Quem são os culpados?

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Sobre a importância da sua continuidade no parlamento, Jean Wyllys destacou em entrevista ao Lado B do Rio, em 31 de agosto de 2018:

“Entre tantas fake news feitas e reproduzidas e divulgadas a meu respeito, a última é a de que eu já estou reeleito. Essa fake news é muito complicada porque na verdade ela também tem a função de me deixar fora do parlamento. Então, dissuadir as pessoas de votarem em mim porque eu já estou eleito é uma forma de me deixar fora do parlamento. Não estou. Vamos trabalhar muito pra isso, pra reeleição. Eu acho que mais que nunca a minha reeleição e a minha presença na Câmara se faz necessária no momento em que a Câmara não vai se renovar progressivamente e nem vai se renovar, digamos, do ponto de vista humanitário. Se a gente ampliasse a bancada progressista humanitária já estaria bom. Eu acho que ela não vai se renovar à esquerda. Ela vai se renovar à direita. Eu acho que vai aumentar o número de deputados ligados à bancada da bala, que é a bancada financiada pela indústria armamentista e ligada às forças de segurança, Polícia Civil e Polícia Militar.

Com todo respeito aos policiais, óbvio, porque são trabalhadores, mas a gente sabe o quanto essas corporações abrigam fascistas, né? Não são todos, mas há muitos fascistas nessas corporações. E a tendência é que justamente esses sejam os eleitos. Então vai ampliar a bancada de fundamentalistas religiosos, e aí eu faço questão de dizer fundamentalistas religiosos para não estigmatizar os evangélicos, porque estas pessoas não representam todos os evangélicos do país, é importante que se diga isso. Henrique Vieira, Ricardo Gondim, Caio Fábio, são muitos pastores, luteranos, anglicanos, que não comungam do fundamentalismo religioso. Mas a tendência é aumentar justa e lamentavelmente os fundamentalistas religiosos. E aumentar os barões do agronegócio.

Portanto, numa Câmara que não vai se renovar à esquerda, vai se renovar, entre aspas, à direita, na verdade não vai se renovar, vai se ampliar essa bancada de reacionários e conservadores, mais do que nunca, se faz necessária a minha presença, né? A gente diz que há poucas mulheres no parlamento e há mesmo. São apenas 55 na Câmara. Mas LGBT só tem um. Que sou eu, o único. E o único que vai além em pautas que, em geral, as pessoas não vão. Tem pessoas progressistas, não vou citar o nome delas aqui, por uma questão ética, de partidos de esquerda, que não assinaram a PEC do Casamento Civil Igualitário, por exemplo. Da bancada do Rio de Janeiro. E não assinaram a PEC do Casamento Civil Igualitário para não se indispor com o seu eleitorado.

Assim, mesmo que seja progressista do ponto de vista da classe social, do direito dos trabalhadores, do combate à desigualdade social, é conservador em termos de costumes. Por exemplo, não assina nenhuma proposição legislativa que garanta direitos sexuais e reprodutivos às mulheres, sobretudo o direito ao Aborto Legal. Não assina o Casamento Civil Igualitário. Não se envolve com o povo de santo, não defende as religiões de matriz africana. Não defende os ateus e seu direito ao ateísmo num Estado laico como o nosso. Mais que nunca, a minha presença na Câmara é importante para garantir esse espaço, né?”

Feito o preâmbulo, descrevi sua resposta porque acordei às 3:30 deste domingo pensando nisso, sem conseguir dormir mais. E tem sido uma constante, mesmo estando de férias e consumindo cerveja quase diariamente, em níveis industriais.

Desde o Golpe de 2016 que, dentro do espaço que me cabe, busco alertar àqueles (as) que me ouvem no programa, às vezes em tom cantinflesco, mas nunca quixotesco, que em pouco tempo o Brasil viraria uma República Miliciana-Neopentecostal, onde a difamação, a perseguição e a morte seriam regras.

“Ora, Fagner, mas no Brasil sempre se difamou, perseguiu e matou”. Sim. Contudo nessa “nova era” que eu vejo como anunciada há pelo menos três anos, haveria uma clara diferença: neste novo tempo, esses três elementos, que juntos atendem pelo nome de barbárie, receberiam um apoio popular completamente desnudado. Seríamos uma espécie de mix entre México e Arábia Saudita.

E este tempo chegou. Como é imenso e obsceno o apoio à barbárie fora da minha bolha! As redes estão inundadas, os corredores e as esquinas estão insalubres. Pessoas como o Jean, que ao longo da sua curta trajetória política encamparam todas as lutas citadas acima, estão sendo obrigadas a irem embora do Brasil porque são difamadas e perseguidas. E quantas pessoas do seu mesmo nível intelectual e de compromisso com o ser humano ainda teremos de perder para os bárbaros?

Fico me perguntando quando foi que atravessamos exatamente esse rubicão. Quando foi que a maldade passou a ser motivo de gozo declarado da maioria?

Ao contrário de muitos amigos, o conhecimento não me serviu de ferramenta para o otimismo. Sempre fui de um pessimismo quase irrevogável em relação à existência. Mas olhando pra trás, pensando em retrospectiva, como as coisas podem mudar pra pior em tão pouco tempo? Quem são os culpados por isso? Como devemos corrigir esse rumo?

Que desgraça nós nos tornamos.

Fagner Torres é jornalista e um dos apresentadores do programa Lado B Rio, podcast semanal veiculado pela webrádio Central 3.

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