Carta às minhas amigas e a meus amigos – a real decisão do 2º turno

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Tenho enviado, a vocês e a outros conhecidos, textos sobre a escolha nas eleições do próximo dia 28. Como nem todos me respondem, achei que já tinham decidido votar em Haddad. Mas continuei a enviar meus textos: poderiam ser úteis para convencer mais amigos.

Fui surpreendido, no entanto, por uma resposta, em que me foi enviado um texto de alguém que explicava porque votava em Bolsonaro. Fiquei impressionado com os argumentos, calmos e refletidos, de quem o havia escrito, para afastar o PT definitivamente do poder no Brasil. Era convincente porque baseado na experiência pessoal de insegurança vivida por essa pessoa e seus familiares. Mas dizia que essa insegurança, um fato real, era culpa do PT.

O raciocínio é obviamente forçado porque de fato destina-se a aumentar o antipetismo, uma das bases da campanha do Bolsonaro. Mas é também ilógico, porque o candidato que diminuiria a insegurança é aquele que quer liberar totalmente o acesso a armas, com o que passaríamos de fato a ter medo de andar na rua. Até batida de carro poderá ser resolvida no tiro. O que ocorre nos Estados Unidos? Sem controle da venda de armas, comunidades inteiras são frequentemente vitimadas por desequilibrados.

Pensei em escrever uma carta pessoal a esse amigo, que prezo muito, discutindo essas questões. Mas porque não escrever uma carta geral? Temos que mostrar ao máximo possível de pessoas o enorme risco que estamos correndo. É o que faço.

De fato o PT não conseguiu diminuir a violência. Ela vem de muito antes e é, junto com a desigualdade social, um dos maiores desafios do Brasil. Com o bolsa-família (programa do PT que ninguém ousou dizer que interromperia), se conseguiu diminuir a miséria absoluta, que pode aumentar a violência. Mas ela é devida mais à droga, à ganância, às balas perdidas nos tiroteios entre criminosos e polícia, à própria polícia (“bandido bom é bandido morto”).

Se o candidato do PT fosse eleito, não poderíamos exigir dele que levasse em conta essa e outras críticas aos governos do seu partido? Seu candidato agora é um jovem (falo do alto dos meus 86 anos), extremamente sensato, conciliador e preparado (professor de universidade, diplomado em direito, economia e filosofia). Foi um ótimo Ministro da Educação (não achamos todos que pela educação resolveremos muitos problemas do Brasil?)

Não sei se todos vocês sabem, mas já fui do PT. Cheguei a ser vereador por esse partido na Câmara Municipal de São Paulo por dois mandatos. Reencontrei ontem à noite, num ato de apoio a Haddad, a ex-prefeita Luiza Erundina, de cujo governo fui líder na Câmara. Ela, como eu, saímos do PT porque não concordávamos com certas orientações do partido. Como a do pragmatismo dos que o lideravam, que achavam que não devíamos ser muito exigentes na luta contra o oportunismo e a corrupção, uma doença crônica do país (desde que começou a ser explorado).

Com isso o governo do PT caiu em contradição: por um lado criou organismos e leis para combater a corrupção e, por outro, até facilitou que políticos corruptos continuassem a usar dinheiro do governo e suas estatais para financiar suas campanhas eleitorais e seus bolsos.

O resultado é que, com isso, o PT é acusado pelos seus adversários como sendo “o” partido da corrupção. Ele sozinho, sem nenhum outro lhe fazendo companhia, nem personagens como Maluf, Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Collor, Rocha Loures e sua mala de dinheiro, Coronel Lima e tantos outros. E o próprio Lula está cumprindo pena (decisão que ainda será anulada por força do Princípio Constitucional e Universal da Presunção da Inocência) pela Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo promulgou (e de cuja coleta de assinaturas eu também participei, intensamente).

Poucos ligam o fato de a Polícia Federal ter passado a ser melhor paga e equipada no governo Lula e por isso ter ganho sua atual eficiência, com “operações” que descobrem, uma atrás da outra, novos “esquemas” de tantos espertalhões que existem no Brasil (muitas vezes vinculados a “políticos”)

Mas por que falei de risco, se elegermos Bolsonaro? Não foi somente porque ele pretende autorizar o livre acesso às armas, com toda a violência que pode de fato invadir nossa vida cotidiana. Ou por outras orientações suas.  

Eu falei de outro tipo de risco. Não estamos, no segundo turno de 2018, diante de uma alternativa normal entre dois candidatos, ambos se empenhando para nos convencer do acerto de suas opções. É a saudável alternância da democracia, que permite que enfrentemos civilizadamente aqueles de quem discordamos, sem ódios, como adversários políticos e não como inimigos, na busca de saídas para nossos problemas.

Estamos de fato é diante de uma escolha muito grave: continuarmos ou não vivendo numa democracia. Um dos dois candidatos não quer democracia, quer ditadura. Se eleito quer prender seus opositores (para que “apodreçam na cadeia”) ou “banir esses marginais vermelhos da pátria”. Foi o que disse, com todas as letras, neste domingo, em discurso transmitido na Avenida Paulista. Ele saiu completamente dos trilhos da disputa democrática.

Muitos o sabiam, mas muita gente não se deu ainda conta, como se este segundo turno fosse como os outros. Isto preocupa a muitíssima gente, dentro e fora do Brasil. Fora, a grita é geral. Até a líder da direita na França, que já chegou ao segundo turno das eleições naquele país, disse: não, assim não dá. Com uma extrema direita como a de Bolsonaro não dá. Isto já é fascismo. Temos que dizer também: brasileiros, por favor, acordem! Hitler foi eleito!

Mas o discurso de Bolsonaro neste domingo começou enfim a acordar muita gente. Ontem Marina Silva decidiu declarar seu voto em Haddad. Anteontem foi a vez de Eymael, o “democrata cristão”. Outras lideranças seguramente o farão a tempo. FHC ainda não, mas criticou duramente o discurso de Bolsonaro na Paulista. Muitos evangélicos se recusam a seguir Edir Macedo em sua declaração de apoio a Bolsonaro. Esse pastor, muito hábil, acumula fortuna pessoal e de suas igrejas com os dízimos dos seus fieis e quer, aliando-se a Bolsonaro, desbancar com a Record o domínio da TV pela Globo. Mais de mil juristas, de muitas correntes políticas, acabam de assinar um manifesto de apoio a Haddad. E assim por diante.

Um dia antes desse discurso ouvimos as palavras de um de seus filhos, “macho” como ele, recém-eleito deputado federal com grande votação. Ele disse que mandaria um soldado e um cabo fecharem o STF se este atuasse contra Bolsonaro. Obviamente os ministros do STF estão reagindo em peso.

Assim também não dá, todos dizem. Já não chega o vice de Bolsonaro, General Mourão, ter dito em programa de TV na Globo que “heróis também matam”, referindo-se ao Coronel Ustra, notório torturador, e o próprio Bolsonaro dizer, com todas as letras, que aceita a tortura? Foi esse torturador que ele homenageou quando deu seu voto pelo impeachment de Dilma.

O amigo que me escreveu, levando-me a esta longa resposta, teria escrito a mim antes desse discurso? Será que ele refletiu sobre o recado que foi dato por Bolsonaro? Eu, pessoalmente, que participo da luta para nos salvar dos riscos das usinas nucleares, fico muito preocupado com esse candidato a ditador dizer que acabará com os “ativistas”. Ele disse também que aqueles que não concordassem com ele teriam que escolher entre sair do país ou serem presos. Serei então obrigado a me exilar de novo, quase no fim da minha vida?

Digo de novo porque, não sei se vocês sabem, fui exilado durante 15 anos. Saí do Brasil no fim de 1966. Só um mês depois reencontrei na França minha mulher e nossos quatro filhos. Se não saísse, poderia ser preso, torturado e morto (eventualmente pelo Coronel Ustra...). Era considerado inimigo do regime militar, por ter trabalhado no governo deposto do presidente João Goulart.

Depois da França passamos quatro anos no Chile, onde fui trabalhar nas Nações Unidas, antes de Allende ser eleito. Voltei para lá recentemente, 40 anos depois, com uma prima, viúva de Tulio Quintiliano Cardoso, fuzilado nos dias seguintes ao golpe de Pinochet. Teriam achado sua ossada, mas isto não se confirmou e ele continua na lista dos mais de 1.000 desaparecidos nesse golpe. Em texto que escrevi há pouco sobre essa viagem, conto como comecei a entender melhor o que é a lógica militar.

Na busca dos restos mortais de Tulio, li muitos depoimentos em processos judiciais em que o governo do Chile busca punir os militares que cometeram crimes durante a ditadura. Como no processo relativo ao fuzilamento sumário de 20 membros da Guarda Armada do Presidente Allende, conhecida como GAP. Presos na própria tarde de 11 de setembro de 1973, no Palácio de Governo, foram encarcerados num Quartel de Santiago. No dia 13 foram levados para uma área do Exército nas imediações e metralhados um a um, à beira de um fosso onde caíam e onde, ao final, foram lançadas algumas granadas, despedaçando e cobrindo os corpos de terra. O suboficial que disparou a metralhadora só suportou matar os primeiros cinco. Transtornado, foi substituído. Voltando ao Quartel, o comandante o chamou e lhe disse que compreendia que tivesse sido muito difícil e duro, mas que se acalmasse porque cumprira ordens. E completou: assim é a vida militar.

Bolsonaro é um militar. A formação militar baseia-se numa lógica que chamo de lógica da guerra. O objetivo é matar, destruir o inimigo. Ganha quem matou mais gente e destruiu mais. É uma lógica de violência. Mourão já nos explicou que os militares são os “profissionais da violência”. Essa lógica (na qual Bolsonaro pensa, fala e age) é todo o contrário da lógica da Paz, de construção de uma sociedade humana, que envolve o diálogo, a negociação, a inclusão, a tolerância, a diversidade, só possíveis numa democracia.  

A propaganda feita durante os quase cinquenta anos de Guerra Fria, pelos governos dos países “democráticos e civilizados do ocidente cristão”, identificava como inimigo o regime “comunista e ateu”, capaz de crimes hediondos sob a direção de ditadores assassinos (como o foram de fato não poucos dirigentes dos países comunistas). Acredito que nem todos os nossos militares estão ainda contaminados por essa propaganda, mas muitos o estão, como é o caso de Bolsonaro: seu principal inimigo é o comunista ou mesmo socialista.

Elegendo Bolsonaro empurraremos nosso país para uma polarização desse tipo, muito mais brutal e violenta do que a que já vivemos. Seus apoiadores já não estão tentando lançar uma petição pela pena de morte, para poder “eliminar” esse inimigo? Temo muito o que pode ocorrer entre sua eventual eleição e sua posse: pelas suas palavras (não preciso repeti-las aqui) ele pode liberar rancores recalcados de pessoas que decidirão fazer justiça – e aplicar castigos - com as próprias mãos. Pelas notícias dos jornais, parece que isto está começando...

Segundo o jornal argentino Página 12, Bolsonaro gosta de ser comparado a Trump, mas mais se assemelha, por sua biografia e gosto por sangue, ao presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte – um tirano também eleito.... Bolsonaro foi expulso do Exército ao final de um processo que chegou até o Superior Tribunal Militar, em que o parecer de um psicólogo militar indica que ele tem um “desvio grave de personalidade e uma deformação profissional”.

Seria esse desvio como os de Trump e Duterte, que se caracterizam pela falta de compaixão com seus semelhantes e mesmo crueldade? Todos conhecemos Trump. Poucos no Brasil conhecem Duterte. Eis trechos de artigo sobre ele de 19 de outubro último, do jornalista Marcos Rolim:

Ele fez sua campanha à presidência prometendo combater a corrupção e sustentando que “bandido bom é bandido morto”. “Melhor que escapem os que estão ligados ao tráfico de drogas, porque vou matá-los. Com seus corpos, alimentarei os peixes em Manila”.  (...)

“Esqueçam as leis de direitos humanos, mataria meus próprios filhos se fossem viciados em drogas” (...). “Seguindo minhas indicações, vocês não têm que se preocupar com as consequências penais (…) Irei à prisão buscar vocês”. (...) Tal postura tem estimulado que policiais matem suspeitos, usuários de drogas, moradores de rua, bêbados e doentes mentais.

Desde que assumiu a presidência em 30 de junho de 2016, mais de 13 mil pessoas (...) já foram executadas nas ruas (...). Duterte é um psicopata homofóbico e misógino que se tornou conhecido por dizer barbaridades que parecem para muitas pessoas como expressão de “sinceridade” e “coragem”. Seus adversários, à época, disseram que ele era um maníaco e que jamais poderia chegar à presidência. Ele respondeu que falou “do jeito que os homens falam”. A misoginia de Duterte aparece em muitos outros pronunciamentos.

Recentemente, em discurso no Palácio de Malacañang, ele afirmou que o Exército tem uma nova ordem no combate à guerrilha do Novo Exército do Povo (NEP)(...): “atirem na vagina das guerrilheiras, sem as vaginas, elas são inúteis”.

É o que tinha a lhes dizer e contar, neste momento tão decisivo de nossa história. Meu abraço. Chico Whitaker

Chico Whitaker é arquiteto e urbanista, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa por meio do MCCE – Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. Também é membro de movimentos antinucleares e do Fórum Social Mundial.

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