Eleições 2018: “há uma fragmentação entre as candidaturas e ausência de debates profundos”

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Após a oficialização das candidaturas, começou oficialmente a campanha eleitoral para a presidência da República. Depois do primeiro debate televisivo, repercutem mais as piadas e tiradas do que discussões de fundo programático e ideológico abrangente. Em linhas gerais, a campanha, que também poderá servir como uma medição de forças entre as inserções na TV e nas redes sociais, reflete um país que não sabe o que fazer. Em entrevista ao Correio, o sociólogo Marcelo Castañeda analisa o início da corrida eleitoral e seus principais candidatos.

“No momento, ainda é cedo para afirmar se a polarização PT/PSDB será rompida ou não, sendo que para muitos agora ela aparece como ‘menos pior’, em especial pelo fenômeno Bolsonaro, apresentado como “mal maior”. Se PT e PSDB conseguirem se enfrentar novamente, muito provavelmente o MDB se dividirá”, afirmou.

Além de lamentar que a longeva polarização entre PT e PSDB possa ser o “mal menor” da vez, diante da incógnita do crescimento do histriônico Jair Bolsonaro e suas diatribes ultraconservadoras, não alimenta grandes expectativas nas alternativas representadas por Guilherme Boulos, Marina Silva e Ciro Gomes. Sobre projetos antissistêmicos e progressistas, acredita que têm chance somente por fora da institucionalidade e seus atores.

“A estratégia do PT é a estratégia de Lula, isso precisa ficar claro. Ele pensa e o partido obedece. Considerando a pretensão de manter a hegemonia do PT sobre a esquerda institucional, acabou sendo a melhor opção não compor com ninguém, salvo o PC do B, que sempre andou junto neste sentido. Resta saber se vai dar certo (...) Boulos é um dos principais defensores de Lula e isso o faz ser visto como parte do que alguns chamam de lulismo. Acho difícil que consiga se desvincular e se mostrar como alternativa progressista”, resumiu.

A entrevista completa cm Marcelo Castañeda pode ser lida a seguir.

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Correio da Cidadania: Como recebeu a divulgação das chapas presidenciais neste começo de semana?

Marcelo Castañeda: De certa forma, reforça-se a ideia de que há uma fragmentação grande entre os postulantes, exceto na candidatura de Alckmin, que conseguiu reunir todo o Centrão e vai contar com a maior parte do tempo de propaganda. Em termos de estrutura pode fazer a diferença a seu favor quando a campanha começar para valer, a partir do dia 15 de agosto.

Correio da Cidadania: O que acha que será predominante nos debates eleitorais? Teremos os grandes dilemas e necessidades do país devidamente trabalhados na campanha, em sua visão?

Marcelo Castañeda: Acho que não. Estou bem pessimista em relação ao debate acerca dos grandes temas, pois não há, a meu ver, candidaturas orientadas por projetos de país, por mais anacrônica que possa parecer essa ideia, que considero necessária, em especial se inseridas na ordem global. Os debates televisivos, por exemplo, se concentram em um jogo de ataques e defesas com base em trajetórias e propostas que tenham sido apresentadas pelos candidatos ao longo da campanha.

Assim, não há espaço para se debater profundamente os grandes temas, sejam quais forem – em geral saúde, educação, segurança e economia. Sem falar que a maioria dos debates televisivos acontece num horário em que a maioria das pessoas já não está mais acordada, com exceção do debate da Rede Globo nas vésperas do pleito.

A meu ver, influenciam pouco, ainda que sirvam para alimentar as torcidas que se formam nos sites de redes sociais.

Correio da Cidadania: Como analisa a figura de Jair Bolsonaro neste contexto e sua inserção pretensamente “outsider”? O que é o fenômeno em torno de sua figura, se é que se deve chamá-lo assim?

Marcelo Castañeda: É estranho que uma pessoa que está há trinta anos na vida pública como deputado federal seja vista como outsider, mas me parece que ele de fato está concentrando boa parte da intenção de voto de protesto e antissistêmico até aqui. Resta saber se conseguirá se manter, tendo em vista que sua estrutura de campanha me parece precária se comparada a de outros partidos, como, por exemplo, o PSDB de Alckmin, que vai disputar a mesma faixa de eleitorado.

Essa é a grande dúvida que tenho em relação a sua candidatura. De toda forma, o fenômeno é preocupante, pois significa que entre 15% e 20% da população vê nele uma possibilidade de mudanças que apresenta uma relação clara com o sentimento antipetista e anticorrupção, bem como a necessidade de ter pulso firme na condução do país.

Não estou sequer considerando os absurdos que Bolsonaro profere publicamente, pois a meu ver encontra forte ressonância e acaba visto por muitos como um ser autêntico ou que “fala o que pensa”.

Correio da Cidadania: Como vê Alckmin (de recente acordo com o chamado centrão) e Ciro Gomes (com Katia Abreu de vice)? O que podem ter a dizer a um país em crise generalizada?

Marcelo Castañeda: Ciro Gomes talvez tenha mais a dizer do que Alckmin, pois circulou bastante nos últimos dois anos e tentou, creio que sem conseguir, pensar um projeto de país de cunho desenvolvimentista, com ênfase no fortalecimento da indústria.

Já Alckmin vai tentar se escorar na sua experiência como governador e tentar se desvencilhar do governo Temer, o que será um desafio interessante de se ver, para não falar em uma tremenda cara de pau, que deverá ser denunciada, muito provavelmente pelo próprio Ciro. Ou mesmo Boulos, tendo em vista que não sabemos quando o candidato do PT poderá participar dos debates ou como será estruturado o programa eleitoral deste partido, assim como não sei se interessa ao PT rivalizar com Alckmin num primeiro turno.

O fato é: os candidatos que quiserem se diferenciar precisam se posicionar frente ao que a pergunta chama de crise generalizada, que atinge o povo com desemprego, falta de oportunidades e desesperança. Nesse sentido, vejo Ciro em mais condições do que Alckmin, ainda que este terá muito tempo de propaganda para se mostrar.

Correio da Cidadania: Como você vê a estratégia do PT em manter Lula na cabeça da chapa? E o que pensa de uma composição entre Haddad e Manuela D’Avila (PC do B)?

Marcelo Castañeda: A estratégia do PT é a estratégia de Lula, isso precisa ficar claro. Ele pensa e o partido obedece. Considerando a pretensão de manter a hegemonia do PT sobre a esquerda institucional, acabou sendo a melhor opção não compor com ninguém, salvo o PC do B, que sempre andou junto neste sentido. Resta saber se vai dar certo: Lula não poderá participar de debates, nem gravar vídeos, muito menos fazer campanha de rua, e isso vai acabar prejudicando a transferência de votos para Haddad e Manuela, quando os dois vierem a assumir a candidatura, provavelmente em 17 de setembro.

Eu acho injusto que Lula tenha sido preso e até mesmo que sua condenação em segunda instância tenha sido antecipada, mas o PT mostra que tem imensas dificuldades em compor com outras forças políticas, em especial quando tenha que deixar de ser o protagonista. Tal dificuldade pode ser fatal num pleito curto como o que temos agora.

Correio da Cidadania: A chapa de Guilherme Boulos-Sonia Guajajara não está demasiadamente atrelada aos discursos e slogans do PT? Você não acha que isso pode ser fatal para a apresentação de uma alternativa progressista ao cenário?

Marcelo Castañeda: A chapa Boulos-Guajajara tem um programa de governo baseado na plataforma Vamos, derivada de debates em universidades e com movimentos sociais, mas com pouca inserção popular, a meu ver. Fora o que a pergunta aponta: Boulos é um dos principais defensores de Lula e isso o faz ser visto como parte do que alguns chamam de lulismo. Acho difícil que consiga se desvincular e se mostrar como alternativa progressista.

Correio da Cidadania: Em entrevista de 2015, você disse que o país precisava do fim da “polarização sórdida entre PT e PSDB” na política nacional, ambos sempre mediados (ou chantageados) pelo PMDB, que afinal ficou com o governo, e também que não era mais possível dar votos de confiança no partido de Lula pela noção do “menos pior”. Acredita que teremos mudanças nessa dinâmica em 2018?

Marcelo Castañeda: Vai depender de como candidatos como Bolsonaro e Marina irão conseguir romper o poder das estruturas a partir das redes, o que é bastante difícil, bem como da capacidade de Lula transferir suas intenções de voto para Haddad e Manuela no momento em que ambos assumam suas candidaturas.

No momento, ainda é cedo para afirmar se a polarização PT/PSDB será rompida ou não, sendo que para muitos agora ela aparece como “menos pior”, em especial pelo fenômeno Bolsonaro, apresentado  como “mal maior”.

Portanto, se PT e PSDB conseguirem se enfrentar novamente, muito provavelmente o MDB se dividirá. Muitos apostam na reedição do enfrentamento entre tucanos e petistas, mas eu prefiro esperar a campanha começar.

Correio da Cidadania: Nosso pacto democrático pós-ditadura ruiu? O que imagina estar à espera do país e da população após as eleições?

Marcelo Castañeda: Esse pacto sempre foi uma ilusão. A democracia no Brasil é algo a ser construído pela participação ativa das pessoas em movimentos que consigam pressionar o poder constituído, mas o fato é que estamos num período de marasmo das mobilizações e as eleições contribuem para isso. Depois das eleições as coisas podem piorar, em especial se medidas como o teto de gastos e a reforma trabalhista não forem revogadas.

Provavelmente, teremos uma Reforma da Previdência – caso não seja feita no apagar das luzes do governo Temer. E tudo isso não está no cenário dos que estão na frente das pesquisas, nem mesmo Lula falava a respeito.
 
Fundamentalmente, precisamos nos organizar, a fim de conseguir pressionar as estruturas que nos oprimem. Não vejo que os partidos sejam o melhor caminho. Outras formas de organização se fazem urgentes e acho que movimentos sociais seriam o melhor caminho para que as mudanças aconteçam. O maior desafio é a dificuldade de organização.


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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