Morte e vingança na Cidade de Deus

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Durante esta semana, 14 mil estudantes cariocas não puderam ir à escola. Alguns comércios das favelas da Cidade de Deus e da Maré baixaram as portas e penduraram o aviso de “fechado”. Pais e mães voltaram ao estado de pânico que aparece quando se teme que uma bala perdida possa arrancar a vida de um filho.

 

Tudo começou no sábado passado. A favela que se fez conhecida internacionalmente com o filme do cineasta brasileiro Fernando Meirelles passou a madrugada da sexta-feira, 18, ouvindo barulhos de disparos que se prolongariam por quase 24 horas. A guerra para recuperar território entre os narcotraficantes do Comando Vermelho e as milícias da zona oeste provocou a intervenção policial em torno da meia noite. Esta cena, que se produz semanalmente desde que o Rio de Janeiro deixou de ser cidade “olímpica” para voltar a ser tão somente “maravilhosa”, havia passado desapercebida se não fosse pelo fato de que às 19h30 do sábado um helicóptero da Polícia Militar caiu dentro da Cidade de Deus. Os quatro agentes que se encontravam dentro do veículo aéreo morreram no ato.

 

Sem contrastar informações, os meios de comunicação publicaram uma primeira teoria segundo a qual o helicóptero havia sido derrubado a tiros por narcotraficantes. Os habitantes da comunidade já sabiam o que viria depois: mais tiros, mais mortes, invasões de domicílios, ocupações de territórios e filhos mortos.

 

Quando chegou a noite uma centena de vizinhos se juntaram para ajudar a buscar familiares que haviam sumido. Depois de horas de busca, em plena mata atlântica, encontraram sete corpos. A segunda notícia do fim de semana chegava na primeira hora do dia com a foto dos sete cadáveres amontoados em uma praça, tapados com lençóis e rodeados por familiares e vizinhos que contemplavam a cena: todos negros, todos jovens, todos pobres.

 

A imagem coincide com as cifras. Segundo o informe 2015-2016 da Anistia Internacional (AI), das 58 mil pessoas assassinadas no último ano no país, pelo menos 77% eram negras, jovens e habitantes de favelas. O diretor da AI, Atila Roque, usa outra imagem impactante para descrever esses números: “é como se a cada dois dias caísse um avião cheio de jovens”.

 

“Bandido bom é bandido morto”

 

Na última hora do domingo, 20, o Secretário de Segurança Roberto Sá informou que a perícia do helicóptero não havia mostrado impactos de bala, e assegurou que os agentes haviam falecido por conta do impacto e não por disparos. Os meios de comunicação começaram a corrigir seus erros, enquanto policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) jactavam-se da morte dos sete jovens no facebook: “agora todos estão chorando, mas conosco não se brinca”.

 

Os pais dos jovens assassinados reconheceram que a maioria das vítimas estava vinculada com o tráfico de drogas, mas denunciaram que aquele feito não justificava que houvessem sido “executados a sangue frio, com tiros na nuca, pelas costas, com amputações e roubo de pertences, como a aliança de casamento de um deles”, contava para a Folha o pastor evangélico Leonardo Martins da Silva, pai de um dos assassinados. “Por que não os levaram para a prisão? Por que os mataram?”, dizia uma das mães enquanto contemplava seu filho no chão, segundo relato do mesmo jornal.

 

Essa pergunta, lógica em qualquer parte do mundo, poderia parecer retórica no Rio de Janeiro, o segundo estado, depois de São Paulo, onde a polícia mais mata gente. Segundo dados da Anistia Internacional nos últimos seis anos a polícia carioca foi responsável por entre 13% e 21% dos assassinatos cometidos na cidade. Em 2015, uma de cada cinco pessoas falecidas morreu por “homicídio derivado de ação policial”.

 

Mas este feito parece normal para a sociedade, que apoia a popular frase “bandido bom é bandido morto”. O último Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 50% da população concorda com esta frase. “O Estado fracassou e incentivou uma política de segurança que estimula o confronto e a ideia de guerra”, explica o sociólogo Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Foro Brasileiro de Segurança Pública.

 

Esta mesma semana a conhecida apresentadora de televisão Fátima Bernardes plantou em seu programa uma pergunta relacionada com a estreia do documentário “Sob Pressão”, que trata o tema da atenção médica de urgência. A questão que lançou ao público foi a seguinte: “quem você salvaria primeiro: um traficante gravemente ferido ou um policial com ferimentos leves?” A pergunta derivou um debate que durou toda a semana e do qual a apresentadora se saiu muito mal, já que em um momento reconheceu que “normalmente se atende o mais grave”. Vários policiais começaram a atacar Fátima Bernardes, que chegou a sofrer ameaças de estupro nas redes sociais. E o deputado e ex-militar Jair Bolsonaro foi um dos primeiros a se meter com a apresentadora, a qual com poucos dias de polêmica depois quis deixar claro que pra ela “a polícia sempre vem primeiro”.

 

Os dados que a Human Rights Watch (HRW) apresentou no último mês de julho parecem avaliar que a tese do “bandido bom é bandido morto” seria amparada pelo sistema judicial quando ignora as denúncias que lhe chegam. O procurador geral do Rio de Janeiro, Marfan Martins Vieira, reconhecia no informe da HRW que “grande parte dos enfrentamentos com mortes por ação policial era simulada” e confirmava que o Ministério Público admitia “pouquíssimos casos de denúncias a policiais”.

 

O sistema judiciário também chamou a atenção esta semana quando a juíza do Estado do Rio de Janeiro Angélica Santos assinou um mandato que permitia a busca e apreensão coletiva para todas as residências da Cidade de Deus sob a justificativa de procurar armas: “onde já se viu tamanha aberração em permitir entrar dessa maneira nas casas das pessoas na favela? Nunca vi nada parecido com os habitantes dos Jardins, bairro nobre de São Paulo”, denunciou a socióloga Esther Solano.

 

O mandato da juíza Angélica Santos não fez nada além de legalizar uma prática habitual da polícia, questionada há anos por associações internacionais e pelos próprios vizinhos das comunidades. No último mês de maio, Irone Santiago, mãe de outra vítima da violência policial, contava como durante o ano em que a Polícia Militar ocupou a Maré, a invasão de casas a qualquer hora era habitual: “entravam e nos roubavam nossos pertences, ameaçavam matar nossos filhos, para não falar em balas perdidas”, dizia.

 

Crise de segurança

 

Na segunda-feira, 21, começaram as ocupações da Cidade de Deus e também da Maré. Agentes da PM e da Força Nacional entraram na primeira hora da manhã para ficar. A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro não confirmou por quanto tempo ficarão. A duração do lapso de permanência dependerá de como o secretário Roberto Sá solucione a grave crise de segurança que atravessa o Estado.

 

Ao longo da semana se soube que o helicóptero acidentado não apenas não havia caído por disparos, mas que os motivos haviam sido por problemas técnicos, um fato que não surpreendeu os agentes, que sabiam que há um ano a PM não pagava a manutenção das aeronaves por falta de dinheiro.

 

Foi precisamente a falta de recursos e o aumento da violência dos últimos meses o que causou a demissão, em outubro, do antigo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, um dos principais precursores das Unidades de Polícia Pacificadora nas favelas. Hoje em dia diversos sociólogos consideram que o modelo fracassou.

 

A crise econômica que atravessa o Estado do Rio de Janeiro deixa os policiais há meses sem receber seus salários (já naturalmente escassos) em dia, além de ter deixado dezenas de viaturas sem poder sair à rua por falta de dinheiro para a gasolina e mantém os batalhões e delegacias sem papel higiênico nos banheiros e sem tinta ou papel para as impressoras.

 

Com a crise da segurança, a violência não fez mais nada além de aumentar, e os policiais também morrem mais que nunca. Nos últimos dois meses o assassinato de agentes, tanto durante sua jornada de trabalho como fora dela, triplicou. O ciclo de vingança parece não ter fim e as vítimas são sempre as mesmas. “Na última segunda-feira, 21, no cemitério, não dava para distinguir as mães dos policiais mortos das dos traficantes. Eram iguais: negras e pobres”, resumiu Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas.

 

 

 

Agnese Marra é jornalista.

Texto publicado em espanhol no jornal Brecha, de Montevideo.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

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