Uma criminalização que é o verdadeiro crime

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O Movimento Primavera Estudantil e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) são hoje os dois Movimentos Populares mais perseguidos pelo governo federal - golpista, usurpador, ilegítimo e ditatorial - e por governos estaduais, capachos. É uma iniquidade traiçoeiramente planejada, legalizada e institucionalizada, que clama por justiça diante de Deus.

 

O Movimento Primavera Estudantil chegou a ter, em seu auge, mais de mil lugares ocupados - e a ocupação é legítima - em todo o país. Segundo a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), foram 995 escolas e institutos federais, 73 campi universitários, três núcleos regionais de Educação, além da Câmara Municipal de Guarulhos. Ao todo, 1.072 locais.

 

O movimento luta contra a Proposta de Emenda Constitucional PEC 241 (no Senado PEC 55), que congela por 20 anos os gastos públicos em diversas áreas sociais como educação, saúde, infraestrutura, segurança e outras. Luta também contra a reforma do ensino médio, proposta pela Medida Provisória MP 746, enviada ao Congresso. Com razão, o movimento argumenta que a proposta de reforma deve ser debatida amplamente pelos alunos, professores, especialistas em educação e sociedade organizada antes de ser implantada por MP, que começa a vigorar imediatamente.

 

Parabéns jovens estudantes! Vocês demostram muita maturidade e responsabilidade. Vocês se reconhecem em Ana Julia Ribeiro e são orgulhosos(as) do fato de uma de vocês (adolescente de 16 anos e estudante secundarista) conseguir romper o cerco da mídia e - em discursos emocionantes - falar na Assembleia Legislativa do Paraná e na Comissão de Direitos Humanos do Senado (26 e 31 de outubro, respectivamente), com coragem e firmeza, por todos e todas. Foram acontecimentos que, além de nos surpreender e renovar a nossa esperança, revelam um avanço significativo na organização.

 

A luta de vocês - e nossa também - é justa. Não se deixem intimidar pelas ameaças de um governo ilegítimo e ditatorial. Continuem unidos e contem com o apoio e a solidariedade que vocês têm, nacional e internacionalmente. Sua garra e seu testemunho nos edificam. Ensino público de qualidade para todos e para todas já!

 

MST

 

Por causa de sua luta pelo direito a terra (que, como diz o Papa Francisco, é um direito sagrado) e pela Reforma Agrária Popular, é constantemente perseguido. Na nota “Mais Reforma Agrária e fim da criminalização do MST” (Curitiba, 4 de novembro de 2016), o movimento afirma: “mais uma vez, o MST é vítima da criminalização por parte do aparato repressor do Estado paranaense. A ação violenta batizada de ‘Castra’ aconteceu no dia 4 de novembro, no Paraná, em Quedas do Iguaçu; Francisco Beltrão e Laranjeiras do Sul; também em São Paulo e Mato Grosso do Sul. O objetivo da operação é prender e criminalizar as lideranças dos Acampamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, militantes assentados da região central do Paraná. Até o momento foram presos seis lideranças e estão à caça de outros trabalhadores, sob diversas acusações, inclusive organização criminosa”. Que absurdo!

 

Diz ainda a Nota: “desde maio de 2014, aproximadamente 3 mil famílias acampadas, ocupam áreas griladas pela empresa Araupel. Essas áreas foram griladas e, por isso, declaradas pela Justiça Federal terras públicas, pertencentes à União que devem ser destinadas para a Reforma Agrária. A empresa Araupel que se constitui em um poderoso império econômico e político, utilizando da grilagem de terras públicas, do uso constante da violência contra trabalhadores rurais e posseiros, muitas vezes atua em conluio com o aparato policial civil e militar, e tendo inclusive financiado campanhas políticas de autoridades públicas, tal como o chefe da Casa Civil do governo Beto Richa, Valdir Rossoni”.

 

Essa empresa, sim, é uma verdadeira organização criminosa, não o MST. E o Poder Público que - com uma operação policial bárbara - apoia e defende essa organização, é também criminoso.

 

Continua a nota: “salientamos que essa ação faz parte da continuidade do processo histórico de perseguição e violência que o MST vem sofrendo em vários estados e no Paraná. No dia 7 de abril de 2016, nas terras griladas pela Araupel, as famílias organizadas no Acampamento Dom Tomas Balduíno foram vítimas de uma emboscada realizada pela Polícia Militar e por seguranças contratados pela Araupel. No ataque, onde foram disparados mais de 120 tiros, ocorreu a execução de Vilmar Bordim e Leomar Orback, e inúmeros feridos à bala. Nesse mesmo latifúndio, em 1997 pistoleiros da Araupel assassinaram em outra embosca dois trabalhadores Sem Terra. Ambos os casos permanecem impunes”.

 

A nota conclui: “denunciamos a escalada da repressão contra a luta pela terra, onde predominam os interesses do agronegócio associado à violência do Estado de Exceção (que - acrescento eu - é muito parecido com o Estado Nazista). Lembramos que sempre atuamos de forma organizada e pacifica para que a Reforma Agrária avance. Reivindicamos que a terra cumpra a sua função social e que seja destinada para o assentamento das 10 mil famílias acampadas no Paraná. Seguimos lutando pelos nossos direitos e nos somamos aos que lutam por educação, saúde, moradia, mais direitos e mais democracia. Lutar, construir, Reforma Agrária Popular!”.

 

A operação de guerra contra o MST, acontecida em São Paulo, contou com 10 viaturas da polícia civil que invadiram a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Nessa ação truculenta, ditatorial e inadmissível dois militantes foram detidos. De acordo com relatos, os policiais chegaram por volta das 9h:25m, pularam o portão da Escola e a janela da recepção e entraram atirando em direção às pessoas que se encontravam na Escola. Os estilhaços de balas recolhidos comprovam que nenhuma delas é de borracha, mas que todas são letais. O objetivo da operação é, mais uma vez, criminalizar o MST. Que barbárie! Que atraso político! Que vergonha para o Brasil!

 

O MST recebeu do mundo inteiro mensagens de repúdio à ação do governo e de apoio ao movimento. Está se formando uma grande rede nacional e internacional de solidariedade ao MST. Projeto Político Popular e Reforma Agrária Popular já!

 

 

Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, é doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP), professor aposentado de Filosofia da UFG.

 

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