Mais uma crise na USP

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A atual Reitoria da Universidade de São Paulo pretende aprovar, no Conselho Universitário do próximo dia 7 de março de 2017, um documento que trata de parâmetros de sustentabilidade para a universidade. A mídia especializada em educação, por sua vez, tem dado algum destaque para a questão da dita crise enfrentada pela USP, mas parece estar cada vez mais restrita apenas ao ponto de vista da gestão reitoral, o que não auxilia o debate.

Uma vez a USP estando em pauta, que fossem então pesquisadas e colocadas as questões como se apresentam na voz de todos os envolvidos, e não apenas as respostas falaciosas e com expressões de efeito fornecidas pelos representantes da Reitoria, que articulam números e fatos na defesa de uma gestão que considera a Universidade uma grande empresa do ramo educacional sem pessoas reais. Essa visão parece hegemônica na sociedade e a armadilha de tomá-la como pressuposto é perigosa para todos os que defendem a cidadania e os direitos sociais conquistados.

Não obstante ao que se apresenta em termos financeiros - que pode inclusive ser questionado, uma vez que os gastos da USP apresentam transparência insatisfatória - a visão da atual gestão da USP em relação aos funcionários é perversamente míope, e é reproduzida pelos veículos de comunicação sem crítica alguma.

Como professora de uma das creches a ser extinta pelas ações que visam cortar gastos, vivencio o desmonte material e simbólico do meu trabalho, ao tempo em que enxergo evidências claras de que o problema da USP não é o gasto com as creches, restaurantes ou Hospital Universitário, muito menos com meu salário de técnico contratado por 30 horas semanais.

O problema parece estar mais numa visão de mundo em que a prioridade é prosperar interesses de particulares, muitos deles docentes da própria Universidade, por meio de contratos com suas empresas de prestação de serviços terceirizados e fundações. E para que isso se concretize sem maiores questionamentos, a sociedade tem sido sistematicamente convencida de que o serviço público é o mal da economia.
 
Ora, a USP não chegou a ser a referência que é nos âmbitos de Ensino, Pesquisa e Extensão sem competentes docentes, mas também foram fundamentais os educadores, técnicos de laboratório de diversas especialidades, secretários, fotógrafos, jornalistas, músicos, jardineiros, vigias, cozinheiros etc. (muitas dessas funções já extintas), que além de promoverem campos de pesquisa para docentes e alunos, trabalharam pela permanência estudantil, sem a qual não se garante o sucesso dos alunos de menor renda. E todos eles funcionários públicos, a despeito do que nos queira fazer crer os arautos da ideologia liberal.

Localizar a crise financeira da USP nos salários dos funcionários técnicos administrativos é como localizar a causa do resfriado na febre. É importante ressaltar que o Estado não cumpre alguns acordos de repasse de verbas há anos, e a questão da folha de pagamento precisa ser resolvida também no âmbito estadual.

Vale colocar, ainda, que ocorre uma reforma na carreira docente e vislumbra-se, num horizonte próximo, a precarização das condições de trabalho dos professores que ainda não puderem sair pela via da aposentadoria, o que impactará a qualidade da formação do aluno da USP. Acredito que, deste modo, seja possível pensar que o que está sendo levado a cabo não é um mero ajuste contábil.

Lançar a opinião pública contra os funcionários não parece ser, portanto, o caminho para solucionar o real impasse que está colocado: como obter e onde gastar verbas, caso ainda se queira que a USP seja uma universidade pública, gratuita e com ensino e pesquisa de qualidade minimamente compromissados com a coletividade da sociedade?


Leia também:

Reforma da Educação, ditada pela área econômica, levará a uma formação regressiva e deficiente – entrevista com Roberto Leher, reitor da UFRJ.


Ana Helena é bacharel em Filosofia, licenciada em Pedagogia, especialista em Dança e Consciência Corporal e professora da creche pré-escola oeste da usp desde 2001

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