Voltando ao tema do fascismo

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O professor Pablo Ortellado fez um excelente estudo do conteúdo de 8 milhões de compartilhamentos de 115 páginas da campanha Bolsonaro, onde identificou a prevalência em 80% delas de apenas três temas: antipetismo, anti-Globo e antifeminismo.

De onde ele concluiu, não apenas no repercutido e criticado artigo na Folha de S. Paulo, que esse eleitorado não pode ser identificado de forma simplista e rotulatória como "fascista", pois os temas em questão seriam mais das "guerras culturais" do que do fascismo clássico, centrado no nacionalismo extremado e beligerante e na xenofobia, relativamente ausentes do bolsonarismo brasileiro.

Em primeiro lugar, creio que a discussão é urgente e muito necessária e a contribuição de Pablo se dá na perspectiva e no campo dos que lutam contra todas as formas de fascismo, trazendo um instrumento de análise precioso e muito bem desenvolvido por ele e sua equipe de pesquisa.

A título de breve comentário, acho que é necessário distinguir duas coisas: o projeto orgânico de Bolsonaro e dos grupos que o cercam e o significado sociológico do seu eleitorado e das razões que o identificam com esse líder, tão destituído de qualidades de qualquer tipo.

O eleitorado tem polos simbólicos de identidade que abrangem esferas difusas do conservadorismo moral e religioso, que podem explicar o peso de temas que são verdadeiros fetiches, como o suposto "kit gay" e que esclarece também a predominância masculina e branca de classe média.

Mas, como já disseram muitos autores como Adorno, ao estudar a "personalidade autoritária" do Reich e examinar o recalque sexual e as identificações libidinais com o líder autoritário como fundamentos do fato de que grande parte do povo alemão "desejou o nazismo", há um pano de fundo da crise e da miséria social e cultural que é o caldo de cultivo para mobilizar ativamente setores de classes médias numa militância pró-fascista.

Mas não basta essa camada soturna da população, que é necropolítica, nem sequer a existência de forças militares e paramilitares especializadas em extermínio e repressão de massas. É preciso um partido para o fascismo vencer com uma estrutura hierárquica em torno do seu chefe. Isso ainda é incipiente no Brasil e constitui uma das debilidades do projeto fascista.

Não é possível substituir um programa político e econômico partidário por um golpe puramente militar. É preciso um programa econômico e político que unifique esse projeto e hoje ele é, no mínimo, uma grande confusão.

Porém, não significa que ele não esteja em articulação. Por isso, mesmo que o eleitorado em si não seja "fascista", nem deseje diretamente campos de concentração ou extermínio para esquerdistas, gays e feministas ou execuções extrajudiciais em modo filipino, a existência de um capitão cercado de generais que já declarou que Pinochet e a ditadura brasileira mataram foi pouco, que até FHC devia ter sido fuzilado, que exalta a tortura e promete uma guerra civil, mesmo que morram muitos inocentes, é uma expressão aberrante da onda conservadora internacional, cuja denominação não pode ser outra do que a de um projeto fascista.


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Henrique Carneiro é historiador e professor da USP.

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