“A situação que levou ao incêndio do Museu Nacional é regra, e não exceção, pelo país”

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A tragédia do incêndio do Museu Nacional ainda não pode ser devidamente dimensionada, em especial ao levarmos em conta a calamidade social e econômica que assola o Brasil. Para os que lá trabalharam, restam o luto e a tristeza de se levar pra sempre a experiência de mais um caso de negligência com a coisa pública. Em entrevista ao Correio, a arqueóloga Mercedes Okumura, traz a visão de quem viveu o Museu Nacional por dentro (trabalhou lá entre agosto de 2014 e junho de 2018) e o que o incêndio expressa da sociedade e seus representantes.

“(A reação de governantes) diz muito sobre o quanto ‘conhecem’ o museu. A ideia de resolver tudo reconstruindo mostra bem a ignorância de tais pessoas. Não adianta falar em reconstruir agora. Eles não sabem o que é e para que serve um museu. Não adianta falar do financiamento que era pra ter sido dado há muito tempo”, lamentou.

Entristecida, Okumura, hoje coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo sai em defesa dos servidores públicos já alvejados pela mídia hegemônica – a mesma que defende dia e noite cortes do que considera “gastos” em políticas públicas. Reconhece a solidariedade de parte dos brasileiros, mas não tem dúvidas em afirmar que para alguns não interessa discutir a sério políticas de educação e cultura. Resta aprender e tentar construir um futuro menos mórbido do que o presente se mostra.

“Precisamos de esperança: as ideias de cultura, patrimônio e educação não são frivolidades na formação de um povo. São super importantes pra nos entendermos como nação, país, sociedade. E, caindo no clichê, para deixar de repetir erros do passado”.

A entrevista completa com Mercedes Okumura pode ser lida a seguir.
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Correio da Cidadania: Primeiramente, o que comentar sobre o incêndio do Museu Nacional?

Mercedes Okumura: Difícil comentar. Não escapamos daqueles clichês que nessas horas se mostram verdadeiros: é um momento muito doloroso para nós, comunidade científica e acadêmica e, quero crer, parte dos leigos que tinham afeto pela instituição. É um momento muito difícil pra nós.

Correio da Cidadania: Afinal, por que ocorreu? Quais as responsabilidades a repartir?

Mercedes Okumura: Não sei se sou a pessoa mais gabaritada pra falar, mas não precisa ser expert em políticas públicas pra entender que cultura, educação e patrimônio não são prioridades do poder público. E faz tempo. Não se trata de apontar pra esta ou aquela gestão. Nos seus 200 anos o museu sempre teve problemas de financiamento, é histórico.

E não vale só pro Museu Nacional. Agora, ele está no foco. Mas de modo geral, em todo o país, os museus estão na mesma situação. Não são prioridade em financiamento, manutenção.... Infelizmente, o que aconteceu é algo que pode acontecer em outros museus. Aliás, já aconteceu, a exemplo do Museu da Língua Portuguesa, Memorial da América latina, Instituto Butantan...

O descaso do poder público é regra, não exceção.

Correio da Cidadania: Enxerga uma ofensiva, uma abordagem agressiva, da mídia que apoiou todas as reformas austeritárias dos últimos anos no sentido de culpabilizar servidores públicos?

Mercedes Okumura: Até certo ponto sou otimista. Vejo parte da mídia querendo tratar da história do museu pelo ponto de vista de quem o conhecia, de quem trabalhava com seu acervo. O acervo do museu não era trabalhado só por seus pesquisadores, era visitado por pesquisadores do Brasil e do mundo inteiro. Eu mesma já levei estrangeiros para trabalhar nas coleções.

Parte da mídia tenta olhar com simpatia para o nosso lado. E quando digo nosso lado não me refiro ao fato de ter trabalhado lá por quatro anos, não me coloco como ex-funcionária, e sim como alguém que trabalha com pesquisa e educação no Brasil.

Penso que, em alguns casos, talvez essa entrevista seja exemplo, as pessoas se interessam em nos ouvir, entender como se trabalha em lugar precarizado e como precisamos ser criativos para fazer as coisas funcionarem.

Mas aquela expressão de que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco é verdadeira, em qualquer tragédia. Querem fazer a busca de culpados. Tentaram culpar os bombeiros, imagine, pessoas que foram lá tentar salvar a situação, trabalhando, como a maioria dos brasileiros, com os recursos que se têm à mão. Tentaram culpar bombeiro, servidor público, a própria UFRJ. Infelizmente, é natural.

Parte da mídia não tem interesse em de fato chegar aos principais culpados, em discutir as consequências dos cortes em educação e cultura, o descaso do poder público, o abandono de políticas de incentivo à cultura... Pra alguns, nada disso interessa.

Correio da Cidadania: Como avalia as reações do governo federal e também das autoridades do Rio de Janeiro?

Mercedes Okumura: Diz muito sobre o quanto “conhecem” o museu. A ideia de resolver tudo reconstruindo mostra bem a ignorância de tais pessoas. Não adianta falar em reconstruir agora. Eles não sabem o que é e para que serve um museu. Não adianta falar do financiamento que era pra ter sido dado há muito tempo.

É estranha, absolutamente absurda, a ideia de “reconstruir o museu”, como se nada tivesse acontecido. Ainda que se adquiram novas peças, são novas coleções. As peças que estavam lá, com 200 anos ou até mais, já não existem. Já se foram, estão destruídas, não há substituição. É muito importante entender esse aspecto. Cada peça de um acervo é como nós, uma peça única, não dá pra substituir.

A ideia de reconstrução é completamente absurda. Ou mentirosa mesmo. Você pode reconstruir o prédio do museu e colocar um novo acervo lá dentro. Mas não será equivalente ao que havia antes.

Correio da Cidadania: O que fazer com o Museu, ou ao menos seu espaço, daqui em diante?

Mercedes Okumura: Não sei, a maioria de nós não tem ideia do que irá acontecer. Falam em restaurar o edifício, li outras pessoas afirmando que se deve deixar como está, como uma espécie de réquiem da nossa incapacidade de cuidar de um patrimônio da humanidade. Não era um patrimônio do Rio de Janeiro ou do Brasil, mas do mundo.

Eu não sei, realmente não sei o que deveria ser feito. O que me dá muito medo é que de fato vivemos no país da impunidade. Lembro bastante do desastre do rio Doce, do rompimento da barragem. O maior desastre ambiental da história do Brasil e ninguém foi punido.

Se levarmos em consideração a gravidade do que aconteceu e se pensarmos que outros desastres já aconteceram, mas que nunca realmente aprendemos a lição, a fim de mudar a maneira de fazer as coisas... No momento, só tenho dúvidas, não sei o que vai acontecer.

Correio da Cidadania: Diante do momento político e institucional, que horizonte se apresenta para a sociedade brasileira, em especial no aspecto cultural e educacional?

Mercedes Okumura: É um problema de todos nós. O futuro dá até medo. Uma coisa é certa: se não usarmos esse tipo de tragédia para chamar a atenção das pessoas e do poder público, sem distorcer fatos, poderemos saber por que são importantes a cultura, a educação, a história na formação de um povo.

Precisamos de esperança: as ideias de cultura, patrimônio e educação não são frivolidades na formação de um povo. São super importantes pra nos entendermos como nação, país, sociedade. E, caindo no clichê, deixar de repetir erros do passado.

Temos de pegar as tragédias e chamar atenção, usar “a favor”, na falta de uma definição melhor, para questões que não aparecem sempre na mídia. A maioria das pessoas deste país talvez nunca tenha ido a um museu. Talvez possamos chamar atenção das pessoas para o que fazemos, desmontar a ideia de que museus são lugares de coisa velha que não serve pra nada, pois são lugares de educação, cultura. Devemos criar gerações que tenham uma estima e uma afetividade mais naturais em relação a lugares como o Museu Nacional.

Tenho certa vivência em outros espaços como este por conta da minha profissão. Trabalho bastante com acervos arqueológicos e pude ter, ainda que superficialmente, conhecimento de muitos museus no Sudeste e Sul. A realidade do Museu Nacional é regra, não exceção, do país. Se pensarmos que os outros exemplos, citados aqui [Museu da Língua Portuguesa, Instituto Butantan], pertencem ao eixo Rio-São Paulo, região mais rica do país, podemos imaginar como é no resto do país.

Os servidores que trabalham em tais lugares precisam ter certo amor à profissão. Como os professores, sabem que não terão status ou grande remuneração. Não preciso nem dar exemplos de como é comum tirarmos dinheiro de bolso pra comprar equipamento, insumo, coisas básicas como luvas, pra mexer no acervo, porque se esperar a verba não acontece nada.

Em 2015, no Museu Nacional, com a falta de pagamento de salários, os funcionários de limpeza deixaram de trabalhar e nós mesmos, das outras funções, assumimos essa tarefa. Infelizmente, são situações já naturais para nós. E talvez mostrem como a ideia de tentar culpabilizar as pessoas que trabalham em tais instituições, que certamente fazem verdadeiros milagres com os orçamentos repassados, é muito absurda.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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