As ideologias que matam

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Na semana em que a morte de Marielle Franco completou cinco meses sem solução, a candidata à deputada federal Talíria Petrone, que era amiga da vereadora assassinada, e também negra, mulher e política como Marielle, foi vítima de uma abordagem policial truculenta logo no seu primeiro dia de campanha. Em uma barca na travessia entre Niterói e Rio de Janeiro, um policial militar apreendeu o material de campanha da candidata e apontou uma arma para um jovem negro que tentou defendê-la. As motivações do PM foram expostas em um vídeo gravado por um repórter do Jornal do Brasil: para uma mulher que diz "arma mata", o policial responde dizendo "ideologia também mata" e "ideologia mata mais".

Se o Brasil fosse um país que ainda levasse um pouco a sério suas antigas aspirações de um dia se tornar uma democracia, a repressão a Talíria deveria ter se tornado um escândalo nacional. Ali estava um agente de uma das forças de segurança do Estado reprimindo uma manifestação política de uma candidata a um cargo eletivo e que, ao ser questionado, sugeriu que fazia isso por não concordar com a "ideologia" professada pela candidata – segundo ele, uma ideologia capaz de matar mais do que a pistola .40 em suas mãos.

Ah, mas vão dizer que se trata de um daqueles famosos "casos isolados", a ação de um único policial numa ação específica, que de maneira alguma reflete uma orientação da sua tropa. Ora, dirão, não é como se tivéssemos uma tropa paga e armada pelo Estado dotada de uma visão ideológica própria que se dedicasse a reprimir posições políticas contrárias às suas. Se fosse isso, seria um pesadelo para o nosso pobre Estado de direito.

Pois é bem disso que se trata.

Não faltam exemplos de episódios que revelam um posicionamento ideológico explícito dos policiais militares, de alinhamento às forças conservadoras e hostilidade declarada a ideais tidos como de esquerda. É só pensar no tratamento diferenciado dado a manifestações de rua pela Polícia Militar, que frequentemente despeja tiro, porrada e bomba em protestos de grupos de esquerda, mas se mostra simpática diante de grupos ligados à direita, inclusive os mais extremistas.

Durante uma escaramuça entre grupos de esquerda e apoiadores brasileiros de Donald Trump, em 2016, os policiais militares não só reprimiram apenas os jovens antifascistas, como ainda se acharam no direito de questionar a visão política deles. E não é para menos, já que uma parte significativa da PM não vê direita e esquerda como dois polos necessários e legítimos da vida política de uma democracia. Ao contrário: a esquerda é uma "ideologia que mata" e deve ser combatida.

Uma visão que apareceu com clareza em uma nota do Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo enviada ao Uol em 2014, no qual a Polícia Militar acusa os críticos de sua atuação de buscarem "minar estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião para implantar o comunismo, segundo uma visão caricata das ideias de Antonio Gramsci”.

A nota enviada em 2014 pela PM traz o mesmo mix de paranoia, informações distorcidas e teoria da conspiração que hoje aparece nas falas de Cabo Daciolo e Jair Bolsonaro. Tão preocupados com os perigos do comunismo internacional, da Ursal e do Foro de São Paulo, os militares candidatos deixam claro que não superaram a visão tosca dos militares da Guerra Fria, que viam riscos de ameaça comunista em qualquer um que pensasse diferente deles.

É algo que se torna ainda mais preocupante quando a gente repara em como a influência política dos fardados explodiu nos últimos anos. Pegue o protagonismo inédito dado aos militares pelo governo Temer, junte com o aumento de 10% nos pedidos de candidaturas de policiais e militares ativos e inativos nas eleições deste ano, misture com a presença cada vez maior de gente fardada em diferentes esferas da vida civil, da segurança pública à educação, e pronto: fica claro que tanto membros das Forças Armadas como de suas forças auxiliares, as Polícias Militares, estão colocando em prática um projeto de atuação política que revela um desejo explícito de influenciar os rumos da sociedade civil.

E o que acontece com quem não concorda com esse projeto de sociedade pensado pelos militares? Numa democracia, não seria um problema, poderíamos todos sentar juntos e debater. Mas episódios como o que Talíria enfrentou em seu primeiro dia da campanha parecem indicar que essa gente fardada, e armada, não parece estar muito afim de conversar.

Editorial da Ponte Jornalismo – direitos humanos, justiça e segurança pública.

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