquele sentimento que paira em final de copa do mundo, de que, desta vez, sim, a vitória está garantida!

 

Diz-se que a vitória em questão é a da guerra contra o crime, em especial, o tráfico de drogas, o mais hediondo de todos, encarnado pelo inimigo público nº. 1, aquele que convoca todos os ódios, medos e paixões.

 

Percebe-se em transmissões de rádio e TV uma entonação diferente na voz, um olhar diferente, outra respiração, uma adrenalina, certa dose de euforia, embora contida, na pronúncia de trechos inteiros de um discurso carregado de armamento mortal contra o traficante das drogas ilícitas, uma verdadeira descarga de metralhadora como esta: "Acuados centenas de criminosos, operação prossegue, 450 homens do BOPE e das polícias Militar e Civil do Rio, com apoio inédito de veículos blindados da Marinha, provocou a fuga de centena de criminosos da Vila Cruzeiro"... Tudo parece indicar um final feliz, vence o mocinho e o bandido é eliminado.

 

Surge no horizonte um outro Cabral que refunda (palavra que voltou à moda recentemente) um marco histórico e promete, a partir do Rio, (re)descobrir um novo Brasil em meio aos escombros da batalha contra o crime. Esse Cabral é jovem, cheio de testosterona, como todos os corpos machos envolvidos, heróis ou bandidos desta guerra. Chama a bandidagem para a briga, diz que não vai recuar, não tem medo de terrorista. A ênfase que a imprensa tem dado a esse Cabral não é a de líder de um governo estadual com "estratégias bastante distintas do padrão vigente", como Cláudio Beato escreveu na Folha de São Paulo (26/11/2010, página A-3).

 

Estão dizendo na TV que os brasileiros querem blindados e tanques de guerra para defender a "sociedade dos ataques dos criminosos". E esses brasileiros existem e para nos provar sua existência são levados para a tela da TV. Formam, certamente, a tal maioria numérica (grupo que, sozinho, está em quantidade superior à metade do grupo inteiro) necessária para emplacar um plebiscito pela pena de morte, por exemplo. Despontaram na telinha pessoas que estão acreditando nisso, precisam acreditar, que as Forças Armadas vencerão a guerra contra o tráfico. Houve um cidadão que chegou a manifestar expressamente sua crença de que "no fim, o bem vencerá o mal". O que estão pedindo os moradores das próprias áreas ocupadas pelas tropas e blindados? Exatamente isso, tropas e blindados! Nunca a voz da favela ecoou tão diretamente ou repercutiu de forma tão imediata junto ao Poder Público. Vocês querem o BOPE? Vocês querem o exército e a marinha? Pois tomem BOPE, tomem exército, tomem marinha! Não é a segurança um direito do cidadão? Na linguagem mercadológica: satisfação total do cliente! As mortes de crianças, idosos, jovens, homens e mulheres não diretamente envolvidos são efeitos colaterais do combate necessário.

 

Ora, mas essa é a fala dos que querem fazer da segurança pública a máquina para matança de brasileiros pobres, traficantes ou não traficantes, bandidos ou mocinhos! Esse discurso pode se voltar facilmente contra UPPs, contra polícia cidadã, pode minar condições para construção de qualquer coisa distinta do BOPE e reverter as possibilidades de tratamento da questão da violência na linha dos direitos humanos.

 

Hoje eu ouvi no rádio um comentarista dizendo que Forças Armadas são treinadas para matar o inimigo e, portanto, "se todos querem as Forças Armadas nesse conflito, que depois não venham chorar os cadáveres espalhados".

 

Sinto-me mal, dói a cabeça, o estômago arde, fico indignada... Discuto sozinha na sala, em frente à TV... O Merval Pereira também entende de segurança pública! Estamos salvos... E eu que nem sabia dessa... Já cheguei a pensar que ele era o dublê de voz do Alf, o ETeimoso, mas – quem diria! – não sabia de sua expertise em estratégias contra o crime. Acaba de sugerir o corte de todo e qualquer tipo de comunicação, com o mundo externo, dos líderes do tráfico que saíram de Catanduvas para Porto Velho.

 

E se a queima de automóveis não for por causa das UPPs? E se as milícias tiverem uma função mais importante nesse cenário?

 

Entretanto, não é implausível que traficantes dos morros do Rio reajam desta forma se estiverem diante da dificuldade de sobrevivência dos pontos de comercialização da cocaína ou, pior, na iminência de perder o controle sobre a venda da droga proibida.

 

(Aos traficantes "incluídos", aptos ao exercício do consumo graças ao negócio lucrativo da cocaína, não interessa a descriminalização, porque outra é a lógica do mercado lícito, onde reassumirão o status de simples excluídos da ordem legal – dominada que é pela elite financeira, pelos ricos que podem consumir qualquer droga ilícita ou comercializá-la impunemente).

 

Como será que reagiriam, por exemplo, os empresários do fumo e do álcool se, por qualquer razão, absurda razão, fossem ameaçados de perder seu business? A diferença entre ambos, além, é claro, do selo de licitude/ilicitude do produto comercializado, é que o primeiro negócio gera muito mais dinheiro e movimenta uma outra indústria da morte, a das armas e munições.

 

Algum dia talvez se possa desmanchar esse falso consenso de que o proibicionismo penal, com a produção de cadáveres, culpados ou inocentes, vai derrotar o tráfico e deixar o Rio de Janeiro – e o resto do mundo – livre da droga. Hoje já se percebe alguma tolerância em relação à maconha, fala-se em consumo recreativo de maconha na Califórnia, a maconha é cultivada na Califórnia. Está deixando de ser negócio de índio e está virando negócio de branco. Não demora a sair a legalização...

 

Essa guerra não é nossa. Não é carioca, não é brasileira e nem sulamericana. Que me desculpem certas personagens da nova esquerda punitiva, limpinha, engomadinha e que não fala palavrão, é injustificável o investimento de tantos recursos a serviço na eliminação física dos pobres. Massacre não significa mais segurança pública, é apenas o serviço do business dos equipamentos e tecnologias de segurança produzidos pelos países ricos. Essa guerra não existe para acabar com a droga. Jamais terá fim essa guerra infinita. Somente pausas, tréguas, intervalos. É para ser consumida no formato novela, seriado. Trata-se da guerra pela guerra, um outro bom negócio que não pode acabar, neverending war...

 

Produto altamente rentável no mercado, a guerra também é sensacional. Ela consome armamento e tecnologia e vende cinema, novela, jornal, cultura para a massa. Imagens reais e fictícias. A guerra vende sensação. No fim, a guerra é do mesmo partido que a droga, o partido da sensação, ela promete o mesmo que a droga.

 

Ainda pior que o consenso da lógica beligerante no terreno das drogas é a impossibilidade do dissenso – arrogante, violenta e antidemocrática. Por que não discutir princípio de segurança pública, ao invés de alimentar o espetáculo produtor de ethos heróicos e guerreiros, papéis historicamente destinados aos eternos derrotados, de ambos os lados, dessa estúpida guerra, os jovens pobres que vêm do mesmo lugar, uns para serem policiais e outros para serem bandidos? Não, isso não é um set de filmagem, isso é real.

 

É real o fogo marginal que se espalha pelo asfalto fazendo vítimas de verdade. Não é faz-de-conta o fogo oficial que sobe o morro para deixar mais corpos no chão. Ao final, a luz não vai se acender, não haverá cortinas a se fecharem sobre uma grande tela escura por onde desfilarão os créditos da obra. Não, não haverá um fundo musical, enquanto nós, passivos espectadores, mudamos de canal, do jornal nacional para a novela das oito, com a agradável sensação de que é o mundo que está mudando para melhor (ou para pior, quem sabe?). O depois será o saldo da violência, a morte, a dor, a intensificação do ódio, na sequência, o esquecimento e, com ele, outros jovens, pobres e negros, retomarão os postos dos bandidos mortos. A guerra continua, já pode recomeçar.

 

Essa queima de carros e ônibus praticada no palco social visível da classe média pede uma resposta imediata, é verdade, uma reação pronta, de força e manutenção da ordem. Mas é pontual, uma reação momentânea, porque não dá para transformar as forças armadas na força de segurança das cidades brasileiras, seja o Rio ou qualquer outra. Irmão invisível, grande irmão que nos vê a todos, anjo do bem que abre para nós suas janelas de ver o mundo, deixe-nos em paz com nosso sofrimento. Não nos queira convencer que essa guerra é boa, que é a única saída possível e vai nos livrar de todo mal da droga para sempre, amém.

 

A discussão pública corre o risco de seguir, mesmo depois do fim das recentes eleições, a mesma linha estúpida, simplificadora e maniqueísta entre o bem e o mal, no caso, a guerra ou a droga. Por favor, que se respeite ao menos o direito que as minorias (grupo que, sozinho, é menor que a metade do grupo inteiro) têm ao disssenso!

 

Beatriz Vargas Ramos é advogada; foi professora assistente de Direito e Processo Penal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente leciona na Universidade de Brasília (UNB).

 

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Comentários   

0 #4 .Felipe J. Piassa 02-12-2010 14:10
Agora me digam... qualquer semelhança entre o facismo do filme 'Tropa de Elite 2' e a invasão das forças armadas no Rio, seria apenas mera coincidência?
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0 #3 Roberta Ibanez 01-12-2010 12:04
Concordo plenamente e me identifico com suas opiniões! Eu tbm ando discutindo com a tv... Até agora, ao que parece, o verdadeiro interesse do Estado não é acabar com o tráfico de uma vez por todas, mas sim mantê-lo em um nível tolerável e controlável (quem sabe pelas próprias UPPs...)! Se o desejo fosse mesmo a eliminação definitiva do tráfico, a descriminalização das drogas, em especial da maconha, e o "pente fino" nas instituições seriam a tônica das notícias que temos acompanhado... Fico mais chateada pelos moradores destas favelas que estão sendo vítimas das mais cruéis brutalidades e, ainda assim, a maioria justifica a ação policial pela esperança de viverem em um lugar livre dos traficantes! Até parece que o Estado está verdadeiramente preocupado com o bem estar dessas pessoas... Viva a copa e as olimpíadas no Rio! Viva a hipocrisia e a ignorância! Viva os heróis torturadores e assassinos que cometem seus crimes impunemente e com total aval do Estado!!! Não sei como alguém ainda consegue ter esperanças...
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0 #2 circoAugusto de Almeida 01-12-2010 10:36
Simplesmente brilhante, Doutora. Chamo-lhe de Doutora (com maiúscula) não pelo título a que faz jus, mas pelo brilhantismo do artigo. Cujo resumo talvez esteja na sua seguinte frase: "No fim, a guerra é do mesmo partido que a droga, o partido da sensação, ela promete o mesmo que a droga". Se falta pão, certamente não falta circo. Até quando, veremos.
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0 #1 RioÉd Alemão 01-12-2010 09:36
Éd Alemão
Apesar da parafernália da televisão e dos meios de comunicação para desviar o foco da origem deste problema no Rio para depositar a culpa no indivíduo ou comunidade, a Nação não é mais ingênua quanto mais imbecil.

Só é cego quem não quer ver, o problema é governamental. Mas, muitos cabeças duras questionam: e como tem gente honesta na favela que não está fazendo parte do crime?

Eu vou responder fazendo uma analogia: Vamos dizer que o Governo é a mão que segura o leite pra encher os copos sobre a mesa. Se ele regular direito na medida e tomar o cuidado pra não derramar, vão ser cheios muitos copos sem desperdícios.

Agora, se ele for indisplicente e não tomar o devido cuidado pra derramar, o resultado é catastrófico. É leite derramado na mesa que por sua vez cai ao chão.

O leite derramado na mesa são as pessoas que apesar de não ter conseguido prosperar dentro da sociedade (leite no copo), conseguiram ficar livre da marginalidade através de algum apoio ou mão amiga, e não escorregaram para o crime como o leite caído no chão.

Este leite no chão é humanamente impossível dele conseguir voltar para a mesa, ou quanto mais para o copo. É o que acontece com os desesperados quando enxergam seus filhos, sua família com fome.

A força gravitacional do sistema só é interrompida com ações governamentais que previna estas desgraças e não apenas em situações de combates.

Mas muitos cabeças duras falam que nada justifica o crime. Eu até concordo, mas vai falar em Deus pra um faminto. Precisamos se ligar em quem está segurando o leite.

Agora, o que não é justificável e muito condenável é o roubo das verbas públicas gerando esta miséria. Ainda mais que somos a 8ª economia do Mundo onde circula 2 trilhões de dólares e pagamos 200 bilhões de reais por ano de juros da dívida maldita eterna que nunca se acaba.

Somando a tudo isso temos uma bela religiosidade que ressalta a vida após a morte pra não ir pro inferno, enquanto eles poderiam estar ensinando pra estas pessoas mais humildes não terem cartões de crédito, desligarem as suas televisões em propagandas consumistas e incentivar a união comunitária através da solidariedade e estabelecer que só podem falar no nome de Jesus aqueles que realmente querem ajudar as pessoas necessitadas sem nenhum interesse ou recompensa, porque Jesus deu o pão e o vinho de graça.

Aí, muitos sem entendimento da causa e levados pela mídia manipuladora acham que os culpados são as pessoas envolvidas que queriam luxo e prazer, pois acreditam que o país está cheio de empregos, que pagamos a dívida externa e que não existe nenhuma favela.

ORÁCULO – www.escolasensitivista.blogspot.com
www.ed10alemao.wordpress.com
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