Reagir contra a Grande Derrota

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Um dos temas mais constantes na literatura da esquerda é falar da sua própria melancolia. Walter Benjamin dedicou um texto seminal ao assunto e desde então a questão aparece e reaparece a cada ciclo em que há uma derrota. Não há dúvidas de que, embora nosso momento seja rico em iniciativas férteis, vivemos tempos melancólicos. A retórica do golpe colabora com isso.

Veja bem: eu considero que houve um golpe. O impeachment foi baseado em um crime de responsabilidade mal demarcado, o procedimento foi casuísta e Temer foi acusado de coisas muito piores — inclusive com fartas provas — sem que tenha sido impedido. Em defesa dele, 90% dos deputados alegaram "defesa da estabilidade". Entre a estabilidade do voto popular e a de um governo capenga de mafiosos profissionais, qual é a legítima? A própria alegação de impopularidade é pífia perto dos índices do nosso chefe do Executivo atual, mais baixos que os da antecessora.

Em outros termos, o que aconteceu foi que Dilma perdeu sua base política, tanto institucional (parlamentar) quanto social (movimentos, público em geral) e foi destituída por isso. Algo que deveria ser comum numa democracia, tal como acontece no parlamentarismo ou com o recall. Contudo, reconheço que foi fora das regras do jogo e, por isso, houve uma irregularidade jurídica no procedimento. Como a regra violada é muito importante (soberania popular), não dá para não chamar de golpe.

Porém, com o golpe vem a narrativa que o explica: e aqui não dá para ir junto com os que usam a palavra. Uma grande conspiração em que atuaram juntos mídia, mercado financeiro, a direita política e o Poder Judiciário teria destituído uma presidenta legitimamente eleita a fim de implementar um programa neoliberal diferente do eleito pelas urnas. Chega-se a chamar o golpe jurídico-midiático. Jurídico-midiático-parlamentar. Jurídico-midiático-oligárquico-parlamentar-rentista. A esquerda, assim, torna-se uma vítima de um processo gigantesco de retomada do poder pelas elites políticas.

Desde então, tudo que acontece é reflexo do golpe. O parlamentar Jean Willys, do PSOL, por exemplo, recentemente declarou que a exclusão da cientista política Mara Telles do Big Brother Brasil é consequência do golpe parlamentar de 2016, uma vez que, quando o público o elegera como vencedor, estivera em jogo a politização do programa televisivo e o reconhecimento dos direitos LGBT. Agora, com o retrocesso golpista, viveríamos o processo inverso: Telles, tentando o mesmo movimento, teria sido excluída em face do ambiente implementado pelo golpe de Estado já no primeiro "paredão".

Esse tipo de retórica é constante nas redes sociais: tudo que acontece de negativo no Brasil desde 2016 é reflexo do golpe. Há uma espécie de descontinuidade absoluta entre os governos do PT e o governo atual fundada na mistificação do período anterior.

Mas não é bem assim. Os cortes na educação, por exemplo, já vinham sendo implementados como reflexos do ajuste fiscal, os ministros são quase os mesmos (e inclusive Lula sugeriu Meirelles como nome para a Fazenda) e uma das razões da perda de apoio de grande fatia da esquerda ao governo Dilma foi ter traçado um compromisso em campanha — na qual não só negou veementemente qualquer necessidade de ajuste, como inclusive acusou adversários de quererem jogar a população de volta à pobreza — e executado um programa inverso. Mesmo a "intervenção militar" ocorreu durante o período 2011–14. Isso é simplesmente recalcado. Qualquer pessoa que tenta levantar esses problemas é tachada de golpista, colaboracionista ou "isentona". Poucos aventuram-se, aliás, a imaginar o que teriam sido os três anos do governo Dilma II.

O catastrofismo atual conduz a uma condição melancólica. O golpe teria destruído o Estado brasileiro, retirado direitos dos pobres e ao fim e ao cabo conduziria a uma ditadura tecnocrática (hoje, poucos mantêm a aposta de que não haveria eleições em 2018), ou ainda o neofascismo de Jair Bolsonaro, chancelado por 20% dos eleitores, seria reflexo do golpismo implementado no Brasil.



O grande fracasso da "resistência ao golpe" causou uma ferida traumática na esquerda brasileira. A derrota numérica para a nova direita pós-2014 — renovada por organizações de propaganda liberal, neoconservadora e/ou fascista que se apropriam de estratégias meméticas nas redes sociais — mostrou um forte contraste entre os protestos verde-amarelos, mais diversos e motivados, e a melancólica "defesa da democracia" vermelha composta, na maioria das ocasiões, por centrais sindicais e movimentos sociais que afirmavam "defender um governo indefensável" em nome da democracia. O lema #naovaitergolpe — cópia do #naovaitercopa (que havia sido ferozmente combatido pelo governo Dilma) — condensa essa melancolia na forma de uma negação de algo que, sim, vai acontecer. Desde então, "todo dia é um 7 a 1".

Curiosa conexão: se a Copa do Mundo era para ter sido, originalmente, a apoteose do projeto do Brasil Grande lulista, o 7 a 1 é o seu supremo anticlímax. Humilhação total, sem paralelo na história do futebol brasileiro na própria casa onde se esperava a redenção da derrota na Copa de 1950.

Trajetória esburacada que começa quando Comitês Populares começam a se colocar contra as obras da Copa levadas pelo PAC ao país inteiro, segue-se com as manifestações de junho de 2013 e a resistência do #naovaitercopa em 2014. De qualquer modo, é sintomática a associação e o sentimento que carrega.

Mesmo antes de 2016, contudo, havia uma carta na manga: Lula. Com o capital político acumulado de 80% de aprovação no fim do seu segundo mandato, números econômicos e sociais invejáveis, capacidade de articulação política melhor que Dilma e um grande prestígio internacional, Lula figurava como o plano A petista para 2018. Até 2014, se você perguntasse "é legal Lula em 2018?", dificilmente alguém acharia uma boa ideia. Lula havia feito um ótimo governo e por que se começaria tudo de novo com ele? A ideia era a sucessão natural de lideranças. Mas como no período o PT só formou dois nomes — a própria Dilma e Haddad — a carta de Lula acabou tendo de ser usada.

Lula, porém, passou a responder a vários processos criminais. E todo mundo sabia que ele provavelmente seria condenado e com isso retirado da disputa pela Lei da Ficha Limpa. Qual a resposta? Colocar o julgamento no pacote golpista e considerar a eleição de 2018 como uma grande fraude. Não vou entrar no mérito da condenação de Lula. Sobre isso, me sinto contemplado pelo que escreveu Diego Viana. O que incomoda não é exatamente isso, mas a proibição de formular quaisquer alternativas.

Na realidade, conforme a condenação ia se aproximando e o tom de desespero ia aumentando, formular alternativas foi se tornando não só proibido, mas inclusive considerado como parte do golpismo. Gradualmente, Lula passou a ser o termômetro não só do PT, mas da esquerda e finalmente da própria democracia. Quem se opõe à candidatura de Lula se opõe à democracia. Quem não apoia Lula está ao lado dos golpistas.

Assim, foi se processando o fechamento estrutural de qualquer possibilidade que não a que simplesmente não irá ocorrer, isto é, Lula vencer. Lula não vai concorrer, mas só podemos apoiar Lula. Uma mera operação de lógica formal permite completar o silogismo: portanto, só podemos perder.

Gleisi Hoffmann cogitou "um banho de sangue" caso Lula fosse preso, depois afirmou ser apenas uma metáfora. Parlamentares insinuam reações violentas, mas não sustentam suas próprias afirmações quando instados a explicar a que se referem. Não há nenhum sinal fora das bravatas de que haverá resistência violenta. E, se houvesse, provavelmente seria derrotada, pois não conseguiria mobilizar o número suficiente de pessoas contra o aparato militar e os outros 50% da população que é contrário à candidatura.

O PT, assim, termina dizendo que sem Lula "não reconhecerá o resultado das eleições", o que significa absolutamente nada para efeito da dinâmica dos fatos. A grande questão é: existe alguma chance de algum resultado político concreto se realizar a partir disso?



Ora, o PT tem um plano. Esse plano não é secreto e nem destoa do resto do sistema político. É o projeto de sobrevivência. Durante os últimos 30 anos, a esquerda foi liderada pelo PT e o partido tornou-se a maior instituição de massas do mundo democrático. O PT conseguiu, ao longo dos 14 anos de governo, forjar-se como uma face de Janus em que partido (as negociatas da Realpolitik) e movimento (a utopia democrático-socialista) conviveram com relativa harmonia. Porém, nesse momento, o PT vê seu futuro nublado.

Politicamente, é fraco, excluído como Barry Lyndon da festa oligárquica por meio do seu principal anfitrião, o PMDB. Socialmente, vem aos poucos tendo sua base minada pelas contradições, que vão desde a Reforma da Previdência de 2003 até as alianças com os partidos golpistas em 2016 — isto é, desde sempre e todo o tempo.

A cartada do lulismo permite ao PT duas coisas. A primeira é ganhar tempo. Com Lula, a candidatura já sai desde um piso alto e tem chance de ser vencedora. O PT ganha tempo para preparar uma nova liderança para 2022 e uma nova oportunidade de fazer valer um governo competente, reconquistando a aprovação popular. Lula seria uma saída desde cima, como tem sido todas desde a hegemonia do Campo Majoritário, e permitiria um plano de médio prazo para o partido, a fim de sair da crise atual.

A segunda é reconquistar a superioridade moral. Depois do Mensalão, em 2005, e da Lava Jato, desde 2014, o PT vem acumulando acusações contínuas e aparecendo como mais do mesmo na política. Com a condenação injusta de Lula, o PT consegue reconquistar parte do prestígio perdido, figurando como vítima do processo golpista continuado pelo Poder Judiciário. Ele magnetiza os votos da esquerda para si na medida em que exerce a chantagem moral: está comigo ou com o golpe? Apesar dos desvios de conduta, o PT continuaria concentrando as forças populares e seria a principal ameaça ao establishment, como a condenação de Lula indicaria.

Assim, o PT ganha pelos seus dois lados: o lado partido tem uma estratégia viável, chance de alianças, pragmatismo econômico e protagonismo eleitoral; o lado movimento reconquista sua autoestima por estar sendo perseguido, mostrando sua valia para enfrentar a ordem no Brasil.

A estratégia é levar Lula até o fim, se possível concorrendo, é claro, mas caso não seja possível simplesmente indicando outra pessoa no final do processo, transferindo a maioria dos votos consolidados. Uma candidatura desde o zero não teria esse magnetismo sobre o voto popular. Com a ascensão do fascista Bolsonaro em segundo lugar, a situação fica ainda mais favorável: não só os votos da esquerda petista e do eleitorado lulista, mas quase toda extrema esquerda, boa parte do centro social-liberal e da centro-direita liberal teriam que migrar para Lula, evitando o pior.

É cedo para dizer qualquer coisa, mas meu palpite é: vai dar muito errado.



Eis a razão: se Lula transmitir os votos para seu sucessor no fim do pleito (em princípio, parece que será ou Haddad ou Jaques Wagner), este irá muito fraco para o segundo turno. E será fatalmente derrotado. Acumulará rejeição antipetista com falta da aura do líder. Se continuarmos com o cenário atual, em que aparecem dividindo votos Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Luciano Huck (?), Jair Bolsonaro tem chance de — mesmo diminuindo sob ataques — conseguir ir para o segundo turno para uma pequena margem de votos. E nesse caso qualquer um, mesmo Bolsonaro, vence o candidato petista. Se Alckmin conseguir emplacar a candidatura, superando Bolsonaro, o roteiro é o mesmo.

Nesse caso, considerando provável fracasso para a eleição parlamentar do PT, o partido encolherá, repetindo o padrão das eleições municipais de 2016. A aposta do PT, então, será renascer das cinzas. Talvez daqui a 10, 15 anos pode ser que "os livros de história" finalmente convençam a população de que houve um golpe, que Lula foi um preso político, que os ricos se mobilizaram para derrubar o PT e, também se tiver sorte, o PT pode voltar a liderar o país. Mas não há plano B. Nem Haddad nem Wagner tem capacidade de mobilizar as massas. Boulos está nesse vaivém entre PSOL e PT, mas é bastante marcado — para o momento atual — com um esquerdismo que não dialoga com a maioria.

Um grande hiato deve nos separar de um novo momento para a esquerda.
Chamo isso de "A Grande Derrota", mas também poderia ser "o verdadeiro 7 a 1". Não basta não conseguir a pequena quantia de votos necessários para evitar o impeachment depois de comprar deputados e senadores com financiamentos ilícitos de campanha e leilão de ministérios. Nem ver suas principais lideranças envolvidas com a justiça criminal. É preciso perder vertiginosamente. Perder muito. 7 a 1.

Ao não permitir que a esquerda trace alternativas ao lulismo, usando a chantagem do golpe (do qual a prisão de Lula é parte), o petismo bloqueia a emergência de estratégias e nos condena a perder miseravelmente. Temos obrigação política e moral de apoiar um candidato preso, vítima de injustiça, sob pena de estarmos alinhados às forças conservadoras. Mais: precisamos perder para estarmos "do lado certo da história".

Assim, não é acaso que a militância esteja tão deprimida. Quem se sente motivado para entrar no jogo condenado de antemão a perder? A militância sabe: a) que Lula seria condenado; b) que não vai conseguir concorrer; c) que não vai conseguir transferir os votos; d) que, se transferir, serão insuficientes para vencer; e) que não haverá resistência popular pacífica ou violenta; f) se houver, será insuficiente para deter o processo por inferioridade na força e pela divisão na sociedade pela metade a respeito do tema; e g) se o PT "não reconhecer as eleições", nada muda. Quem estaria motivado com isso?

A tarefa é: disputar e perder para recuperar a superioridade moral. Mas nem a superioridade moral pode ser recuperada, porque uma grande parcela da população não vê mais o PT da forma que via antes de 2005. Portanto, trata-se de disputar a superioridade dentro da esquerda, coisa que tampouco acontecerá (o PSOL, por exemplo, tem os quadros na condição do PT pré-2002) e, se acontecer, não muda nada (a parcela realmente "esquerdista" da população é uma minoria populacional sem condições de vencer qualquer eleição ou mesmo barrar um projeto de lei). Como não ficar melancólico diante disso?



Só existe uma forma de reagir a isso e é traçando um plano alternativo. Provavelmente não vai acontecer. É preciso mais que resistir: temos que criar, inventar novas formas de organização, articulação e participação, porque no parlamento as coisas podem ficar piores ainda. Já vimos o efeito da indiferença nessa legislatura: a próxima pode ser ainda pior, mais "ideologicamente" (em vez de fisiologicamente) reacionária, mais estridente e verborrágica, dominada pelo discurso do liberalismo predatório.

E isso envolve também traçar novas estratégias para as eleições que fujam da verborragia contra o golpe, pró-Lula e todos os chavões que envolvem o ecossistema vermelho. Essa estratégia, como a do PT, é de sobrevivência. Ou abandonamos a estratégia lulista, ou vamos fatalmente perder, simplesmente porque não há qualquer chance de vitória. É uma estratégia não só fadada ao fracasso: ela está conformada com o fracasso.

Precisamos, nesse ponto, recuperar a nossa vontade de vencer. Mas que isso também não nos seduza para um voluntarismo inócuo: ideias que provocam mudanças no mundo, movimentando forças materiais para colocá-las em ação, são ideias que mobilizam afetos e energizam os corpos que lutam por elas. Nada garante que sejam boas ideias. O fascismo tem mesa farta desses afetos e seus corpos decrépitos. Mas, no nosso caso, são boas ideias que irão nos levar a outro lugar, que vão colocar esses corpos em movimento.

O trabalho de reconquista da vontade de vencer, portanto, não passa só pela motivação. Sabemos que a maioria dos gurus da motivação é oca. Precisamos de uma imaginação que se conecte a uma estratégia. Dá para fazer até 2018?

Creio que sim, embora não do zero. É preciso localizar as forças políticas já existentes e arriscar novas composições. Fazer conexões proibidas, mixar ideias. Sem usar a energia que já está em potência nas universidades, nas favelas, nas aldeias indígenas, nos quilombos, nas periferias, nos coletivos urbanos, nos empreendedores criativos, enfim, sem usar essa imaginação em movimento com uma estratégia com os materiais possíveis, estaremos condenados a executar a cena melancólica que as forças políticas nos reservaram.

Moysés Pinto Neto é filósofo e professor de Direito, licenciado em Ciências Jurídicas.
Publicado originalmente em sua página no Medium.

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